Para compreender plenamente o nascimento do Ocidente e sua busca do ideal de perfeição no futuro, é necessário remeter aos séculos anteriores ao cristianismo, à luta de Israel para preservar Jerusalém, a Cidade de Deus, das ambições do Império de Edom, a cidade de Caim, identificada com Roma.
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A Bíblia foi lida por séculos não como mito de criação do mundo, mas como manifesto revolucionário repleto de profecias referentes a todos os períodos de crise, exílios e prisões.
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Milhares de homens acreditaram e ainda acreditam viver o fim dos tempos anunciado pelos profetas, saudando cada tribulação como sinal premonitório dos últimos dias e anticâmara do Reino dos Justos.
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A origem do pensamento apocalíptico que domina a história do Ocidente ainda é incerta, podendo remontar, segundo Frank Moore Cross, aos essênios e às comunidades dos Justos da época dos Macabeus.
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Cross desenvolve essa hipótese em The Ancient Library of Qumran, p. 198.
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O cristianismo, herdeiro desses movimentos, iluminou a cidade antiga com nova luz, abolindo a diferença entre escravos e senhores pela igualdade no amor e substituindo a religião pagã pela preparação da cidade terrena para o advento da cidade celeste.
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Os imperadores convertidos ao cristianismo não transformaram as estruturas do ordenamento romano, e o Reino de Cristo se contrapôs ao Império de César, gerando uma contradição que dilacerou o Ocidente por longo tempo sob a forma de movimentos milenaristas que renovavam as gestas dos Macabeus e a epopeia de Bar Kochba.
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Revoltas como a de Espártaco eram ditadas pelo desespero, não por uma nova revelação.
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Conjuras palacianas eram motivadas pela vontade de poder de rivais do imperador.
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Somente após a Revelação o Ocidente conheceu movimentos profundos e crises que afundavam valores aparentemente indestrutíveis, trazendo ideias de fraternidade humana, desprezo pela riqueza e o novo Reino anunciado pelos apóstolos.
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Arthur Koestler, com extraordinária acuidade, imaginou Espártaco na véspera da revolta dos gladiadores conversando com um essênio, do qual extraiu o ensinamento e o sonho de uma cidade perfeita alheia ao ouro e aos caprichos dos deuses olímpicos.
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Os movimentos milenaristas traçaram o caminho do Ocidente desde as cidadelas do Mar Morto, onde os essênios aguardavam o fim dos tempos no exílio do deserto, refletindo sobre as gestas do povo eleito em marcha para a Terra Prometida.
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Antes do cristianismo, o milenarismo foi a esperança da Palestina esmagada por Roma e da Diáspora dispersa no Império romano, e o cristianismo deve sua rápida difusão a essa inquieta espera de um Messias, especialmente após a destruição do Templo no ano 70, vista como sinal premonitório do fim dos tempos.
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Com o passar dos séculos, o milenarismo permaneceu a esperança dos pobres do mundo, revigorada por guerras, fomes e epidemias sempre que os cavaleiros do Apocalipse passavam.
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Messias vestidos de miséria, movidos pelo ódio contra a iniquidade de seu tempo, foram considerados anjos vingadores e expressão da vontade divina por camponeses sem terra, pastores sem rebanho, artesãos sem trabalho e homens reduzidos a bestas de carga.
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Os movimentos milenaristas encarnaram e expressaram a vontade de homens que buscavam realizar neste mundo a nova ordem que Deus tardava em instaurar, com ondas de violência destinadas a acelerar, pelo sangue dos réprobos, o advento do novo Reino.
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A imagem do Pai foi substituída pela do Redentor, assim como a espera do Reino dos Iguais prolongou, no tempo, o caminho para a Terra Prometida.
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Tornado revolução, o milenarismo reafirmou a convicção dos pobres de que somente a eles pertence o Reino da Terra.
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Os mineiros de Zwickau em 1520 e os do Katanga em 1960 extraíram dessa convicção a força para libertar-se de sua miséria.
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Como um rio em cheia, o milenarismo gerou redemoinhos e bancos de areia que pareciam retardar seu curso ao longo dos séculos, ao se chocar com a inquietação dos proprietários.
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Os príncipes-filósofos da Antiguidade buscaram para a cidade justa as estruturas do passado, por não conceber melhores.
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Os humanistas do Renascimento e os filósofos do Século das Luzes aspiravam a uma cidade justa da qual seriam guias iluminados, recusando a dura Cidade dos Iguais que o povo aguardava.
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A utopia é a reação de uma classe social, a visão tranquilizadora de um futuro planejado que expressa o desejo profundo de reencontrar as rígidas estruturas da cidade tradicional, nas quais o homem, aliviado do livre-arbítrio e de toda responsabilidade, se aprisiona com alívio na rede das correspondências cósmicas e dos interditos.
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A distinção proposta por A. Daren entre desejo projetado no espaço e desejo projetado no tempo, em Wunschraume und Wunschzeiten (Conferências 1924-1925 da Biblioteca de Warburg, Leipzig-Berlim, 1927), é inconsistente.
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O desejo projetado no espaço não basta para criar uma utopia, assim como o desejo projetado no tempo não é suficiente para dar vida a um quiliasmo.
