Na véspera de sua partida para a Polônia, a convite do príncipe Alberto Laski, John Dee elaborou um inventário de sua biblioteca, com dois catálogos autógrafos datados de 6 de setembro de 1583, conservados no Trinity College de Cambridge e no Museu Britânico.
O catálogo lista mais de quatro mil obras, entre livros impressos e manuscritos; a lista dos manuscritos foi publicada por J. O. Haliwell e reeditada criticamente por M. R. James em 1921, mas a dos livros impressos permanecia inédita.
O capítulo busca oferecer uma impressão geral da vida e obra de Dee, tomando sua biblioteca como tema central e apresentando-o como um homem universal do Renascimento.
Dee nasceu em 1527, filho de Roland Dee, de posição modesta na corte de Henrique VIII; a casa de Mortlake, onde instalou sua biblioteca, era herança familiar, e ele se dizia descendente de antigos reis britânicos e parente distante da rainha Elizabeth.
Ingressou em St. John's College, Cambridge, em 1542, dedicando-se intensamente ao estudo, com apenas quatro horas de sono por noite e dezoito horas diárias de aprendizado.
Sua inclinação pelas ciências matemáticas enfrentava a hostilidade da Inglaterra Tudor, que associava tais saberes ao papismo e à magia, enquanto o saber humanístico baseado nas línguas antigas e na retórica era o caminho para o avanço e o lucro.
A máquina teatral que construiu para uma comédia de Aristófanes em Trinity College, Cambridge, causou consternação ao voar até o teto do salão com um homem e uma cesta de víveres, associando pela primeira vez a palavra “conjurador” ao seu nome.
Viajou pelos Países Baixos, França e Itália para “falar e conferir com homens doutos” e colecionar livros, conhecendo os principais matemáticos europeus; suas lições sobre Euclides em Paris, em 1550, atraíram multidões.
Com a ascensão de Elizabeth, iniciou o período mais importante e influente de sua vida, marcado por um grande renascimento das ciências matemáticas na Inglaterra fomentado por seu entusiasmo.
Segundo seu próprio relato, foi Robert Dudley, conde de Leicester, quem o apresentou à rainha; entre a ascensão de Elizabeth e sua partida para o continente em 1583, gozou de proteção régia e de Leicester, embora sem reconhecimento ou recompensa abertos.
A rainha visitou Dee em Mortlake mais de uma vez, assim como Leicester e seu sobrinho Philip Sidney, que teria estudado sob sua orientação; a biblioteca de Dee servia aos líderes do Renascimento elisabetano.
F. R. Johnson (1937) descreveu Dee e seus amigos e pupils como a academia científica da Inglaterra no terceiro quartel do século, mantendo o grupo inglês em contato com as últimas ideias e descobertas europeias.
Dee pleiteou junto à rainha Mary a recuperação dos livros e manuscritos dispersos com os mosteiros, para fundar uma grande biblioteca nacional; diante do fracasso, formou sua própria biblioteca, que em 1583 ultrapassava quatro mil volumes, provavelmente a maior biblioteca científica da Europa.
Johnson enfatiza que a biblioteca continha valiosos manuscritos medievais de ciência e todas as obras impressas recentes sobre ciências matemáticas, estando sempre à disposição de amigos e alunos.
A caracterização de Johnson como biblioteca puramente matemática e científica é parcial, pois o catálogo revela a biblioteca de um homem universal.
Dee escreveu muito e publicou pouco, circulando seus escritos manuscritos entre amigos e alunos; suas duas obras publicadas mais conhecidas são o Prefácio a Euclides e os diários espirituais, que ilustram os dois lados de sua reputação.
Em 1570 foi publicada a tradução inglesa de Euclides por Henry Billingsley, com o Prefácio de Dee, que percorre todas as ciências matemáticas e exorta ao seu incentivo e aperfeiçoamento.
O Prefácio matemático de Dee é manifesto mais importante para o avanço da ciência que o Advancement of Learning de Francis Bacon, publicado trinta e cinco anos depois, pois Dee compreendia a importância básica da matemática, subestimada por Bacon.
O Prefácio teve imensa influência até bem dentro do século XVII e, junto com o ensino e a influência pessoal de Dee, fez surgir uma escola de matemáticos e cientistas que tornou a fase final do elisabetanismo um período importante para o avanço científico.
