3 Robert Fludd e Vitrúvio

YATES, Frances A. Theatre of the World. London: Routledge & Kegan Paul; Chicago: University of Chicago Press, 1969.

1. Após a morte de John Dee, em 1608, na pobreza e no abandono, Robert Fludd deu continuidade à filosofia hermética e a seus impulsos científicos e artísticos na Inglaterra, representando, sobretudo durante o reinado de Jaime I, uma tradição renascentista cujo principal expoente elisabetano havia sido Dee.

2. A proximidade entre suas filosofias decorre do neoplatonismo renascentista de orientação hermética e cabalística, no qual ciência, misticismo e magia se articulam pela correspondência entre macrocosmo e microcosmo, desenvolvida por Fludd em termos de proporção musical e associada, sob influência de Giorgi e Agrippa, à interpretação cósmica e mágica do homem vitruviano.

3. A semelhança intelectual entre Dee e Fludd prolonga-se em suas trajetórias, pois ambos enfrentaram uma recepção desfavorável na Inglaterra enquanto alcançavam considerável reconhecimento no exterior.

4. A continuidade entre Dee e Fludd manifesta-se particularmente nas disciplinas vitruvianas, pois uma extensa parte da História dos dois mundos desenvolve os assuntos e as autoridades do prefácio matemático de Dee, revelando uma filiação intelectual que, embora não reconhecida nominalmente, vincula Fludd ao movimento inglês de aplicação técnica da matemática.

5. O macrocosmo, entendido como universo, e o microcosmo, entendido como ser humano, possuem na organização de Fludd histórias técnicas próprias, sendo as artes e as ciências referentes ao mundo exterior constituídas fundamentalmente pelas técnicas derivadas da tradição vitruviana.

6. A história técnica do macrocosmo integra a extensa série da História dos dois mundos, publicada em Oppenheim pela oficina de Johann Theodor de Bry, cuja organização exige distinguir os volumes e suas respectivas partes.

7. O primeiro tomo, dedicado ao macrocosmo, compreende uma parte metafísica publicada em 1617 e dedicada a Jaime I, seguida pela história técnica do macrocosmo, publicada em 1618.

8. O segundo tomo, dedicado ao microcosmo, reúne em um volume publicado em 1619 suas partes metafísica e técnica, incluindo nesta última a arte da memória, que pertence a um desenvolvimento específico da investigação.

9. A série prosseguiu depois da publicação do tomo sobre o microcosmo, mas seus primeiros conjuntos podem ser distinguidos como as partes metafísica e técnica do macrocosmo e as partes metafísica e técnica do microcosmo.

10. O frontispício da história técnica do macrocosmo organiza seus assuntos em uma roda de imagens cuja disposição facilita a memorização, exemplificando o caráter simultaneamente simbólico e mnemônico de muitas ilustrações de Fludd.

11. A roda que representa as onze partes da história técnica apresenta a arte como macaco imitador da natureza, apontando para os números como fundamento de todas as atividades humanas, e distribui ao seu redor as imagens correspondentes à matemática, música, agrimensura, óptica, pintura, arte militar, mecânica, medição do tempo, cosmografia, astrologia e geomancia.

12. Com exceção da geomancia, todas essas disciplinas pertencem ao conjunto de conhecimentos que Vitrúvio considera necessários ao arquiteto ou desenvolve em seu tratado, embora Fludd não inclua expressamente a arquitetura entre os assuntos apresentados.

13. O desenvolvimento dessas disciplinas segue especialmente o prefácio de Dee, ampliado por exposições extensas e numerosas gravuras, algumas diretamente sugeridas por suas referências, enquanto permanece como hipótese a possibilidade de Fludd ter utilizado manuscritos inéditos de Dee sem reconhecer sua procedência.

14. A compreensão do número como fundamento comum das artes aproxima Fludd de Dee, mas a omissão da arquitetura e das passagens vitruvianas sobre proporção torna menos explícita uma unidade arquitetônica que continua presente em sua filosofia musical do macrocosmo e do microcosmo.

15. A relação entre a história técnica de Fludd e o prefácio matemático de Dee envolve uma investigação complexa, cujo exame parcial permite destacar conexões relevantes entre a tradição vitruviana e o desenvolvimento das artes e técnicas inglesas.

16. A extensa exposição de aritmética, álgebra e geometria em Fludd corresponde à abertura do prefácio de Dee e ao princípio de que todas as artes dependem do número, permanecendo por investigar se essa ampliação também incorpora trabalhos matemáticos inéditos de seu predecessor.

17. A agrimensura, exigida por Vitrúvio na formação do arquiteto e brevemente apresentada por Dee como geodesia, transforma-se em Fludd em uma exposição longa e abundantemente ilustrada sobre a medição de terrenos.

18. A utilização da Pantometria de Leonard e Thomas Digges, reconhecível nas imagens e nos instrumentos de medição apresentados por Fludd, demonstra seu contato com a escola londrina de matemática aplicada associada a Dee, além de acompanhar uma contribuição própria à invenção de um novo instrumento de agrimensura.

