A visita de Trithemius a Sponheim em 1508, coincidindo com a redação do Antipalus, sugere que ele recorreu à biblioteca para rever obras de ocultismo, e a lista de títulos descritos no Antipalus como contrários à religião indica a provável presença de obras como a Clavícula de Salomão, o Picatrix, o Sepher Raziel, o Livro de Hermes, tratados de necromancia atribuídos a Rupert da Lombardia e a Michael Scot, obras de demonologia atribuídas a Alberto Magno, o Elucidarium de Pietro d'Abano, o Schemhamphoras e numerosos outros escritos árabes, ocidentais e anônimos.
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Os títulos listados tratavam principalmente dos sete espíritos planetários, suas fisionomias, nomes e símbolos de invocação.
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Obras como o Speculum Joseph continham truques de catoptromância, enquanto o livro atribuído a Michael Scot ensinava a obter um espírito familiar.
Trithemius poderia ser comparado a um Sir James Frazer do século XVI, acumulando erudição sobre superstições para expô-las, mas é certo que não se limitou a estudar a magia para combatê-la, praticando-a ele mesmo enquanto proclamava sua inocência a cada oportunidade.
Uma carta enviada por Trithemius ao carmelita Arnoldus Bostius de Ghent, chefe de uma Fraternidade de Joaquim fundada por volta de 1497 e da qual faziam parte Trithemius e Sebastião Brant, chegou após a morte do destinatário e foi lida pelo prior do mosteiro, que a tornou pública, dando início à lenda de Trithemius o feiticeiro.
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A Fraternidade de Joaquim defendia a ideia da concepção imaculada de Santa Ana em relação à Virgem.
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A divulgação do conteúdo da carta não foi intencional, mas suas consequências foram duradouras.
Na carta, Trithemius anunciava a Bostius um projeto de obra chamada Steganography, cujo primeiro livro causaria espanto universal, abrangendo em quatro volumes a criptografia, a escrita em encáustica, um método acelerado para aprender línguas estrangeiras e métodos criptográficos com temas ocultos que não poderiam ser divulgados publicamente.
A arte esteganográfica chegou a Trithemius por revelação noturna e parecia cumprir a promessa sobrenatural recebida aos quinze anos de conhecer tudo o que existe no mundo, não como acumulação livresca, mas no sentido direto de saber, a cada instante, o que ocorre em qualquer lugar e talvez no futuro.
Em 1504, durante uma visita de duas semanas, o picardo Charles Bouelles folheou o manuscrito incompleto da Steganography por duas horas e formou opinião muito desfavorável, comunicada ao bispo Germain de Ganay de Cahors numa carta datada de 1509 segundo Klaus Arnold ou 1506 segundo Peuckert, descrevendo a obra como uma mistura horrível de conjurações demoníacas.
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Quando as acusações se tornaram públicas, Trithemius teve de se defender num escrito hoje perdido.
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Trithemius decidiu não publicar a Steganography e, segundo alguns relatos, queimou o manuscrito em Heidelberg.
Para compreender os dois primeiros livros da Steganography que Bouelles percorreu, é preciso considerar que o tempo e a perspicácia necessários à leitura eram incompatíveis com uma consulta de duas horas, pois a primeira parte da obra é um ludibrium, uma farsa destinada a enganar o leitor e impedir que as chaves da criptografia se tornassem de domínio público.
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Johannes Wier, discípulo de Agrippa, leu o manuscrito na casa deste e corroborou as acusações de Bouelles sem compreender o mecanismo do texto, dedicando um capítulo mordaz a Trithemius em seu De Praestigiis Daemonum.
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O jesuíta Del Rio acolheu essa versão, e sua influência foi suficiente para incluir a Steganography no Index librorum prohibitorum a partir de 1609.
