Para o corpo, a paz perfeita consiste no harmonioso funcionamento dos órgãos; para a alma, na moderação dos apetites; para a alma racional, no acordo entre pensamento e ação; e a paz de todas as coisas é a tranquilidade da ordem, conforme A Cidade de Deus (XIX, xxiii).
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A alma exerce sobre o corpo um domínio indiscutível, mas se não estiver submetida a Deus não encontrará em si mesma a força para comandar o corpo.
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Se a alma é para a carne princípio de vida, Deus é princípio de toda vida feliz para o homem, princípio superior ao qual deve tender toda a sociedade.
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O homem deve reencontrar essa vocação que o impele para Deus para poder lançar os fundamentos de uma cidade terrena, irmã menor da Cidade de Deus, vaso de eleição capaz de acolhê-la em seu exílio terreno.
A cidade celeste na terra é, em primeiro lugar, justiça — o Império de Deus sobre o homem, da alma sobre o corpo, da razão sobre o vício —, e somente essa justiça pode conduzir ao bem supremo que é a paz na terra e, portanto, a posse de Deus.
Santo Agostinho buscou definir a cidade terrena servindo-se também do De Republica de Cícero, escrito em 57 a.C., ou antes de alguns conceitos que Cícero coloca na boca de Cipião em um diálogo do Livro V.
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A república é, por definição, a coisa do povo, e o povo é, por sua vez, formado por uma multidão de seres racionais associados para participar em concórdia dos bens espirituais objeto de um amor comum — o que um sociólogo poderia chamar de ideal social.
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Um povo é melhor do que outro na medida em que tende a um ideal social mais elevado.
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Segundo Santo Agostinho, se se aceitam essas definições, corre-se o risco de não poder sequer falar de república, nem romana nem de qualquer outro tipo, na história do mundo, pois nunca um povo participou realmente da gestão de um patrimônio comum, e muito menos fixou como objetivo supremo a conquista de bens espirituais.
A república não pode ser governada sem justiça, e justitia designa a moral determinada pela filosofia enquanto jus designa o direito positivo, o fato do príncipe.
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Segundo Santo Agostinho, onde não há verdadeira justiça não pode haver direito: o que é feito com base no bom direito é justo, mas jamais um ato injusto poderá se fundar no bom direito.
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Sem verdadeira justiça, não se poderá falar de homens reunidos em uma sociedade, fosse mesmo por escolha comum: não existindo sociedade, não haverá povo, e muito menos uma coisa do povo, a res publica.
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Em conclusão, a justiça permanece o único fundamento possível para a cidade, e Santo Agostinho funda jus, o direito positivo, em justitia, que deriva da caridade e se baseia na ordem divina.
Se um Estado ou uma república repousam sobre valores falsos, não haverá justiça e os cidadãos não poderão se unir.
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A justiça de Platão era, em primeiro lugar, submissão a uma ordem lógica do espírito sobre o corpo, estendida ao reino dos filósofos sobre a totalidade da cidade.
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Segundo Agostinho, são valores falsos as fábulas inventadas por Platão para fazer os cidadãos da República aceitarem sua condição; valores falsos os deuses de Roma que há muito tempo não recebiam senão uma aparência de culto; valores falsos as inúmeras seitas disseminadas pelo Império, os mercadores de talismãs, a busca das riquezas ou dos bens terrenos.
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Nenhum Estado, nenhuma civilização poderia pretender durar fundando-se nas areias movediças da impotência espiritual.
Na obra de Santo Agostinho não se encontra o esquema detalhado da República platônica, nem as regras de higiene social definidas por Aristóteles em sua Política — sistema de governo, subdivisão dos cidadãos, regras econômicas e urbanísticas.
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A reflexão de Agostinho se exerce na busca do grande princípio capaz de guiar a vida terrena de modo a preparar a vida futura: a paz nascida da justiça, pedra angular da Cidade de Deus no exílio sobre a terra, que prepara o advento da Jerusalém celeste.
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A paz, segundo Agostinho, recorda a justiça de Platão — dikaiosune — que é equilíbrio, conformidade de um órgão à finalidade que lhe é própria, de um homem à sua condição social.
Santo Agostinho vai além de Platão, ou antes se coloca em um plano diferente, ao falar da paz do homem mortal com Deus e da obediência na fé eterna, pois o homem mortal, além dos círculos concêntricos de seus horizontes sociais, da gens à cidade, pode estabelecer um diálogo com Deus e estar em paz com seu criador.
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Existe uma lei eterna que transcende as convenções dos homens, seus preconceitos e também as leis justas da cidade.
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Além das preocupações do bispo Agostinho, imerso em seu tempo e que fortalecia com vigorosa polêmica a nova fé, A Cidade de Deus imprime seu selo no pensamento do Ocidente.
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Certos trechos dessa obra encontrarão, nos séculos seguintes, singulares ressonâncias no coração dos homens.
O mundo passou a ser dividido em bons e maus, em Cidade de Deus e Cidade do Diabo — uma fratura sentida dolorosamente por Israel na época do cativeiro, do exílio e da Diáspora, e que os cristãos vivenciaram em sua própria carne durante as perseguições.
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Se Santo Agostinho deixa a Deus a tarefa de fixar os limites da Jerusalém celeste, prisioneira de Babilônia, os homens devem tentar distinguir, apesar da fraqueza de seu espírito, o bem e o mal neste mundo, adequando-se à justiça de Deus na medida em que conseguem concebê-la.
Talvez as duas cidades simbolizem duas tendências da civilização ocidental que se contrapõem ao longo dos séculos, de uma revolução a outra: a cidade terrena, gozo dos bens materiais, triunfo da técnica e das máquinas sobre o homem; a Cidade de Deus, tenaz sonho igualitário dos homens, comunhão de bens como uma refeição partilhada por uma mesma família, fraternidade humana sob o signo do amor a Deus e ao próximo.
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Nesse sentido, a Cidade de Deus tornar-se-á o sonho de todas as revoluções, mesmo quando creiam ter recusado todo deus.
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No pensamento de Agostinho, a Cidade de Deus não é um refúgio das tempestades e das paixões mundanas, mas, ao contrário, um estímulo à ação para almas fortes capazes de travar uma justa luta: sua realização marcará o cumprimento da promessa do Apocalipse.
A Cidade de Deus se diferencia profundamente das utopias que serão elaboradas nos séculos seguintes na esteira do inelutável progresso da razão e das técnicas, pois a Cidade de Deus é conquistada apenas pelos méritos dos homens, ao término de um extenuante caminho no deserto, uma aventura que inspirará todos os milenarismos.
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Santo Agostinho o havia compreendido, ele que havia retomado e reforçado a esperança dos humildes: a luta pela conquista de uma nova Terra Prometida.
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Em A Cidade de Deus (XX, VII, 421), Agostinho propõe que os mil anos podem ser interpretados de duas maneiras: ou como os últimos mil anos, o sexto milênio considerado como o sexto dia cujas etapas já se desenrolam, ou como o sábado que não terá tarde, o repouso dos santos que não terá fim.
Sob o pesadelo das fomes, das guerras e das pestes, os homens percebiam os sinais premonitórios do fim dos tempos e criam já ouvir, no abismo de sua miséria, o galope dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse.
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Os pobres, famintos de justiça, se levantariam e exigiriam ser saciados em nome do Evangelho, condenando os príncipes da terra cujo poder é a miragem sanguinária de Babilônia.
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Profundas correntes de pensamento sacudiram a Europa e varreram os últimos vestígios do Império dos Césares, primeiras dores de parto do conturbado nascimento do Ocidente.