O homem gerou Cronos — o Tempo armado da foice — a partir de três séries de eventos que se desenvolvem na duração: a existência biológica dos seres vivos, o ritmo da vegetação e o movimento dos astros.
Em cada um desses três casos há um ciclo — nascimento-morte do indivíduo, alternância das estações, aparente nascer e pôr do sol —, e não um evento irreversível.
Se a existência biológica do indivíduo é um continuum não reversível, suas diversas fases se repetem inelutavelmente de geração em geração, sugerindo a noção de ciclo.
A maior parte das reflexões religiosas representa o Além como uma espécie de banco de almas.
Por muito tempo a História foi serva da astrologia, e nas grandes civilizações do Oriente Médio os historiadores eram cronistas encarregados de registrar minuciosamente todos os acontecimentos, enquanto os sacerdotes anotavam todos os aspectos dos astros e todos os sinais — fenômenos meteorológicos, nascimentos teratológicos, prodígios de toda sorte —, permitindo estabelecer conexões não casuais entre um evento e outro.
Paralelamente, o homem possui a noção, atestada em todas as civilizações, de grandes ciclos cósmicos: sóis entre os índios da América Central e do Sul, águas entre certos povos da África negra, e os textos hindus também testemunham a crença em periódicas destruições e criações do universo, conforme o Atharva Veda (X, 8, 39-40).
Platão, como iniciado, conhecia indubitavelmente as especulações astronômicas do Oriente, e a história da humanidade, tal como a descreve no Livro III das Leis, é uma sucessão de períodos evolutivos que culminam na reconstituição da cidade, terminando cada vez em colossais cataclismos dos quais escapam apenas os que vivem nos desertos ou no cume das montanhas.
O Ocidente não encontrou nesses temas antigos, mais ou menos fielmente conservados e transmitidos pelos filósofos gregos, as razões da esperança no futuro nem sua fé no progresso, pois a esperança do Ocidente devia se confundir primeiramente, ao alvorecer de um novo pensamento, com a de um velho nômade sem filhos.
O Eterno disse a Abraão que partisse de seu país, de seu parentesco e da casa de seu pai para o país que lhe seria mostrado, prometendo fazer dele uma grande nação e abençoá-lo, conforme Gênesis (XII, 1-2).
Abraão ergueu um altar ao Senhor, invocou seu nome e partiu em direção ao Neguebe, de acampamento em acampamento, conforme Gênesis (XII, 8-9).
Abraão seguia em marcha com sua mulher Sara e seu sobrinho Ló, e uma disputa entre pastores tornou necessária a partilha dos pastos: Ló escolheu toda a planície do Jordão e partiu em direção ao Oriente, conforme Gênesis (XIII, 12), cabendo a Abraão e a sua descendência o Ocidente.
Após várias peripécias e tribulações, o velho nômade ouviu novamente a voz do Senhor e respondeu que partiria sem filhos, conforme Gênesis (XV, 2), e o Eterno o conduziu para fora e lhe disse que contemplasse o céu e contasse as estrelas: tal seria sua progênie, conforme Gênesis (XV, 5).
Então ocorreu o sacrifício da aliança, após o qual Abrão tornou-se Abraão, Pai dos Povos.
Nenhum escriba de Ur na Caldeia, por mais atentos que fossem aos mensagens dos astros e aos anedotas da corte, soube que naquele dia havia sido fundado o Ocidente ao qual fora prometido o império do mundo.
Quando o sol se pôs e veio a noite escura, uma fornalha fumegante e uma chama de fogo passaram pelo meio dos animais divididos — uma novilha de três anos, uma cabra e um carneiro sacrificados por Abraão, o preço do Ocidente —, e Deus concluiu uma aliança com Abraão, dando a sua progênie o país do rio do
Egito ao Grande Rio Eufrates, conforme Gênesis (XV, 18).
Três gerações depois, Jacó, neto de Abraão, abençoava antes de morrer sua descendência: as doze tribos a caminho da Terra Prometida.
Para um restrito grupo étnico, o tempo tornou-se um contínuo fluxo sem retorno, irreversível, e o caminhar de Israel no deserto não era mais um devir cíclico, mas um progresso em direção a uma meta absoluta: um bem-estar terrestre numa terra onde correm leite e mel, e ao mesmo tempo uma felicidade espiritual dada pela consciência da presença de Deus.
