SCHWARZ

Fernando Schwarz

Antropólogo e pesquisador das estruturas míticas e simbólicas das sociedades tradicionais e modernas, dentro da corrente tradicionalista. Desenvolveu estudos notáveis sobre o Antigo Egito.

Quando inclinamo-nos atentamente sobre a mensagem das tradições e filosofias do Oriente e do Ocidente, parece-nos que o Sagrado e o profano não são dois conceitos opostos, mas complementares. Eles indicam as duas direções ou tendências da Vida. Esta é considerada pela Tradição Universal como um grande sopro que percorre todos os elementos da criação, ritmando os atos dos homens e do mundo como uma respiração.

Essa respiração provoca um movimento que parte em duas direções: uma para o exterior, animada por uma força centrífuga, afastando- se do centro, portanto, de sua origem; e uma outra indo para o centro, animada por uma força centrípeta, retornando para as origens. A vida é movida simultaneamente por essas duas forças ou polaridades.

Graças à força centrífuga, ela difunde-se, dissipa-se, cria. Graças à força centrípeta, ela regenera-se, reconcentra-se, torna possível a renovação. Poder-se-ia identificar a força centrífuga com o profano, com a multiplicidade; e a força centrípeta com o Sagrado, com o movimento que aspira às origens, à Unidade.

O movimento para o Sagrado é um movimento para se lembrar, para se enraizar, para se qualificar.

A força centrífuga encarna a expansão quantitativa, isto é, o crescimento material e temporal que caracteriza o Universo do profano, pela fuga do centro. Longe de se excluírem mutuamente, Sagrado e Profano completam-se harmoniosamente.

Em todas as épocas, os homens souberam identificar, em terra, a presença dessas duas polaridades por intermédio de suas diferentes sensibilidades. Identificando os lugares que desprendiam um brilho, um “plus”, porque inspiravam o medo, a beleza, a contemplação, estes tornaram-se lugares do Sagrado, isto é , em que se manifestava a vontade de dominação do Sagrado: por exemplo, a floresta mágica, as árvores sagradas, as fontes, os rios. Os lugares em que, ao contrário, as forças dispersavam-se, em que o homem estava menos sob a influência do lugar, eram sempre ligados ao profano.

“Uma árvore ou uma planta jamais são sagradas enquanto árvore ou enquanto planta. Elas tornam-se sagradas por sua participação em uma realidade transcendente, e porque significam esta mesma realidade. Por sua consagração, a espécie vegetal concreta, «profana», é transubstanciada; segundo a dialética do sagrado, um fragmento (uma árvore, uma planta) vale o todo (o Cosmos, a Vida), um objeto profano torne-se uma hierofania”.

É esta faculdade de perceber o sagrado, inerente ao Homem, isto é, de ter acesso à dimensão do metafísico e do “sobrenatural”, pelo pensamento simbólico, que distingue o homem das outras espécies vivas do planeta; e não a Razão como acreditara-se durante os últimos séculos.