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A diferença entre esses dois aspectos do sonho de perfeição equivale à diferença entre a cidade antiga, República ou Atlântida, e a Terra Prometida, situada simultaneamente na extremidade do Mediterrâneo e no Fim do Tempo.
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É a natureza dos desejos que distingue a utopia da Terra Prometida, não a dimensão em que o homem situa seu sonho.
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A definição de Mannheim que considera utópicas todas as ideias situacionalmente transcendentes não pode ser aceita, pois a maioria das utopias, da República de Platão à Utopia de Tomás Moro, não transformou o ordenamento histórico-social preexistente.
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Icária, de Cabet, não resistiu à prova dos fatos ao ser concretamente experimentada.
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A utopia não é “situacionalmente transcendente”; ao contrário, está imersa no presente, com raízes na vida real, assim como um sonho.
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As utopias surgem em circunstâncias conflitantes análogas, propondo não como superar o conflito, mas a imagem tranquilizadora de um conflito já resolvido.
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A polêmica de Marx e Engels contra Proudhon acusou de utopismo um socialismo fundado na razão, na justiça e no desejo de remediar o mal-estar social, opondo-lhe o socialismo científico, autodefinido como fisiologia social, baseado na tomada de consciência das contradições da sociedade capitalista.
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Se Marx atacou violentamente o socialismo utópico, foi também porque lhe era difícil imaginar, ao fim da revolução, algo distinto das estruturas proudhonianas que ele mesmo taxava de utopismo.
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Os proudhonianos insistiram na possibilidade de alcançar o objetivo pela lenta educação moral e política de todos os cidadãos, despertando a consciência individual.
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Os marxistas transformaram a revolução em apocalipse necessária, gerada inelutavelmente pelas contradições internas da sociedade capitalista, um dilúvio provocado pelos pecados dos homens.
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Tanto o marxismo quanto a doutrina de Proudhon nasceram do milenarismo, um aguardando o fim do mundo, o outro preparando os eleitos para viver sem leis na Cidade dos Iguais.
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Os proudhonianos queriam despertar a consciência individual antes de exercer sobre a História a “pressão necessária”, como Proudhon chamava a revolução, e por isso não podem ser assimilados aos utopistas.
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Os utopistas e filósofos oferecem, na limpidez serena de um presente imutável, a visão de cidades radiosas cujas leis justas foram estabelecidas de uma vez por todas pelos príncipes-filósofos.
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Diversas interpretações tentaram explicar a utopia pela psicologia dos utopistas ou por referência à Cidade de Deus como mito de perfeição social presente no inconsciente de todos os homens, mas a utopia é a Cidade do Homem, tolerante e indiferente ao pensamento religioso, sendo todas as utopias religiões do Homem que o poupam das angústias sobre o sentido de sua aventura terrena.
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Essa indiferença religiosa faz a devida ressalva a um cristianismo de maneira ditado pela censura do ego consciente ou pelos imperativos de certas épocas.
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Todas as utopias fornecem ao homem uma finalidade clara.
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De Platão a Saint-Simon, Fourier ou Cabet, diversos reformadores políticos parecem ter buscado na utopia a visão tranquilizadora de um futuro ordenado, espelhando-se nas águas primordiais do sonho.
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John Lagard, discípulo de Jung, afirmou que “a cristandade envelheceu” e precisa renascer dos sonhos, como já se mostrou na revelação de São João (The Lady of the Hare).
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As diversas utopias imaginadas nos albores da reflexão sociológica apresentam inegáveis analogias com a cidade das civilizações tradicionais, retomando sua rígida geometria e suas leis coercitivas inquestionáveis por serem conformes ao Mito.
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A cidade radiosa, a Cidade do Sol, ignora os problemas do momento e representa uma aspiração profunda, como um sonho expressa os desejos e as angústias de um doente, sendo a ilha encantada preservada no meio do oceano, a arca perfeita reencontrada no fundo de um sonho.
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As utopias se apresentam como sonhos nascidos do sentimento de abandono de uma classe social, e esse sentimento de Geworfenheit, no sentido de Heidegger em Sein und Zeit, é a condição do homem lançado no mundo, entregue a si mesmo, que não espera mais nada de uma potência superior em cuja existência nem acredita.
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Platão sonha com uma república governada por príncipes-filósofos que reencontram nas leis justas as estruturas das civilizações tradicionais.
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Mais tarde, a utopia se torna o refúgio de quem teme as grandes correntes milenaristas que não cessam de abalar o Ocidente desde o advento do cristianismo, tornando-se um objetivo proposto aos movimentos revolucionários para melhor contê-los.
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Os humanistas, sábios, homens de Estado, homens da Igreja e industriais que sonharam com a Cidade do Sol foram impedidos pela “piedade” — o respeito pelos valores de sua sociedade, de seu tempo, de sua classe social — de conceber a ação libertadora que sozinha teria permitido realizar suas ambições.
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A utopia foi para eles como um sonho que ocultava seu Weltschmerz, variando pouco em termos de modalidades expressivas de um período ao outro da história.
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A utopia é, antes de tudo, vontade de retornar às estruturas imutáveis da cidade tradicional, uma cidade que surge além das turvas águas do sonho como uma ilha no oceano, como a Cidade do Homem libertado de toda angústia ao término da noite.