A outra obra famosa, ou infame, de Dee é A True and faithful Relation, publicada por Meric Casaubon em 1659 a partir de um diário manuscrito, descrevendo tentativas de conjurar anjos com conjurações cabalísticas numerológicas em associação com Edward Kelly.
Essa obra apresentou Dee sob luz extremamente supersticiosa e como vítima iludida das decepções de Kelly, fixando a reputação de fanático iludido que perdurou pelos séculos XVIII e XIX.
Apenas no século XX historiadores da ciência iniciaram a reabilitação de Dee, redescobrindo o cientista e autor do Prefácio matemático; a pioneira foi E. G. R. Taylor, em livro de 1930 sobre geografia Tudor, que examinou seus conhecimentos geográficos e seu trabalho como conselheiro de marinheiros elisabetanos.
Taylor usou o catálogo da biblioteca e publicou como apêndice uma lista dos livros de geografia, reproduzindo os pequenos triângulos com que Dee marcava os livros que considerava particularmente importantes.
F. R. Johnson (1937) interessou-se por Dee sobretudo como astrônomo, atribuindo a ele e a Robert Recorde o crédito pela difusão do conhecimento da nova astronomia copernicana entre os cientistas ingleses.
Johnson conhecia o catálogo, mas não seguiu o exemplo de Taylor de publicar um apêndice com as obras de astronomia; o tratamento adequado do catálogo exigiria uma equipe de especialistas de diversos campos.
Em The Mathematical Practitioners of Tudor and Stuart England (1954), Taylor destacou Dee como líder do movimento de projetistas e fabricantes de instrumentos científicos no final do século XVI.
Taylor caracteriza Dee como alguém para quem as aplicações práticas da astronomia e da geometria estavam em primeiro plano — desde tirar horóscopos até avançar a navegação, reformar o calendário ou mapear minas subterrâneas.
Suas visitas a Lovaina, Bruxelas e Paris (1547-1550) o familiarizaram com os principais matemáticos continentais, para quem o projeto, a descrição e o uso de instrumentos era parte integrante do trabalho.
De volta a Londres, foi introduzido nos círculos da corte, onde se preparava a expansão marítima; por trinta anos aconselhou e instruiu pilotos e navegadores e reuniu uma grande biblioteca matemática e científica e uma variedade de instrumentos.
O impacto de seu Prefácio ao Euclides inglês sobre jovens da classe média, filhos de comerciantes e artesãos, foi muito grande, mostrando como a geometria podia avançar a técnica e fomentar invenções.
Em 1574, o Dr. Richard Foster descreveu Dee como um Atlas que carregava sobre os ombros o peso do renascimento das artes matemáticas na Inglaterra; em 1590, Tycho Brahe saudou-o e a Thomas Digges como “nobilíssimos, excelentes e doutos matemáticos”.
Os historiadores da ciência reabilitaram Dee, mostrando por trás do conjurador ridículo o cientista prático a par do pensamento científico mais recente, traduzindo-o em uso prático para seus compatriotas.
Dee surge na vanguarda dos movimentos elisabetanos — a expansão marítima, a atividade científica de todos os tipos — e particularmente elisabetano em espírito por seu apelo às classes artesãs ascendentes.
Seu saber era de tipo novo e moderno, incluindo tecnologia e especulação abstrata, e apelava tanto às novas classes sociais quanto à rainha e aos cortesãos, sendo um espelho completo da era elisabetana.
A imagem traçada pelos historiadores da ciência é parcial: ao concentrarem-se nos aspectos que lhes interessam, dão a impressão de que Dee e sua biblioteca nada têm a dizer ao historiador da literatura e das artes.
O conhecimento de Dee não pode ser canalizado em disciplinas separadas; deve ser visto nos contextos religioso, filosófico e mágico em que foi gerado, sendo o conjurador cabalístico dos diários espirituais o mesmo homem que o cientista prático.
A tese de doutorado inédita de I. R. F. Calder (1953) fez amplo estudo da vida e obra de Dee, cobrindo matemática, ciência, astrologia, alquimia, espiritualismo, magia e filosofia neoplatônica e religião.
