As utopias se apresentam como sonhos nascidos do sentimento de abandono de uma classe social, e esse sentimento de Geworfenheit, no sentido de Heidegger em Sein und Zeit, é a condição do homem lançado no mundo, entregue a si mesmo, que não espera mais nada de uma potência superior em cuja existência nem acredita.
Platão sonha com uma república governada por príncipes-filósofos que reencontram nas leis justas as estruturas das civilizações tradicionais.
Mais tarde, a utopia se torna o refúgio de quem teme as grandes correntes milenaristas que não cessam de abalar o Ocidente desde o advento do cristianismo, tornando-se um objetivo proposto aos movimentos revolucionários para melhor contê-los.
Os humanistas, sábios, homens de Estado, homens da Igreja e industriais que sonharam com a Cidade do Sol foram impedidos pela “piedade” — o respeito pelos valores de sua sociedade, de seu tempo, de sua classe social — de conceber a ação libertadora que sozinha teria permitido realizar suas ambições.
A utopia foi para eles como um sonho que ocultava seu Weltschmerz, variando pouco em termos de modalidades expressivas de um período ao outro da história.
A utopia é, antes de tudo, vontade de retornar às estruturas imutáveis da cidade tradicional, uma cidade que surge além das turvas águas do sonho como uma ilha no oceano, como a Cidade do Homem libertado de toda angústia ao término da noite.