A versão de Mardrus (Paris, 1889) aspira igualmente ao título de “literal e íntegra” e, lançada pelo autor com caráter sensacional, galvanizou o interesse pelo livro oriental — mas não é mais literal nem integral que a de Burton, embora seja mais completa em alguns aspectos, como esta o era em relação às anteriores.
O próprio doutor Mardrus, no prólogo à sua versão francesa, declara ter utilizado os mesmos elementos que Burton — a edição de Breslau, a de MacNaghten — e deixa apenas uma margem para sua possível glória de acrescentador na tradição oral, dizendo ter tomado muitas de suas histórias da viva voz de recitadores públicos dos bazares e cafés sírios e egípcios, sem porém nomear os raui nem indicar os lugares onde os escutou.
Mardrus apresenta-se a si mesmo como o verdadeiro descobridor das Mil e Uma Noites, o revelador de um livro que até ele ninguém havia dado a conhecer em sua integridade — mas seu prólogo, de tom inteiramente lírico e apologético, está desprovido do menor espírito crítico ou da erudição que, sendo ele sírio de nascimento e médico de linhas de navegação que percorreu todos os mares e visitou todos os portos do Oriente, seria de esperar.
Mardrus era acima de tudo o escritor naturalizado em Paris, amigo e contertulio dos cenáculos simbolistas e decadentes presididos pelo cabalístico Mallarmé, rodeado de toda a plêiade poética de fim de século em que figuram os Moréas, os Lafargue — e casado com a escritora Lucie Delarue, do tipo das Rachilde e das Colette Willy.
Mardrus oferece sua tradução aos amigos nestes termos: “Eu ofereço nuas, virgens, intactas e simples, para minhas delícias e o prazer de meus amigos, estas noites árabes, vividas, sonhadas e traduzidas sobre sua terra natal e sobre a água. Elas me foram doces durante os ócios em remotos mares, sob um céu agora distante. Por isso as dou. Simples, sorridentes, cheias de ingenuidade, como a muçulmana Schahrasada, sua mãe suculenta, que as deu à luz no mistério, fermentando com emoção nos braços de um príncipe sublime, lúbrico e feroz, sob o olhar enternecido de Alá, clemente e misericordioso. Ao virem ao mundo, foram embaladas pelas mãos da lustral Doniazada, sua boa tia, que gravou seus nomes em folhas de ouro coloridas de úmidas pedras preciosas e as cuidou sob o veludo de suas pupilas até a adolescência dura, para espalhá-las depois, voluptuosas e livres, sobre o mundo oriental, eternizado por seu sorriso. Eu vos as entrego tais como são, em seu frescor de carne e rosa.”
Mardrus resolve o complexo problema da tradução com facilidade maravilhosa — mas suas afirmações de literalidade se contradizem com estas outras que a seguir escreve: “As dificuldades do idioma original, tão duras para o tradutor acadêmico que vê nas obras a letra antes que o espírito, convertem-se, entre os dedos do amante do balbucio oriental, em espirais tão belas que muitas vezes não se atreve a desembaraçá-las, por medo de que percam sua originalidade.” — o que equivale a dizer que o tradutor não se ajusta inteiramente à letra do texto, mas dela se afasta quando o estima conveniente.
O estilo da versão de Mardrus é inteiramente francês e às vezes boulevardier — sua prosa ondula, alonga-se, sobrecarrega-se e explica-se, à diferença da prosa árabe, que é um manto liso em que prendem joias de fulgor solitário, e sobre a qual Renan afirma: “A ideia do estilo é de todo alheia aos semitas. Em vez desses sábios encadeamentos de frase em que gregos e latinos agrupam com tanto arte os distintos membros de uma mesma ideia, os semitas fazem suceder umas proposições a outras, empregando por todo artifício a simples copulativa e, com a qual suprem quase todas as conjunções.”
O apologista de Mardrus, Gómez Carrillo, declara: “A frescura original, a ingenuidade dos primeiros autores foram respeitadas por Mardrus, mas realçadas com sua maestria de artista moderno. O doutor Mardrus é um notável escritor, e a celebridade literária o acompanha em seu lar, pois está casado com a exquisita novelista francesa Lucie Delarue-Mardrus.”
As contribuições próprias do doutor Mardrus são consideráveis — entre elas as Doze histórias (Noites 533 a 542), que contam os doze capitães do sultão egípcio Baibars; a silva de anedotas atribuídas ao bufão de Tamerlão, o popular Choja (Noites 696 a 700); e a série intitulada O jardim perfumado, procedente do livro homônimo do sheik Nefsaui — mas sobre todas elas paira a suspeita do apócrifo, ou pelo menos do duvidoso, do que Burton chama paramythia.
Mardrus deixa fora de seu marco a história de Uarduján, filho do rei Cheliâad (Noite 494), a de Judadad e seus irmãos (Noites 995 a 996), e muitos longos e belos poemas indignos desse esquecimento.