Por séculos Israel buscaria, através de mil provações, conquistar a Terra Prometida por Deus a Abraão para que se instaurasse o Reino do Messias — o último rei, ungido pelo Senhor, nascido de Davi, que reconstruiria o Templo de Jerusalém e aporia seu selo à renovada aliança, levando o tempo a seu cumprimento.
Desde então o tempo tornou-se um fator de aperfeiçoamento, um caminho que conduz à realização da promessa divina.
A palavra de Deus promete ao homem um paraíso atingível, distante apenas uma geração dos pobres acampamentos espalhados no deserto.
O homem pode alcançar a felicidade nesta terra se souber esperar, pois cada instante o aproxima mais do prazo fixado por Deus, e deve saber suportar provas e batalhas porque esse é o preço da Terra Prometida: o rico território que nem os cananeus nem os perizitas souberam apreciar.
O Senhor exorta: levanta-te, percorre o país em toda sua extensão, pois ele será dado, conforme Gênesis (XIII, 17).
Esse pensamento pesa sobre o Ocidente moderno e sua história muito mais do que a filosofia dos gregos.
Marcado pela Promessa, o Ocidente lutará para conquistar a terra sobre a qual poderá edificar a Cidade de Deus: um paraíso à medida do homem, uma Cidade nova, regenerada por lutas e aflições.
A nova lei estabelece que Deus criou todas as nações e que Israel é responsável pela humanidade — um povo que os filósofos da Antiguidade sequer mencionam.
Isaías, falando da Jerusalém celeste, confere à noção de Terra Prometida uma nova perspectiva: Israel não é a única ligada à nova aliança, e a divisão entre Povo Eleito e gentios desaparece na visão do profeta.
No trecho citado por Isaías sobre o território dos gentios, o povo que caminhava nas trevas avista uma grande luz.
Já está presente em germe a Ecúmeno do Ocidente, que as muralhas de Atenas não poderão conter nem as leis justas de Platão bastarão.
Às muralhas esmaltadas que simbolizam a órbita dos planetas se contrapõe um povo em marcha no deserto, nutrido por Deus, guiado por Deus, rico da certeza de ser, por vontade divina, herdeiro da terra.
As sociedades tradicionais se apoiam em um mito de fundação que, fazendo remontar a origem das famílias a um ancestral fundador, justifica as castas e as diferentes categorias socioprofissionais, e o sistema social resultante é tolerável na medida em que os homens, tomando consciência de seu alcance metafísico, o consideram um modo de se integrar na harmonia cósmica.
Mas torna-se absurdo e detestável quando desaparece ou enfraquece essa vontade de reintegrar o homem no universo, quando o mito de fundação foi esquecido ou deixou de ser compreendido.
Esse esquecimento, ou a tomada de consciência de sua inadequação, tem causas diversas, algumas externas à sociedade, como razões demográficas.
Uma mudança nas atitudes fundamentais de uma sociedade, uma modificação da concepção do mundo e do lugar do homem no mundo, podem provocar toda uma série de perturbações que atingem tanto as estruturas sociais quanto as econômicas.
A passagem do Império romano aos valores espirituais e materiais que constituem os elementos essenciais da civilização ocidental foi provocada por três ordens de fatores.
Cronologicamente, o Império romano pertence à era cristã, mas já havia sido marcado pela penetração do judaísmo.
Uma noção nova, a dignidade do ser humano, abre caminho pouco a pouco através das fissuras das estruturas sociais tradicionais.
Os Cínicos já haviam pregado a vaidade das leis nascidas do espírito dos homens: Diógenes, em seu tonel, sem cidade, sem casa, proclamou-se cidadão do mundo, e Crates de Tebas declarou não dispor de uma cidade mas do mundo inteiro para viver sua vida, conforme Jean Aubonnet na Introdução à Política de Aristóteles (Budé, Paris, 1960, p. 126).
Zenão de Cítio esboçou, segundo Plutarco, uma nova constituição conforme à sabedoria, na qual, na Cosmópolis, tudo devia ser subordinado ao bem supremo da humanidade, e os escravos, como os bárbaros, poderiam tornar-se cidadãos, pois todos os homens são iguais e livres, unidos pelo único princípio do amor.
Um rei-filósofo guia a nova cidade, imagem do Logos-Rei, da Razão que governa o universo, os deuses e os homens.