19. As seções sobre óptica e pintura prolongam a orientação pedagógica da agrimensura, oferecendo instruções sobre perspectiva e proporção das figuras que articulam fundamentos matemáticos e aprendizagem prática.

20. A óptica e a perspectiva, incluídas entre os conhecimentos arquitetônicos por Vitrúvio e mencionadas por Dee, recebem em Fludd um desenvolvimento ampliado e uma apresentação visual particularmente abundante.

21. O ensino da perspectiva utiliza a grade quadriculada, associada a Alberti e ilustrada por Dürer, para transferir ao papel as relações observadas através de uma estrutura dividida em quadrados, permitindo a Fludd ensinar a representação de edifícios e paisagens mediante um procedimento técnico de apoio ao desenho.

22. A seção sobre pintura desenvolve as referências de Dee a Dürer e Pomponius Gauricus mediante figuras proporcionais do corpo humano e modelos de seus membros, acrescentando exemplos de cópia e desenho provenientes de Fialetti e Beham, de modo que a demonstração dos fundamentos geométricos da arte também assume a forma de um manual prático de modelos para artistas.

23. A arte militar e a fortificação são apresentadas por meio de plantas, imagens de fortalezas, disposições geométricas de tropas e instrumentos bélicos antigos e modernos, atualizando a tradição vitruviana com bastiões angulares e armas de fogo adequados às exigências defensivas do Renascimento.

24. O interesse do governo elisabetano pelas aplicações matemáticas concentrava-se na navegação e na defesa contra uma possível invasão espanhola, contexto em que a especialização de Dee em artilharia torna plausível, embora não demonstrada, a hipótese de que o compêndio publicado por Fludd derive de um de seus trabalhos inéditos.

25. A fortificação aparece simultaneamente como ramo matemático da arquitetura e como repertório ilustrado de modelos construtivos, cuja diversidade sugere a possibilidade de Fludd ter consultado coleções inéditas de plantas semelhantes às reunidas por arquitetos elisabetanos envolvidos na reforma das defesas militares.

26. A máquina de elevação de pesos utilizada como emblema da seção sobre movimento deriva de Vitrúvio e aproxima-se da reconstrução de Barbaro, evidenciando que os estudos de Fludd sobre roldanas, alavancas, parafusos, rodas e dispositivos hidráulicos prolongam, com aperfeiçoamentos modernos, a tradição mecânica também desenvolvida por Dee.

27. A exposição ilustrada dos mecanismos demonstra sua dependência matemática e oferece instruções aos praticantes, enquanto a utilização posterior de Dee e Fludd como autoridades por John Wilkins indica a permanência de sua relevância técnica em meados do século XVII, embora a identificação das fontes e a avaliação das inovações de Fludd exijam investigação especializada.

28. As páginas finais da seção sobre movimento aproximam-se da taumaturgia de Dee, reunindo mecanismos extraordinários e dispositivos de representação que, segundo Vitrúvio, pertencem às atribuições do arquiteto e revelam uma ligação recorrente entre conhecimento mecânico e produção teatral.

29. A simulação de trovões e disparos, a representação de sacrifícios e incêndios por iluminação oculta e a abertura aparentemente espontânea de portas correspondem a necessidades cênicas específicas, sugerindo que os mecanismos descritos por Fludd poderiam servir diretamente à realização de espetáculos.

30. O estudo dos dispositivos de Heron de Alexandria sustenta a apresentação de aves mecânicas, figuras móveis e instrumentos musicais automáticos, enquanto uma máquina concebida por Fludd para exibir sucessivamente sete faces correspondentes aos planetas parece utilizar princípios próximos aos de um palco giratório.

31. A combinação de pintura em perspectiva, mecanismos e efeitos extraordinários aproxima Fludd do trabalho teatral e torna pertinente relacionar suas propostas ao desenvolvimento dos espetáculos de corte dos primeiros Stuart, nos quais Inigo Jones introduzia cenografias elaboradas desde 1605.

32. A medição do tempo, a cosmografia, a astronomia e a astrologia pertencem ao repertório vitruviano também apresentado por Dee e recebem em Fludd extensos desenvolvimentos que combinam sua definição como artes matemáticas com orientações de aplicação prática.

33. A geomancia distingue-se das demais disciplinas por não figurar em Vitrúvio nem no prefácio de Dee, introduzindo um componente acentuadamente mágico e compartilhando com a astrologia a presença nas histórias técnicas tanto do macrocosmo quanto do microcosmo.

34. A passagem entre arte, ciência, proporção e mecanismos conserva uma unidade renascentista fundada em Vitrúvio e no número, entendido tanto como expressão abstrata das proporções divinas do ser humano e do universo quanto como fundamento das práticas, de modo que mesmo os procedimentos mecânicos de desenho permanecem inseridos em um horizonte filosófico e religioso.

35. A subordinação das disciplinas à arquitetura em Vitrúvio fornece o fundamento proporcional reconhecido por Dee e preservado por Fludd, cuja história dos dois mundos é inteiramente atravessada pela correspondência musical entre a constituição do macrocosmo e a do microcosmo.