Essa tese é o melhor esforço até então para tratar Dee como um todo, embora omita um estudo em escala plena do Prefácio matemático e do catálogo da biblioteca, por pretender preparar estudos posteriores.
A história do pensamento não deve isolar de uma personalidade os elementos que parecem importantes à luz de desenvolvimentos posteriores, pois isso a vicia e distorce; o pensamento de um homem deve ser visto por inteiro, incluindo os aspectos difíceis para os modernos.
O século XIX excluiu Dee da consideração séria por causa de sua “conjuração”, o que os historiadores da ciência mostraram ser errado; mas incluí-lo apenas como cientista, excluindo seus outros lados, também é incompleto.
O catálogo da biblioteca pode ajudar a ver o homem como um todo; o capítulo omite quase toda menção às obras científicas que interessaram aos historiadores da ciência, selecionando obras significativas para a visão de mundo de Dee.
A tentativa de usar o catálogo desse modo é fragmentária e superficial, mas pode ao menos chamar atenção para esse documento básico para a compreensão não só de Dee, mas dos cortesãos, nobres, poetas, eruditos e cientistas elisabetanos para quem era a melhor biblioteca do país.
A obra De occulta philosophia de Henrique Cornélio Agripa, listada no catálogo, dá a pista de como o mesmo homem podia ser cientista matemático e “conjurador”: Agripa divide o universo em três mundos cabalísticos — o natural, onde o mago opera com magia natural; o celeste, com magia matemática; e o superceleste, com conjurações numéricas.
A concentração de Dee na matemática como chave de todas as ciências incluía operar com número na ciência genuína e operar com número para conjurar anjos.
Pesquisas recentes mostram que o livro de Agripa era o resultado lógico, embora extremo, de todo o movimento vagamente chamado de neoplatonismo renascentista, com um núcleo hermético e mágico expresso por
Ficino nos Libri de vita e acrescido da magia cabalística por
Pico della Mirandola.
Do movimento neoplatônico surgiram, como auxiliares, uma multidão de escritores de literatura oculta dos mais variados tipos, e a biblioteca de Dee era extremamente rica nessa literatura.
Incluía todas as obras principais de
Ficino, tanto as próprias quanto as traduções de
Platão e dos neoplatônicos, e de
Pico della Mirandola; havia uma seção especial de livros cabalísticos e outra de lulismo, rica em obras de Lull e de lulistas posteriores, representando o revival renascentista do lulismo associado à Cabala, incluindo o pseudo-luliano De auditu cabalistico.
Tritêmio estava fortemente representado, assim como Cardano e Guillaume Postel; Dee não esqueceu os neoplatônicos franceses e tinha um exemplar da Mantice de Pontus de Tyard, além de alguns filósofos italianos modernos como Patrizi e Pomponazzi, e grandes coleções de astrologia e alquimia.
A organização do catálogo é parcialmente sistemática, variando o critério: alguns grupos por tamanho, outros por língua, com agrupamentos por assunto — livros paracelsistas (seção grande), lulistas, históricos, de viagens e descobrimentos —, exigindo leitura integral para reunir um autor ou assunto.
Não há nada de aleatório no catálogo: as entradas são claramente escritas e geralmente incluem data e local de publicação, além de autor e título.
Livros de teologia controversa estão conspicuamente ausentes; havia bíblias, salmos, alguma teologia escolástica, a Theologia Platonica de
Ficino, o Pimandro e o Asclepius de “Mercurius Trismegistus” (Corpus Hermeticum e Asclepius), Lactâncio, Pseudo-Dionísio e a Civitas Dei de
Agostinho.
O catálogo sugere que Dee, embora apaixonadamente interessado no sobrenatural, evitava a teologia dogmática.
A ciência é dominante, com as ciências genuínas misturadas às pseudociências, mas Dee também se interessava pelas belas-artes.
Dee tinha exemplares de Vitrúvio e de comentadores renascentistas de Vitrúvio, Dürer sobre proporção, Luca Pacioli sobre proporção, muitos livros sobre perspectiva e as vidas dos pintores de Vasari.
Possuía poetas gregos e latinos —
Homero e
Hesíodo,
Píndaro, Ovídio, Catulo, Lucano — e boa representação de dramaturgos antigos: comédias de Plauto e tragédias de Sêneca, além das comédias de Aristófanes e tragédias de
Sófocles e Eurípides em grego.
