As comunidades “surgidas nos últimos tempos e que ainda existem”, mencionadas por Engels e Marx em Utopisme et communauté de l'avenir (Paris, Maspero, 1976), podem parecer proceder de certa concepção “utópica” da sociedade, mas são na realidade comunidades religiosas e místicas, como os Shakers — seita fundada na Inglaterra em 1747 e posteriormente expandida ao norte dos Estados Unidos, em Nova Jersey —, que se mantiveram ao longo do tempo por força de uma fé religiosa estrita, da separação dos sexos e do celibato.
-
Nos Shakers encontra-se a comunidade de bens, mas sob a coerção de uma fé rigorosa.
-
Essas comunidades estão longe de Platão, Tomás Moro, Rabelais, Fourier ou Owen.
-
O vínculo que une certa concepção da aventura humana a Deus é mais forte que os laços estabelecidos unicamente pela comunidade de bens terrenos.
-
O princípio “econômico” dessas comunidades é um versículo dos Atos dos Apóstolos (2, 44-47), que descreve a vida em comum dos primeiros cristãos, a partilha dos bens conforme a necessidade de cada um, a perseverança unânime no templo e a fração do pão nas casas com alegria e simplicidade de coração.
-
A análise de Henrick F. Infield sobre essas comunidades mostra os hutteritas e os amish fechados ao mundo exterior e temerosos dele, longe de construir o modelo do qual fala Mannheim.
-
Estender a noção de utopia a essas comunidades evangélicas de fé inabalável e, a partir daí, a todas as comunidades religiosas em geral, confundindo monaquismo e utopia, só pode ser um exercício de retórica, pois a simples leitura de todas as utopias evidencia o caráter vago da religião nelas praticada.
-
Tomás Moro afirma que os “utopianos creem que contemplar o Universo e louvar o autor das maravilhas da criação é um culto agradável a Deus”.
-
No Ano 2440, segundo o sonho de Mercier, os homens renunciaram à teologia e praticam o monoteísmo “dos patriarcas”, com templos coroados por cúpulas transparentes que colocam os fiéis em contato com as “grandes lições da Natureza”.
-
Muitos autores acreditaram dever distinguir a “utopia escrita da utopia prática”, sendo a utopia escrita quase sempre definida como tal pelo próprio autor, que não nutre qualquer ilusão quanto às possibilidades de aplicar a constituição cujos méritos enuncia, ao contrário das utopias “praticadas”, sobre as quais ninguém pode estabelecer critérios precisos.
-
Toda associação pode ser considerada uma utopia se tem como objetivo a felicidade de seus membros e seu isolamento consentido do restante do mundo, mas nas utopias escritas os homens são tão felizes que nenhum deseja partir, ao passo que as utopias “praticadas” terminam geralmente, após poucos anos, com o afastamento de membros exasperados, demonstrando a impossibilidade de edificar uma sociedade sobre a rejeição dos valores individuais e um ideal de vida espiritual limitado.
-
A distinção entre utopia escrita e utopia praticada corre o risco de agrupar na mesma confusão um convento de trapistas, uma aldeia de recreio e “utopias limitadas no tempo” como o piquenique anual de qualquer grupo, e uma constituição política não é uma utopia mesmo que nunca seja aplicada, como demonstra fartamente a história do Direito constitucional.
-
A utopia pode ser incluída no que a crítica literária chama de “política-ficção”, desde que nem esta nem a “ciência-ficção” sejam vistas como esboço do futuro, pois as utopias, mesmo quando os homens tentaram realizar o que delas compreendiam, se revelam como “revoluções” no sentido etimológico do termo, ou seja, tentativas de retorno ao passado.
-
Victor Hugo afirmava que “a utopia é a verdade do amanhã” e Lamartine que “as utopias são apenas verdades prematuras”, mas essas afirmações não resistem ao exame.
-
As utopias se apresentam como formas crípticas de retorno a um passado imaginado de maneira mais ou menos consciente.