Alguns discípulos do Pórtico, a nova escola filosófica, tornaram-se missionários para ensinar seu ideal social a príncipes que desejavam aprender as virtudes estoicas, mas em 146 a.C. a conquista espiritual de uma restrita aristocracia era o único resultado possível para uma filosofia que sonhava se impor ao universo pela força da razão.
No plano da história das ideias, resta ainda definir a exata amplitude das ideias de
Zenão de Cítio e de seu mestre Crates em um mundo mediterrâneo propício ao confronto de doutrinas e sistemas filosóficos.
Mas é absurdo sustentar que uma escola tão restrita como a do Pórtico tenha podido se impor a ponto de moldar a vida política de um país, suas estruturas sociais e seu desenvolvimento econômico.
É igualmente absurdo representar o Império romano como um conjunto homogêneo pronto a se render ao cristianismo sem uma aparente necessidade, como no exemplo do imperador Constantino misteriosamente inspirado.
Os historiadores tendem com frequência a passar em silêncio o papel desempenhado pelas comunidades judaicas da Diáspora na transformação do pensamento ocidental e na própria gênese do cristianismo.
Na época de Cláudio, entre 10 a.C. e 54 d.C., um censo dos judeus do Império fornece a considerável cifra de cerca de 7 milhões, ou seja, 7 a 8% de toda a população, conforme J. Juster em Os Judeus no Império Romano (vol. I, p. 210).
Os massacres que se seguiram à guerra de 70 reduziram em cerca de um terço o seu número, mas o proselitismo compensou o sangue dos mártires.
A essa cifra devem ser acrescentados os convertidos e os que, muito numerosos entre os gentios, adotavam apenas a ideia fundamental do judaísmo: o monoteísmo.
Esses últimos não eram judeus em todos os sentidos, embora vivessem sua vida espiritual à sombra da sinagoga.
Eram chamados de os que temem a Deus, ou Sebomenoi, no mundo helênico, e Metuentes em Roma, para distingui-los dos que haviam abraçado integralmente o judaísmo: os Prosélitos.
A conversão dos gentios era considerada uma missão essencial do judaísmo por alguns pensadores judeus: o rabi Eleazar dizia que Deus dispersou os judeus para facilitar o proselitismo, conforme Pessaim (87 b), e São Mateus evangelista diria a respeito dos fariseus que percorreriam mares e terras para fazer um único prosélito, conforme Mateus (XXIII, 15).
O mundo judaico no contexto do Império romano era populoso e muito difundido, e as comunidades disseminadas pelo mundo não eram poucas mãos cheias de homens isolados, mas verdadeiras cidades sem terra, sem um território, e eram muito fortes numericamente, estando a nação judaica na Diáspora próxima demograficamente à das outros povos, conforme Fílon citado por J. Juster em Os Judeus no Império Romano (vol. I, p. 209).
A lei judaica não foi por longo tempo patrimônio secreto de uma comunidade restrita e fechada, e do judaísmo surgiriam e se desenvolveriam noções novas que constituiriam férteis germes do pensamento ocidental e pedras de ligação do próprio cristianismo.
Afirmação da primazia do indivíduo concomitante ao desagregamento da gens.
Reconhecimento dos direitos de todos os povos segundo o jus gentium.
Melhoria da condição dos escravos segundo a noção de favor libertatis.
O conceito de favor libertatis se manifesta na vontade do magistrado imperial de favorecer toda aquisição de liberdade e desencorajar toda redução à escravidão, e cada vez mais o escravo passa a ser considerado um ser humano e não uma res, uma coisa, um bem móvel.
Em 17 da era cristã, a Lei Petroniana proibiu aos senhores enviar seus escravos a combates ou a jogos circenses contra a sua vontade; era proibido dar os escravos às feras, espancá-los sem razão ou abandoná-los se uma doença ou a velhice os tornassem inválidos.
Reconheceu-se o parentesco entre escravos: o senhor devia evitar separar casais e crianças dos pais, conforme Jacques Ellul em História das Instituições da Antiguidade (p. 480).
Mas para o Ocidente isso já era história velha: Deus, após dar os Dez Mandamentos a Moisés, descreve o altar de terra que quer que os filhos de Israel lhe erijam, e logo depois instaura as primeiras leis relativas aos escravos, conforme Êxodo (XXI, I-II).