Essas coleções talvez se liguem ao interesse pela produção de peças clássicas, do qual se conhece um exemplo certo: a máquina teatral para a Pax de Aristófanes em Trinity College, Cambridge.
A biblioteca estava bem equipada com obras de referência renascentistas usuais — a Hieroglyphica de Pierio Valeriano, a Mythologia de Natale Conti, os Emblemas de Alciati — e com dicionários e gramáticas de várias línguas.
A teoria musical estava representada por Zarlino e outras obras padrão, e a biblioteca possuía o principal manual renascentista sobre harmonia cósmica, a Harmonia mundi de Francesco Giorgi.
Se o catálogo fosse publicado com bom índice de assuntos, os estudiosos poderiam saber de imediato o que Dee tinha sobre seus temas de interesse.
A autora, que há anos pesquisa a arte da memória, conjecturou que Dee teria conhecido algo do assunto e agora encontra no catálogo manuscrito cinco livros sobre memória, incluindo L'Idea del Theatro de Giulio Camillo, prova interessante de que o Teatro da Memória de Camillo era conhecido na Inglaterra.
A história está ricamente representada, antiga e moderna, com grande seção e obras dispersas ao longo do catálogo, refletindo o amor de Dee pela erudição antiquária semimística e sua paixão pela história britânica antiga usada na genealogia da rainha Elizabeth.
A lista de livros em inglês contém muitas crônicas, entre elas as Crônicas de Holinshed, as de Thomas Cooper, a Geometrical Practice de Leonard e Thomas Digges, o Pageant of Popes de John Bale, a Art of Shooting de William Bourne, os Tenures de Littlewood, o Urinal of Physic de Robert Recorde, as Crônicas de Stowe e o Abridgement of Chronicles de Grafton.
Um leitor sem grego e com pouco latim podia usar a biblioteca, folheando crônicas inglesas e obras técnicas em inglês escritas por membros da escola científica de Dee — Leonard e Thomas Digges, Robert Recorde, William Bourne — e o Euclides inglês com o famoso prefácio.
Poetas como Sidney e Dyer encontravam na biblioteca não só os livros necessários aos estudos filosóficos e científicos sob Dee, mas também os sonetos de Petrarca, o Inferno de Dante com comentário de Giambullari e a Defense et illustration de la langue française de Joachim Du Bellay.
Os historiadores da ciência fizeram bem por Dee, mas afastaram outros ao dar a impressão de que sua biblioteca era puramente científica no sentido moderno.
Todo o Renascimento está nessa biblioteca, ou melhor, o Renascimento interpretado por
Ficino e
Pico della Mirandola, com inclinação para filosofia, ciência e magia, mais que para estudos humanísticos puramente gramaticais.
É um Renascimento sem ferocidade doutrinária, nem Reforma nem Contrarreforma, mas com fortes tendências místicas e mágicas, que prefere ler as hierarquias de anjos com Pseudo-Dionísio a ler as obras de Calvino.
É um Renascimento situado na Inglaterra, com seu desenvolvimento característico de ciência popular de forte viés prático, voltado para a navegação, o mar e novas terras além-mar, incluindo a História Britânica de Geoffrey de Monmouth e as crônicas da Inglaterra.
Valoriza a poesia antiga e moderna, grega e latina, italiana e francesa; embora não haja poetas ingleses na lista de livros ingleses, é de perguntar se os principais poetas elisabetanos não teriam todos usado essa biblioteca.
É natural comparar o catálogo da biblioteca de Dee com o de outra grande biblioteca, redigido em 1609 e que, ao contrário, obteve a honra da publicação erudita: o catálogo da Biblioteca Lumley, editado por Sears Jayne e F. R. Johnson e publicado pelo Museu Britânico em 1956.
A Biblioteca Lumley possuía obras de
Ficino e de Agripa e razoável quantidade de obras com influências herméticas, mas não tem a importância científica da de Dee, com sua riqueza de obras de valor científico genuíno.
O catálogo Lumley começa pela teologia, com uma série de Padres, comentários das Escrituras e obras de teologia controversa de tipo conspicuamente ausente da biblioteca de Dee, sugerindo uma mente mais convencional.