-
A República de Platão, rural, afastada do mar e hostil ao comércio, estava longe da Atenas de seu tempo, disposta a lançar-se à aventura oriental para recuperar a prosperidade passada, e quase sete séculos depois o filósofo Plotino pediu ao imperador Galieno que resgatasse das ruínas uma cidade que teria existido na Campânia, onde pretendia retirar-se com seus discípulos para obrigá-los a viver segundo as leis da República de Platão, dando à cidade o nome de Platonópolis.
-
A fonte para Platonópolis é Porfírio, Vida de Plotino, 12, 1, no século III da era cristã.
-
Tomás Moro descreveu sua ilha feliz de Utopia no momento em que o Ocidente vivia o alvorecer de sua expansão após a conquista do Novo Mundo, buscando na tolerância religiosa dos utopianos um alívio diante do grande desgarramento espiritual do Ocidente e da ferida sofrida em sua fé de cristão e em sua fidelidade ao rei.
-
As medidas sociais adotadas pelos Tudor na Inglaterra no século XVI — como a lei que exigia que toda casa de campo fosse cercada de pelo menos quatro acres e meio de terreno, e a pensão de quatro dinheiros a um xelim semanal pago pelas paróquias aos idosos sem recursos — não devem nada aos utopistas.
-
O príncipe eleito da utopia de Moro, precedido por um maçaroco carregado com um feixe de trigo, insignia de suas funções, está muito distante de uma Inglaterra aberta à conquista dos mares pela força de seus comerciantes, capitães e piratas.
-
No século XVIII, ao iniciar-se a transformação industrial da Europa, os utopistas elogiavam os méritos do retorno à terra, e no século XIX, quando o fenômeno urbano dissolvia os antigos horizontes sociais — a paróquia, a aldeia, o casal — e a velha coesão familiar, os utopistas traçavam planos de coletividades e falanstérios, contrariando o desejo dos migrantes de fugir das velhas tutelas e mergulhar no anonimato das cidades.
-
O desejo de anonimato urbano é um elemento importante sem o qual o êxodo rural, reduzido a suas determinações econômicas, não seria plenamente compreendido.
-
Já na Inglaterra desde o início do século XVIII, outras utopias preconizavam a igualdade e a comunidade da terra, enquanto a Companhia das Índias Orientais havia recebido sua carta em 1600.
-
As frágeis comunidades que se reúnem em nome do retorno à terra-mãe não contaminada e se dissolvem ao descobrir as duras realidades da criação de cabras e os problemas de um artesanato aprendido em três semanas ilustram a afirmação infundada do caráter premonitório das utopias como anunciadoras de um futuro comunitário, que é uma forma de fazer desses sonhos de boas intenções signos precursores do advento inevitável de um Estado comunista e da ditadura do povo.
-
As realizações do socialismo utópico, suas comunidades sem brilho que se dissolvem no tédio ou na exasperação, não influenciaram a vida política do Ocidente e não tiveram na história o peso com que Proudhon sonhava.
-
A afirmação de que teria havido um “socialismo utópico” que seria para o socialismo “científico” o que a poesia é para a ciência não resiste ao exame, pois o evolucionismo em que o socialismo científico se apoia também conduziu ao imperialismo e ao racismo com mais segurança do que à democracia, e a mesma concepção materialista da história pode estar a serviço de qualquer sistema de governo fundado na preeminência dos bens deste mundo.
-
Dominique Desanti, em Les socialistes de l'utopie, p. 307 (Paris, Payot, 1970), observa que a bandeira de Marx e Engels flutua sobre um terço das terras emersas — URSS, China, Estados Asiáticos, Europa Oriental e Cuba —, e que os dois partidos políticos mais organizados da França e da Itália os tomaram como predecessores, concluindo que o socialismo que se proclamou científico “teve êxito” e é, segundo seus partidários, um socialismo realista.
-
A descrição da vida totalmente comunitária em um país do sudeste asiático — sem dinheiro nem salário, com um quilo de arroz por dia, uma muda de roupa por ano, brigadas móveis de jovens separados de suas famílias, oito horas diárias de trabalho, descanso teórico de três dias mensais dedicados em grande parte à formação política e rádio que bombardeia a população com comunicados e coplas revolucionárias de um partido onipresente e misterioso — leva a questionar se isso constitui uma realização do socialismo “científico” e se Tomás Moro, Rabelais, Fourier ou Robert Owen teriam sobrevivido nessa “utopia” que se proclama descendente direta de seus sonhos.