É verossímil que o estatuto particular dos escravos judeus possuídos por proprietários judeus fosse conhecido e aplicado em toda a Diáspora, de um extremo a outro do Império romano, pois o Código da Aliança, bem antes dos Estoicos e da legislação imperial, havia reconhecido o parentesco entre escravos e seus direitos frente ao senhor.
Entre os judeus, há muito tempo a escravidão constituía um serviço de seis anos, findo o qual o prisioneiro tornava-se livre.
Esse contato de duas concepções do homem e do mundo não poderia deixar de gerar um primeiro choque cultural, um confronto do qual nem o paganismo imperial nem as instituições do mundo antigo saíam de cabeça erguida.
Se muitos romanos eram atraídos pelo monoteísmo judaico, indubitavelmente admiravam também as leis precisas e liberais que se dizia terem sido dadas pelo Deus único, e provavelmente o judaísmo, no âmbito do Império romano, exerceu uma influência e gozou de um prestígio que não seria razoável atribuir a uma escola filosófica de difusão bastante limitada.
Sob outro aspecto, o desenvolvimento do Império romano produziu uma grande concentração de bens e riquezas extraídas de diversas civilizações e determinou, em todas as classes sociais, o desejo de possuir cada vez mais, gerando o grande desenvolvimento dos comércios, favorecido pela capilar rede viária romana e pelo aprimoramento das técnicas.
A crise econômica que atravessaria o Império se traduziu em um agravamento dos impostos e, sobretudo, em uma organização da produção que agrupava os artesãos em colégios.
O Estado absorvia uma grande fatia da produção e a redistribuía em forma de annona.
Essa organização estatal, em 275, sob Aureliano, tornou-se elefantiásica e tentacular, controlando todos os abastecimentos de gêneros de primeira necessidade: trigo, vinho, azeite, carne, roupas de uso corrente.
Isso contribuiu para concentrar a economia imperial nas cidades, tornando-a tributária dos colégios: colégios de artesãos para a produção, de marinheiros e navegadores para o transporte da annona e o abastecimento do povo romano.
Uma nova classe social tomou consciência de sua importância no seio do Império — a dos artesãos, dos marítimos e dos armadores —, que, muito mais do que a administração imperial, exercia o controle efetivo sobre o Império, regulando tanto a produção quanto a circulação dos bens materiais de primeira necessidade.
As ideias circulavam com as mercadorias pelas mesmas vias terrestres, fluviais e marítimas.
O judaísmo, e depois o cristianismo, souberam explorar convenientemente a capilar rede viária do Império e as grandes vias fluviais do Danúbio, do Reno, do Ródano e do Saône.
Na ausência de um preciso direito comercial, os magistrados imperiais adotavam frequentemente as leis helênicas sobre o comércio marítimo, a responsabilidade de armadores e marinheiros em matéria de transporte, e os empréstimos de dinheiro.
Do ponto de vista espiritual, o Império romano havia mudado, reduzindo seu antigo patrimônio moral a puro e simples conformismo, e a religiosidade romana se transformou em um conjunto de ritos divorciados da vida cotidiana e em grande parte também da administrativa, embora continuassem a marcar-lhe o ritmo.
Mas era bastante difícil fixar o impulso espiritual de um povo em algumas festas nacionais em honra do gênio de Augusto, da Vitória ou da Fortuna dos Césares.
As cidades, centros privilegiados de concentração dos colégios, foram as primeiras a receber o estímulo das novas ideias vindas do Oriente: o judaísmo e depois o cristianismo.
Do encontro entre o Império romano e a Diáspora nasceu uma nova ideia de amplos e imprevisíveis desdobramentos: o Estado é independente do indivíduo, e o Estado, a sociedade, não representam necessariamente o bem supremo que justifica as ações dos indivíduos, nem mais o esquema perfeito que só pode dar conta da existência do homem.
As comunidades judaicas da Diáspora aceitavam o Império romano, que por sua vez as tolerava de modo variável conforme as épocas, e sobretudo na medida em que se abstinham de todo proselitismo, coisa que, como foi visto, raramente ocorria.
A ideia de uma cidade justa se confundiu com a comunidade religiosa espalhada pelo mundo mas unida por laços invisíveis, e com a cidade temporal representada pelo Império de César, e nesse contexto social necessariamente se complicou e se desenvolveu.
