Quando a partícula divina presente nos reis foi diminuindo e se apagando, por terem eles se unido a numerosas mortais, e quando começou a prevalecer sua herança humana, conforme o Crítias (121 a-b), não se contentaram mais com o que já possuíam e se deixaram dominar por uma desmedida cobiça de novas conquistas.
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Aos homens dotados de segunda visão, os reis pareciam feios, pois haviam perdido o bem mais precioso, a centelha divina, e eram presas de uma injusta avidez e vontade de poder.
Atlântida não é apenas o contraponto mítico da virtuosa Atenas governada por leis justas, mas representa e simboliza o Oriente — a Pérsia, mais especificamente —, cujas invasões haviam abalado as estruturas da sociedade grega muito mais do que os Atlantes de um passado longínquo e mítico.
Em vários aspectos, Atlântida recorda as cidades da Ásia Menor: Ecbátana, segundo o testemunho de Heródoto, era protegida por sete cinturões concêntricos de muros com as cores dos sete planetas, e no centro se erguia o palácio real, o tesouro do rei e os santuários erguidos por Nabucodonosor, revestidos de ouro e prata como o templo de Posêidon, conforme Heródoto, Clio, 98.
As cidades circulares são características da tradição oriental — Bagdá conservou sua planta original até o primeiro século do Islã — e exprimem uma das preocupações primárias da cidade retomada ao longo dos séculos por todas as utopias: exorcizar a morte.
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Alcméon de Crotona explica que os homens morrem porque não podem, como os astros, recomeçar do princípio quando chegam ao fim, conforme P. Lévêque e P. Vidal-Naquet, Clístenes o Ateniense, p. 78.
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Reproduzindo na terra a órbita dos astros e especialmente o movimento aparente do sol, a cidade de planta circular paralisa o tempo em um eterno presente, tornando os homens participantes da imutável inalterabilidade do tempo das origens assim reencontrado.
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Aristófanes apresenta Pistetário aconselhando os pássaros a construir uma cidade e a cercá-la de uma grande muralha circular de tijolos, como a antiga Babilônia, conforme os Pássaros (550 e seguintes).
É, portanto, o Oriente que Atenas derrotou uma primeira vez ao repelir a invasão de Atlântida — aquele Oriente cujo poder dependia de um elemento divino, quase mágico, um phuseos théias misturado à argila e ao esmalte das muralhas consagradas aos planetas, e cujo princípio político era a monarquia de direito divino.
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A esse Oriente se contrapõe Atenas, vitoriosa por ter sabido opor ao invasor a alma racional e o espírito da democracia.
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Aos Atlantes, ricos de todos os tesouros da terra, se contrapõem homens que desprezam os bens materiais deste mundo, a ponto de tê-los posto em comum para não conceder ao corpo mais do que o necessário.
A vitória de Atenas sobre Atlântida é já a dos pobres sobre os ricos, daqueles que escolheram se despojar de todos os bens sobre os que não conseguem se libertar da escravidão da riqueza.
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Atenas não precisará, para viver livre, de muralhas consagradas nem de reis divinos, mas apenas do harmonioso desenvolvimento da alma racional de cada cidadão.
Lidas as letras grandes do livro da cidade, é possível — como sugere Platão — decifrar o pequeno livro do microcosmo.
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As muralhas circulares e a planta cósmica das cidades recordam ao homem que, com cada um de seus gestos, ele participa da harmonia do mundo.
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Com o despertar de sua alma racional, o homem toma consciência com maior clareza de ser cidadão de uma cidade sem muralhas, fundada na vontade dos homens e não no arbítrio dos deuses.
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Leis justas dominam as paixões e as cobiças do corpo, estimulam neste mundo o despertar da alma racional e dão ao homem a possibilidade de escolher um bom daímon no prado dos mortos.
A contraposição entre o Império de Atlântida e Atenas é metáfora dessa luta, dessa stasis que é a contradição inerente ao homem, e desse conflito nascerá o pensamento moderno do Ocidente.
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Atlântida, com seu templo e as mil estátuas do recinto sagrado, simboliza uma precisa loucura da alma.
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Atenas é a cidade da justa recompensa, onde o homem se prepara para assumir sua humanidade e suportar as consequências de suas próprias ações.
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A cidade justa, cuja planta Platão traçou, prepara as utopias dos séculos vindouros: ela é a Cidade do Homem, de um homem livre de toda angústia, da fatal presença dos deuses, senão já do fardo de sua alma imortal.