Pergunta-se se, apesar dos esforços úteis dos historiadores da ciência, o antigo preconceito ainda opera e a publicação dos diários espirituais por Meric Casaubon ainda impede uma abordagem histórica e crítica adequada de uma das figuras mais importantes da era elisabetana.
É tempo de Dee ser julgado objetivamente e sem preconceito, com investigação histórica crítica não só sobre a natureza de sua ciência e seu lugar na história do pensamento, mas também sobre a natureza de sua religião e seu lugar na história da religião.
Dee tinha uma religião, e muito forte; definiu-a em 1592, em carta ao arcebispo de Canterbury, dizendo que desde a juventude aprouve ao Todo-Poderoso insinuar em seu coração um zelo insaciável e desejo de conhecer sua verdade.
Descreve seu método como filosófico e harmonioso, ascendendo gradualmente das coisas visíveis às invisíveis, das corporais às espirituais, das transitórias às permanentes, das mortais à percepção da imortalidade.
Conclui que, pela maravilhosa estrutura do mundo inteiro, filosoficamente vista, ponderada, numerada e medida, deve amar, honrar e glorificar sempre o seu Criador, em cuja obra sua infinita bondade, insondável sabedoria e poder onipotente podem ser manifestados e demonstrados.
Era a religião de um matemático que acreditava que a criação divina era mantida por forças mágicas; substituindo a mecânica pela magia como força operativa do Criador, a religião de Dee talvez não fosse muito diferente da de Isaac Newton.
O período mais fecundo e influente da vida de Dee, da ascensão de Elizabeth até sua partida da Inglaterra em 1583, terminou com a visita, em maio daquele ano, do príncipe polonês Alasco, ou Laski, que o persuadiu a ir com ele para a Polônia.
A rainha ordenou que Laski fosse recebido com honras em Oxford; apesar da profusão de peças latinas, jantares, fogos de artifício e disputas, tem-se a impressão de que a ocasião pública evidenciou certas fraquezas da Oxford pós-Reforma.
Na viagem de volta de Oxford a Londres, pelo rio, na barca real, acompanhado de Philip Sidney e outras pessoas distintas, Laski parou em Mortlake para visitar o doutor Dee.
O diário de Dee registra o evento em 15 de junho: cerca das cinco horas chegou o príncipe polonês Lord Albert Lasky, vindo de Bissham, onde pernoitara, de retorno de Oxford, onde fora ver as universidades e foi muito honrosamente tratado e entretido.
Laski tinha em sua companhia Lord Russell, Sir Philip Sydney e outros cavalheiros; foi remado pelos homens da rainha, tinha a barca coberta com o pano da rainha e os trompetistas da rainha; veio de propósito para honrá-lo, pelo que Deus seja louvado.
Seria interessante poder reconstruir a biblioteca em que Dee provavelmente recebeu esses hóspedes esplêndidos; as divisões do catálogo por tamanhos, assuntos, história, geografia, seções lulista e paracelsista podem representar a disposição dos livros nas estantes.
Em torno dessas estantes pode-se imaginar Philip Sidney passeando, exibindo a melhor biblioteca da Inglaterra, digna de figurar entre as melhores da Europa; Oxford nada tinha a mostrar assim, pois os reformadores haviam retirado suas obras científicas.
Oxford de Roger Bacon e da escola medieval de Merton estava representada na coleção de Dee, que também se mantinha atualizada com livros modernos.
Laski ficou tão impressionado que convidou Dee a acompanhá-lo ao exterior; sentindo pouco futuro na Inglaterra, Dee aceitou, e no início do outono de 1583 ele e Kelly partiram para Lascoe, sede do príncipe perto de Cracóvia.
A fuga de cérebros realmente começou em 1583, quando esse eminente matemático, tecnólogo e mago foi tentado a deixar seu país natal; antes de partir, Dee fez o catálogo de sua biblioteca, datado de 6 de setembro de 1583.
Pouco depois de sua partida, uma multidão enfurecida invadiu sua casa em Mortlake, destruiu seus instrumentos científicos e danificou a biblioteca.
A lamentável história é contada pelo próprio Dee no Compendious Rehearsall, sob o título “A briefe note and some remembrance of my late spoiled Mortlake library”.
Dee estima o valor dos livros e manuscritos em 2.000 libras e diz que levou cerca de quarenta anos para reuni-los, “de diversos lugares além-mar, e alguns por minha grande busca e trabalho aqui na Inglaterra”.
