O despertar da consciência individualizada e do livre arbítrio é inviável em uma civilização tradicional, a qual condiciona o indivíduo desde o nascimento a conceber as leis e os costumes como uma espécie de necessidade, que Platão consideraria mais potente do que os próprios deuses.
A reflexão filosófica e, de forma ainda mais acentuada, a sociológica, no sentido moderno, não é possível nas civilizações tradicionais.
É necessário o colapso dos valores tradicionais, confrontados por um elemento espiritual inovador, capaz de desestabilizar o próprio mito primordial, para que o indivíduo inicie o processo de comparação, dúvida e escolha, o que, por sua vez, permite a liberação da consciência individual, senão de um autêntico livre arbítrio.
Portanto, é compreensível a afirmação de Adimante a Sócrates, na República (VI, 487 d 499 A, e VII, 520 b), de que o filósofo é um estranho à cidade-estado, “bizarro, inútil, como uma semente vinda de outro lugar”.
O próprio Sócrates, no Fédon (80 a-b), admite que sua postura parecia “totalmente absurda” aos olhos dos concidadãos, sendo ele, em sua cidade, um estrangeiro, no termo platônico, que se admira e questiona, “como um viajante recém-chegado”.
A reflexão do homem das civilizações tradicionais sobre a sociedade ocorre apenas em momentos de crise espiritual, social ou econômica, quando a ordem vigente se fragiliza e uma nova proposta ganha espaço na consciência do grupo, uma aspiração que se converterá em esquema de ação e pensamento revolucionário.
Contudo, essa fragmentação das estruturas tradicionais não implica, necessariamente, um progresso.
Assim como as abelhas reconstroem eternamente as mesmas células hexagonais após a destruição da colmeia por uma tempestade, os filósofos da antiguidade, como Platão, diante do caos de suas cidades destruídas, buscaram construir novas, mais seguras e protegidas, reforçando as virtudes cívicas.
Nenhum filósofo da antiguidade buscou, além dos confortáveis limites da cidade reconstruída, uma harmonia superior que envolvesse toda a humanidade, nem se propôs a legislar leis justas para a Oikoumené, abrangendo gregos e bárbaros.
Embora Platão reconhecesse na propensão expansionista das cidades, movidas pelo espírito de pilhagem, o desejo de satisfazer as crescentes necessidades de seus habitantes, a cidade antiga não se via investida de qualquer promessa ou missão divina.
Jamais um filósofo da antiguidade concebeu o inexorável transcorrer do tempo, que conduz os jovens à sepultura, como um elemento de aperfeiçoamento, por aproximar a humanidade de uma revelação divina: o reino do verdadeiro Deus.
Aristóteles, de forma estrita, encarou a história da humanidade como um ciclo de eterno retorno, pontuado por cataclismos cíclicos.
Consequentemente, a noção de progresso, no sentido de um aperfeiçoamento derivado da passagem do tempo, tal como é compreendida no Ocidente, é estranha ao pensamento dos filósofos que, ao reerguerem as muralhas da cidade antiga, visavam apenas a ancorar melhor sua sociedade ao presente e garantir sua imortalidade.
Se Platão exige obediência aos filósofos-guardiões e fé em um mito fundacional, considerado essencial para o bem comum de sua República, o homem das civilizações tradicionais é devedor de seu grupo e de seus valores, manifestando a virtude que os antigos chamavam de piedade (aceitação, anulação total do indivíduo em prol da continuidade do tecido social).
É, portanto, improvável atribuir à livre reflexão de raros espíritos esclarecidos do mundo antigo a gênese do que se define como progresso da humanidade.
O homem das civilizações tradicionais não é mais do que uma chama que arde entre dois espelhos paralelos, cuja luminosidade se dispersa nas profundezas da organização social e em uma específica concepção do universo.