Após a primeira edição de 1606, foram escritas defesas da Steganography por Adam Tanner, pelo abade Sigismond Dullinger de Seeon, por Gustav Selenus, Juan Caramuel y Lobkowitz, Jean d'Espiöres, Athanasius Kircher, Wolfgang Ernest Heidel e Gaspar Schott, sendo as de Caramuel e Heidel as mais importantes.
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Caramuel foi o primeiro intérprete relevante da criptografia de Trithemius, reconhecendo que as incantações demoníacas eram apenas textos codificados e que os nomes dos demônios representavam chaves de mensagens.
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Heidel contradisse e superou Caramuel ao aplicar o mesmo método aos dois primeiros livros, reconhecendo ademais que o terceiro livro continha métodos de natureza inteiramente diversa.
O primeiro livro da Steganography, concluído em 27 de março de 1500, oferece ao leitor formas de codificar uma mensagem aparentemente incoerente, de modo que a partir do nome demoníaco que a encabeça o receptor possa discernir o código, selecionando as letras significativas segundo uma regra determinada, como a extração das letras pares das palavras pares.
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Um exemplo de incantação demoníaca é fornecido, com a instrução de ler apenas as letras em posição par dentro das palavras em posição par.
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O resultado da extração é a mensagem em latim: SUM TALI CAUTELA UT PRIME LITERE CUIUSLIBET DICTIONIS SECRETAM INTENCIONEM TUAM REDDANT LEGENTI.
O segundo livro, concluído um mês depois, contém vinte e quatro séries de permutações alfabéticas organizadas segundo os espíritos que governam as vinte e quatro horas do dia e da noite, mas os espíritos nada têm a ver com o processo, que consiste em colocar duas séries alfabéticas lado a lado com a primeira em posição fixa, gerando substituições sistemáticas de cada letra.
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O mecanismo permite que B = A, C = B e assim por diante, até que A = Z.
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As vinte e quatro permutações eram apenas um subconjunto das combinações possíveis.
Em 21 de março de 1508, Trithemius concluiu a Polygraphy, dedicada ao imperador Maximiliano em junho do mesmo ano, obra de criptografia e taquigrafia com 384 séries alfabéticas em que uma palavra latina substitui cada letra, resultando num texto codificado com a aparência inofensiva de uma longa oração em latim.
A ideia de permutações circulares das letras do alfabeto deriva de exercícios da cabbala cristã que remontam a Ramon Llull, cuja Ars inveniendi ou Ars combinatoria utilizava figuras de círculos sobrepostos e móveis para obter todas as substituições alfabéticas desejadas, figuras que aparecem ainda nos comentários de Giordano Bruno.
Embora Trithemius não mereça o título de pai da criptografia, deve ser considerado o pai da criptografia moderna como autor do primeiro trabalho de importância maior nesse campo.
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Os dois primeiros livros da Steganography não contêm nenhuma conjuração demoníaca, e os nomes dos espíritos são, como Heidel observou com precisão, fictícios e arbitrários.
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A farsa teve pleno sucesso: com exceção de Caramuel e Heidel, estudiosos antigos e modernos continuaram a tratar a Steganography como obra de cabbala prática e ocultismo.
A parte mais interessante da Steganography é o fragmento do terceiro livro, não sujeito à interpretação de Caramuel e Heidel e fonte de desconforto para os apologistas, incluindo Klaus Arnold, que atribuiu sua incompletude a um fracasso do autor em dominar o método de envio de mensagens sem símbolos gráficos ou mensageiro, ou a uma autenticidade duvidosa.
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D. P. Walker, especialista em magia, jamais formulou a hipótese de inautenticidade que Arnold lhe atribuiu.
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Agrippa, que conheceu Trithemius pessoalmente, afirmou que o método era praticado e funcionava.
