Morada da Vida, Modelo do Mundo

SCHWARZ, Fernand. Initiation aux livres des morts égyptiens. Paris: A. Michel, 1988.

Parece que foi nas Moradas da Vida, instituições teológicas onde os textos sagrados eram compostos desde o Império Antigo, que a imaginação simbólica deu os seus primeiros passos no Egito dos Faraões.

O modelo de organização do espaço dessas Moradas da Vida já é, por si só, uma verdadeira geografia sagrada. A Morada da Vida estava sob a tutela do deus Thot, inventor dos hieróglifos, escrita sagrada que permite simbolizar por meio de imagens e sons os primeiros atos da Criação. Sendo o Verbo que anima a Criação, Thot tornou-se mestre das correspondências. O nome Per Ankh, “Morada da Vida”, é altamente sugestivo para indicar o local onde os sacerdotes ritualistas eram iniciados nos mistérios da escrita e da linguagem mágicas.

“A Morada da Vida devia ter características bem definidas, que são expostas em um formulário mágico cujo essencial pôde ser decifrado em um papiro conservado no Museu Britânico, em Londres. De acordo com esse formulário, a estrutura e cada um dos elementos do edifício tinham um caráter sagrado perfeitamente circunscrito, bem como um significado mágico. Conforme indicado nesse papiro, a Morada da Vida deve ser construída em Abidos — o “Santo Sepulcro”. Ela será composta por quatro construções ao redor de um edifício central com telhado de galhos. Osíris residirá entre as quatro paredes que representarão Ísis, Neftis, Hórus e Thot. Geb será o piso e Nut, o teto. O grande deus será o Ser oculto na Morada da Vida. As quatro construções externas serão de pedra: uma voltada para o norte, outra para o sul, a terceira para o oeste e a última para o leste. Construída em um local oculto a todos, a Morada da Vida será espaçosa. Ela deverá estar escondida dos olhares e ninguém poderá observá-la nem ver o que acontece nela. Somente o Sol poderá iluminar todos os seus mistérios. O pessoal permanente da Morada da Vida será composto pelo “sacerdote careca”, que será Chou; pelo degolador, que será Hórus, filho de Osíris, que, em nome de seu pai, aniquila os rebeldes que se levantam contra ele; pelo escriba dos textos sagrados, que será Thot, encarregado de recitar todos os dias as fórmulas rituais de purificação sem ser visto ou ouvido por ninguém. Eles deverão estar permanentemente em estado de pureza.

Nesta descrição da Morada da Vida, o casal Hórus-Thot substitui o de Neith-Selkit, para simbolizar o eixo Norte-Sul, o eixo ligado à purificação ritual. De fato, como a religião egípcia não era dogmática nem exclusiva, uma mesma função podia ser exercida por vários casais de divindades. O eixo leste-oeste, o eixo solar, é também o eixo da proteção, uma vez que está sob a guarda de Ísis e Neftis. Elas garantem assim a vida e a regeneração. A partir do Império Médio, Osíris assume o aspecto noturno do Sol, bem como as funções de regeneração e renovação do mundo. Rá mantém o poder diurno do Sol, associado à realeza e ao sacerdócio. No centro, a figura coroada, o Osíris “vivo”, está orientada de oeste a leste, com a cabeça a oeste, olhando para o norte.

Osíris é aqui o sétimo elemento, no centro do quadrado atravessado pelo eixo que liga Nut e Geb. Situado nos nove arcos que simbolizam os nove povos do Egito, ele é o senhor de todo o Egito. Nesta posição central, Osíris simboliza também o monte primordial que emergiu das águas do Nun.

As quatro paredes da Morada da Vida, orientadas de acordo com os quatro pontos cardeais, associadas aos quatro filhos de Hórus que protegem Osíris, encontram-se na organização do templo. A Morada da Vida aparece, portanto, como a imagem do mundo e, por isso mesmo, como o modelo exemplar dos templos egípcios.