O indivíduo é concebido como parte integrante da Cidade de Deus, da qual sua comunidade religiosa é um reflexo, no exílio das tribulações deste mundo e sob o jugo da organização estatal.
Fiéis ao ensinamento apostólico, os primeiros cristãos, confundidos em Roma com os judeus, esforçavam-se por obedecer às leis de César.
Mas à medida que a comunidade cristã se alargava e se desenvolvia, ela se sentia cada vez mais expressão de uma outra sociedade muito mais perfeita: a Igreja, cujas finalidades deviam predominar sobre qualquer outra consideração.
Em caso de conflito de autoridades, os cristãos se submetiam apenas à Igreja, fiéis às palavras do apóstolo Paulo: é melhor obedecer a Deus do que aos homens.
A atitude da Igreja em relação ao Império era muito menos matizada ou ambígua do que a das sinagogas da Diáspora, pois ela já era consciente da força que representava, e o cristão tinha a certeza de viver uma aventura única e extraordinária, superando amplamente a pompa de Roma e de seu Império com sua própria alma imortal.
O indivíduo não extraía mais da sociedade o sentido de sua existência, como a peça de um mosaico em relação ao desenho de conjunto.
Ao contrário, buscava se aperfeiçoar por si mesmo para depois se integrar em um mosaico do qual Deus é o único artífice, uma nova cidade que reúne todos os que têm fome e sede de justiça e que são justificados por suas próprias ações, por suas obras, por sua fé e pela graça.
O cristão tendia com todas as suas forças para uma sociedade perfeita formada pela inteira humanidade, um imenso corpo místico do qual a Igreja é a cabeça e do qual todos os homens são chamados a fazer parte por sua livre escolha, participando assim da caridade de Cristo, conforme Colossenses (III, 11).
A passagem das cartas de Paulo afirma que não há mais gregos ou judeus, circuncisão ou não circuncisão, bárbaros, citas, escravos ou homens livres: não há senão Cristo que é tudo em todos.
Estava assim superada a obediência à virtude dos filósofos que Platão punha como fundamento de sua República, superada também a amizade — phileia — que Aristóteles considerava o cimento da cidade, e superado o condicionamento do indivíduo pelas leis justas da cidade: completava-se uma revolução silenciosa capaz de construir o maior e mais duradouro dos impérios terrenos, o Ocidente.
As atividades manuais foram revalorizadas e artesãos e trabalhadores não ocupavam mais, como na República platônica ou na sociedade aristotélica, o último lugar.
Afirmaram-se os direitos da pessoa em uma época em que o progresso material os havia feito esquecer, e o poder do Estado sobre os indivíduos foi redimensionado pela dignidade do ser humano.
Esse novo ensinamento resumia as aspirações do homem de todos os tempos e se tornou a meta que se esforçaria por alcançar com o passar dos séculos, ora com a oração, ora com a violência.
A consciência individual se liberta das estruturas coercitivas da cidade tradicional e o livre-arbítrio remete em discussão valores dados como certos e considerados indestrutíveis.
Essa revolução, em certo sentido, se repetiria cada vez que o Ocidente se chocasse com civilizações tradicionais em seu caminho de conquista do mundo.
Em 313, o Edito de Milão se esforçou por integrar Igreja e Império, concedendo aos cristãos o livre exercício de seu culto e restituindo-lhes uma parte dos bens que o Estado havia confiscado; em 337, o imperador Constantino decidiu, com grande sabedoria e perspicácia, fazer sua a crença religiosa que já havia se tornado a alma das forças vivas de seu Império.
Contudo, em Constantinopla, São João Crisóstomo sublinhava a diferença entre os dois poderes, e em Milão Santo Ambrósio, antigo funcionário imperial, afirmava que o imperador está na Igreja mas não acima da Igreja.
Diante dos últimos Césares, a Igreja se considerava não apenas a cabeça do mundo romano, mas também o único poder legítimo e a única legítima fonte de poder.
Com o passar dos séculos, o reino da Igreja, o reino dos santos, o reino dos justos, tornar-se-ia o tema predileto dos movimentos milenaristas, antes de reaparecer, sob nome diferente, como impulso e mola secreta de toda ação revolucionária.
Apesar do batismo recebido, César permaneceria, no espírito dos fiéis, o termo antitético do poder espiritual, assim como o mal se opõe ao bem.