Queixa-se de não ter recebido compensação pela perda, mas parece que não perdeu tudo; fala de mais de quinhentos desaparecidos “dos que podem ser obtidos por dinheiro, e assim seu valor conhecido; pois alguns faltantes não podem ser obtidos por dinheiro em nenhum mercado”.
Outros tesouros foram irrevogavelmente destruídos ou desapareceram: seu quadrante feito por Richard Chancellor, sua grande balestilha, os dois globos da melhor feitura de Gerard Mercator.
As caixas com documentos foram saqueadas, restando apenas marcas de giz no exterior para indicar seu conteúdo anterior; perdeu-se também uma caixa com uma coleção de selos.
“Clerks of the Records of the Tower”, diz Dee, “passaram dias inteiros em minha casa em Mortlake reunindo raridades a seu gosto”, vislumbre interessante do uso da casa de Dee como uma espécie de Museu Britânico e Arquivo Público combinados.
O período de maior esplendor e utilidade da biblioteca de Dee foi de cerca de 1570 a 1583, década muito importante da história inglesa.
Ainda assim, ele evidentemente conseguiu resgatar boa parte de seus livros ao retornar à Inglaterra em 1589 e talvez adquirir mais, pois não podia viver sem livros.
Dee não tinha segurança em seu background, sentia-se pertencente a lugar nenhum e carecia de reconhecimento público, pois o apoio de Leicester e da rainha era clandestino, não oficial.
Essa falta de segurança propiciava maior liberdade para práticas mais ousadamente mágicas, como a conjuração de anjos, e para uma “magia matemática” mais intensiva, isto é, ciência aplicada e tecnologia.
Todas as suas atividades ilustram sua inclinação prática e seu desejo de obter resultados; dedicava-se à conjuração de modo muito sério, preenchendo inumeráveis quadrados com números minúsculos.
Não poupava esforços para capturar um anjo pelo uso correto do número na esfera superceleste, pois de ninguém melhor que um anjo poderia aprender os segredos da natureza.
Do mesmo modo, pretendia aperfeiçoar os instrumentos matemáticos, usando o número nas esferas inferiores, para permitir que os marinheiros navegassem por mares desconhecidos.
Em seu intenso senso da natureza como hierarquia completada no topo por seres oniscientes invisíveis, e em seu intenso desejo de explorar todos os aspectos do mundo visível, Dee é o elisabetano perfeito: nele Próspero e Sir Francis Drake se encontram e são um só.
Ilustra também as condições sociais peculiares da era elisabetana: seus contatos com as classes artesã e média ascendentes e a prática de escrever obras científicas em inglês para difundir conhecimento entre os não versados nas línguas antigas o diferenciam do erudito renascentista da Itália, França ou Espanha.
Há também um lado aristocrático: nobres misteriosos por trás dele, uma esfera secreta ou cortesã para suas atividades ao lado do lado popular; é simultaneamente extremamente exotérico e prático e esotérico entre um círculo interno vagamente definido.
Esse tipo de situação torna o Renascimento elisabetano tão peculiar em comparação com os de outros países, onde não há essa nova situação social com classes ascendentes que participam do Renascimento nem esse mistério sobre patronos e grupos internos de conhecedores.
John Dee é o exemplar perfeito dessas peculiaridades, talvez até uma de suas principais fontes; resolver Dee ajudaria muito a resolver não só a era elisabetana em si, mas também seu lugar na história do pensamento.
Sua “imagem do mundo” não era medieval, mas renascentista; era a imagem do mundo de John Dee, o mundo meio mágico que se move, não para trás, para a Idade Média, mas para frente, em direção ao século XVII.
Os estudiosos estão se tornando conscientes da importância de Dee e o longo abandono dessa figura surpreendente logo chegará ao fim; pode-se prever com confiança que não faltará muito para o aparecimento de edições modernas de seu Prefácio a Euclides e do catálogo de sua biblioteca.
O esboço apresentado no capítulo será logo preenchido por trabalhos mais detalhados; o propósito foi apresentar essa breve impressão de Dee como um todo, como prelúdio ao papel que ele desempenha no tema principal do livro, que se abre no capítulo seguinte.