-
A fonte é A. M. Cambodge, “Le socialisme par le vide”, em L'Express, n. 1395, 3-9 abril 1978.
-
A pergunta se Erasmo teria feito o elogio dessa loucura sintetiza a ironia da distância entre o humanismo utópico e suas supostas realizações.
-
Diante desse quadro, talvez a utopia deva ser considerada o que seus autores sempre afirmaram que era: uma forma de sonhar acordado.
-
Muitas abordagens infrutíferas tentaram explicar a utopia pela psicologia de seus autores ou pela referência à Cidade de Deus como mito de perfeição social presente no inconsciente de todos os homens, mas a utopia é a Cidade do Homem e somente isso, indiferente a todo pensamento religioso, ressalvado certo cristianismo ditado pela censura do consciente e pelos imperativos de algumas épocas.
-
Todas as utopias pretenderam ser religiões do Homem, poupando-lhe as angústias da meditação sobre o sentido de sua aventura terrestre e oferecendo-lhe uma finalidade como meta de toda a vida, ao ponto de tentarem a comparação com os piores regimes totalitários.
-
John Lagard, discípulo de Jung, afirmou em The Lady of the Hare que “a cristandade envelheceu” e precisa renascer dos sonhos, como outrora se manifestou na revelação de São João.
-
De Platão a Saint-Simon, Fourier ou Cabet, muitos reformadores políticos parecem ter buscado na utopia a visão tranquilizadora de um futuro ordenado pelo homem, e as diferentes utopias imaginadas nos primórdios da reflexão sociológica apresentam inegáveis analogias com a cidade das civilizações tradicionais, com sua rígida geometria urbanística e suas leis coativas inquestionáveis por serem conformes ao mito de fundação.
-
A cidade radiante, a Cidade do Sol, ignora os problemas do século e representa, para além dos sistemas econômicos ou sociais, uma aspiração profunda de refúgio, como um sonho expressa os desejos e as angústias de um doente.
-
Cercada de altas muralhas ou protegida pelo oceano, ela é a ilha encantada milagrosamente preservada, a arca perfeita redescoberta ao fim do sonho.
-
As utopias se apresentam como sonhos nascidos do sentimento de abandono de uma classe social — sempre a mesma ao longo dos séculos —, e esse sentimento de desamparo, a Geworfenheit no sentido que Heidegger dá ao termo em Sein und Zeit, é o estado do homem lançado ao mundo, abandonado a si mesmo, sem esperar nada de um poder superior em cuja existência já não acredita.
-
Platão sonha com uma república governada por príncipes-filósofos que reencontram nas leis justas a organização hierarquizada das civilizações tradicionais.
-
Mais tarde, a utopia torna-se o refúgio de quem é atemorizado pelas grandes correntes milenaristas que não cessam de sacudir o Ocidente desde o surgimento do cristianismo.
-
Ainda mais tarde, a utopia será um objetivo proposto aos movimentos revolucionários, preocupados unicamente com os meios e sentindo-se impotentes ao despertar de sua apoteose sangrenta.
-
Os humanistas e os sábios pretendem ser os guias iluminados da nova sociedade, esperando por longo tempo — a ponto de ainda esperarem — que uma autoridade misteriosa lhes confie o poder em nome da sabedoria e da razão, e a utopia é para eles como um sonho que mitiga seu Weltschmerz, com poucas variações em temas e formas de expressão ao longo da história.
-
A utopia é, antes de tudo, uma vontade de retorno ao urbanismo e às leis imutáveis das cidades tradicionais, ancoradas em sua conformidade a um modelo mítico primordial, do qual os humanistas se sentem os senhores iluminados.
-
Ela se ergue para além das águas revoltas do sonho como uma ilha ao fim do oceano, a Cidade do Homem libertado de suas angústias, do peso de sua liberdade e de seu livre-arbítrio ao fim da noite.