Homem, responsável pelo trato cósmico

SCHWARZ, Fernand. Initiation aux livres des morts égyptiens. Paris: A. Michel, 1988.

“Quem se identifica com Osíris identifica-se com a força da renovação no universo. O morto não sobrevive mais por ter um filho vivo na Terra, mas porque se integrou ao esquema generalizado da relação pai-filho. […] O destino humano, antes linear, é projetado como um fenômeno cíclico, ao nível da espécie, no qual o indivíduo encontra a sua salvação.”

Transformar o tempo linear — a duração — em tempo cíclico, ou seja, curvar o tempo, dar-lhe sentido, parece ser o meio profilático privilegiado empregado pelos teólogos magos para garantir a ordem do mundo e enfrentar as ameaças de dissolução.

Para os egípcios, toda monotonia ou inércia é sinônimo de “morte verdadeira”. A luta contra as forças da inércia representa o modelo exemplar para vencer a morte como cessação da atividade. A participação consciente no ciclo da vida reside essencialmente na capacidade de se mover e se transformar.

Deuses e humanos participam assim da manutenção do mundo. A morte constitui, então, uma provação a ser resolvida por uma atitude ativa e voluntária no drama cósmico da existência. De fato, a alma é constantemente convidada pelos textos a permanecer ativa e vigilante, em verdadeira posição de combatente. A luz é conquistada ao assumir suas próprias trevas. É, portanto, uma viagem ao interior de si mesmo, como réplica do universo, que nos é proposta na literatura funerária do Egito faraônico.