No De septem secundeis ou Chronologia mystica, escrito em 1508, Trithemius revela ao imperador Maximiliano que Deus governa o cosmos por meio de sete inteligências secundárias, os espíritos planetários Orifiel, Anael, Zachariel, Rafael, Samael, Gabriel e Miguel, e o terceiro livro da Steganography parte desse mesmo ponto, atribuindo aos espíritos uma identidade mais precisa, invocável por meio de sua fisionomia traçada e de fórmulas específicas.
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O método lembrava a arte dos símbolos e apresentava analogias marcantes com a mnemotécnica.
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O mago tornava-se pintor no sentido mais concreto: devia modelar em cera ou desenhar no papel a forma do anjo planetário com seus atributos.
Para enviar uma mensagem a distância pelo intermediário do anjo de Saturno, Orifiel, o operador devia criar uma imagem em cera ou num papel em branco representando Orifiel como um homem nu e barbudo sobre um touro multicolorido, com um livro na mão direita e uma pena na esquerda, depois pronunciar fórmulas dedicando a imagem à transmissão fiel do pensamento ao destinatário, escrever nomes específicos na testa e no peito das imagens do remetente e do destinatário, unir as duas imagens e ordenar a Orifiel que transmitisse a mensagem dentro de vinte e quatro horas.
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As imagens unidas deviam ser embrulhadas em material limpo lavado em água branca e colocadas na entrada de uma casa fechada, em recipientes chamados pelos sábios indianos de pharnat alronda.
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As imagens podiam ser reutilizadas para comunicações com outras pessoas, alterando apenas o nome do destinatário.
Por esse método os presentes sobrenaturais revelaram a Trithemius, em sonho, o que devia ser o desejo mais próximo de seu coração, expresso por ele mesmo em letras maiúsculas quase na última página do que resta da Steganography: ET OMNIA, QUAE FIUNT IN MUNDO, CONSTELLATIONE OBSERVATA PER HANC ARTEM SCIRE POTERIS.
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Nas últimas passagens do fragmento do terceiro livro, Trithemius afirma ser possível aprender tudo sobre qualquer coisa por procedimentos semelhantes.
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A interrupção da obra permanece como questão central da interpretação.
A hipótese mais plausível para a não conclusão do terceiro livro ou sua queima em Heidelberg é fornecida indiretamente por Paul Grillandi: segundo este, todos os procedimentos mágicos que invocam demônios ad modum imperii são apenas sacrilégios, não heresias, mas a predição do futuro é sempre herética.
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Trithemius, como especialista em ocultismo, devia conhecer essa distinção corrente em sua época.
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Para não cometer o pecado de heresia destruiu a parte final do autógrafo da Steganography, que devia tratar de adivinhação, mas preservou a parte sacrilega que considerava um dos métodos mais úteis de comunicação a distância.
Agrippa elogiou o método de Trithemius, afirmando que ele próprio sabia executá-lo e o havia feito com frequência, descrevendo-o como natural, sem superstição e sem a intervenção de qualquer espírito, capaz de transmitir o pensamento de um homem a outro, a qualquer distância, em menos de vinte e quatro horas.
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A afirmação dogmática de Agrippa sobre a eficácia do método convida a dúvidas quando confrontada com o comportamento do próprio Agrippa.
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As mensagens desesperadas enviadas por Agrippa a correspondentes lentos em responder levantam a questão de por que ele não empregava o método infalível de Trithemius.
As observações de Agrippa têm valor por confirmar a autenticidade do método de Trithemius, mas quanto à sua eficácia, a carta de Agrippa de 19 de novembro de 1527 ao frei Aurelio d'Aquapendente, em que ele se descreve como simples mortal sem os dons sublimes dos deuses imortais, apresentando-se apenas como sentinela que aponta o caminho a outros, sugere ao leitor moderno um ceticismo justificado.
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Agrippa descrevia-se como cavaleiro consagrado no sangue da batalha, cortesão por quase uma vida e escravo das vicissitudes domésticas.
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A humildade expressa na carta contrasta com as afirmações anteriores sobre a prática bem-sucedida do método.