36. A música ocupa uma posição privilegiada na história técnica de Fludd, imediatamente após o estudo do número, sendo introduzida por uma grande gravura do Templo da Música, uma das representações mais expressivas do conjunto.

37. O Templo da Música funciona como sistema de memória para organizar a exposição musical subsequente, cuja apresentação original, apesar do caráter antiquado de sua teoria, integra o esforço de Fludd para conservar a abrangência intelectual do homem universal renascentista.

38. A interpretação simbólica do Templo da Música depende da descrição que acompanha sua imagem e explicita a correspondência entre seus elementos arquitetônicos, musicais e cosmológicos.

39. O templo imaginado no monte Parnaso reúne musas, ninfas, sátiros, pastores, fontes e aves sob a presença de Apolo, simbolizando uma harmonia que estabelece paz e concordância entre céus e elementos e cuja destruição lançaria o universo na discórdia e na dissolução.

40. Apolo representa a música em suas dimensões cósmica, filosófica e poética, enquanto Concórdia preside o templo, Talia atua como sua guardiã e Pitágoras aparece no momento da descoberta das proporções musicais ao ouvir os martelos de uma oficina.

41. A música é concebida simultaneamente como realidade fundamental do cosmos e como arte matemática baseada na proporção, sendo o templo uma expressão da importância das imagens simbólicas e dos sistemas mnemônicos na organização do pensamento de Fludd.

42. Apesar de sua centralidade filosófica, a música segue o plano comum das demais disciplinas da história técnica, apresentando uma fundamentação numérica acompanhada de informações ilustradas sobre suas aplicações.

43. A orientação prática de Fludd manifesta-se especialmente no estudo de instrumentos de cordas, sopro e percussão e na invenção de máquinas musicais, cujas ilustrações integram a mesma competência abrangente aplicada à agrimensura, à pintura em perspectiva e à mecânica.

44. O interesse de Fludd pelo canto, pela notação e pelos instrumentos sugere que a música poderia constituir sua especialidade mais desenvolvida, enquanto a recepção favorável de suas invenções entre músicos da corte inglesa indica sua possível utilidade como conselheiro musical para espetáculos e ambientes cortesãos.

45. As grandes espirais e as duas portas representadas no Templo da Música possuem um significado específico na exposição de Fludd e podem esclarecer a relação entre seu simbolismo arquitetônico e sua teoria musical.

46. A espiral representa o movimento do ar atingido pelo som ou pela voz, enquanto as duas portas simbolizam os ouvidos, órgãos indispensáveis à percepção sonora e à entrada no universo musical figurado pelo templo.

47. Essa representação parece traduzir visualmente a acústica teatral de Vitrúvio, na qual a voz se propaga por movimentos circulares do ar que orientam a disposição dos assentos, aproximando o tratamento musical de Fludd do contexto arquitetônico e acústico em que a música é desenvolvida no tratado antigo.

48. Embora a teoria musical exposta por Vitrúvio derive de Aristóxeno e de uma orientação racionalista aristotélica, a configuração zodiacal de seu teatro introduz uma correspondência entre música e astros que a tradição renascentista, prolongando Boécio, desenvolve como relação entre proporção musical e ordem cósmica, à qual pertencem Giorgi e Fludd.

49. A referência de Dee aos vasos acústicos distribuídos nos teatros segundo intervalos musicais e a representação das espirais sonoras no templo de Fludd constituem, em suas respectivas exposições técnicas, as únicas alusões à arquitetura antiga como construção determinada.

50. A ausência de uma seção autônoma sobre arquitetura em Fludd pode encontrar uma explicação no Templo da Música, cuja representação sugere a música como forma arquitetônica e recupera a identidade entre proporções musicais e arquitetônicas enfatizada pelos teóricos renascentistas.

51. O Templo da Música não corresponde a um edifício real nem a um teatro propriamente dito, mas constitui uma fantasia arquitetônica que combina elementos clássicos e góticos para expressar a filosofia musical de Fludd, incorporando sugestões vitruvianas sobre acústica e possíveis alusões teatrais em sua cúpula, espirais, máscara e representação de Talia.

52. A arquitetura imaginária do templo oferece uma expressão simbólica particularmente forte de uma filosofia cuja compreensão do ser humano, do universo e de sua correspondência encontra na música sua formulação mais profunda.

53. A vinculação de Fludd à tradição matemática, tecnológica e vitruviana de Dee permite reconhecer uma dimensão frequentemente ignorada de sua obra, enquanto a dispersão dos manuscritos de Dee, o contato de Fludd com Robert Cotton e a proximidade entre trabalhos perdidos e assuntos por ele desenvolvidos mantêm aberta a hipótese de uma dependência documental mais ampla.

54. A continuidade da influência vitruviana entre Dee e Fludd associa o pensamento renascentista inglês ao desenvolvimento tecnológico e, especialmente, aos conhecimentos mecânicos e artísticos necessários à expansão da arte teatral.