R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.
Os árabes são descritos como homens de grande sensibilidade, mas de pouca imaginação em comparação com arianos, gregos e persas
A imaginação é considerada um dom próprio da raça ariana, habitante de altas mesetas asiáticas
Os arianos criaram a mitologia, os épicos longos e complicados, os heróis, deuses e monstros, fundamentando a comédia e a comédia divina
Árabes e hebreus, como homens do deserto, comunicam-se com o infinito apenas pela emoção religiosa, vendo na divindade apenas a solidão de Deus
Anjos e demônios são criações da fantasia ariana, e o inferno corânico é calcado no modelo persa do Bundehesch
As fontes islâmicas descobertas por Asín
Palacios em Dante são, na realidade, fontes zoroástricas
Os árabes, na literatura narrativa, dificilmente passam da emoção primária e elementar
Como povos primitivos, detiveram-se na anedota e no conto, sem se elevar à novela ou à sinfonia
O árabe sonha, mas não sabe extrair proveito literário de seus sonhos, inspirando-se na vida real e desperta
A sensibilidade árabe, muito viva e apaixonada, deforma as coisas reais, abultando-as e convertendo-as em fantásticas por meio da hipérbole
A psicologia descrita é a de um demente normal, psicologia quixotesca, da qual deriva o afã de análise e introspecção de caráter transcendental e filosófico
O espejismo do deserto influencia a deformação da visão real do árabe
O espejismo finge cidades fantásticas e introduz um elemento maravilhoso na aridez da vida real
O deserto beduíno inspira metáforas e imagens poéticas, projetando-se sobre o fundo real da história
O nômade, alucinado pela caligem desértica, perde a noção clara da realidade e vive em um estado de sonolência
A sesta árabe, a kailulah, é um elemento criador de fantasias, comparável às noites dos países nórdicos
A literatura narrativa árabe nasce em sessões noturnas ao redor de fogueiras
As histórias são cronometradas pela noite, incapazes de se elevar a regiões sem tempo preciso como a Ilíada
Em As mil e uma noites, a persistência da medida noturna é natural, com o mérito de dar um interesse excepcionalmente dramático ao suspender a alfanje da aurora sobre o pescoço de Schahrazad
A angústia temporal de Schahrazad é a de todas as noites, que sobrecarrega o homem desvelado, pois a noite sempre deixa cadáveres para enterrar ao amanhecer
O realismo árabe imprime seu selo nas histórias de As mil e uma noites, mesmo nas mais irreais
Histórias de origem exótica, como as de Kamaru-s-Semán e do rei Schahramán, mostram-se entretecidas com elementos da realidade árabe mais patente
Mesmo nos contos fantásticos para crianças, o leitmotiv é inteiramente real e humano, sendo esse humanismo a contribuição semita
O rapsodo árabe aproveita argumentos existentes para enxertar seu próprio costumbrismo, apresentando Harunu-r-Raschid, personagem histórico, em um ambiente de magia
Tudo o que é real e humano em As mil e uma noites é considerado enxerto árabe, sendo a anedota e a quase-história sua predileção
Há em As mil e uma noites uma combinação de história, quase-história e mito
Tudo aparece deformado como em um quadro cubista, com sobreposição de planos
Os rapsodas manipulam o material existente para surpreender e produzir algo extraordinário, constituindo precedente para gêneros cultivados por Hoffmann e Poe
A inventiva se move em um círculo restrito, com argumentos repetidos, permitindo formar grupos de contos-tipo, como fizeram Burton e Littmann
O interesse do escriba árabe não está na novidade do argumento, mas nas situações e estados emocionais de angústia, paixão ou melancolia
O leitor ou ouvinte árabe não se cansa de reproduzir as mesmas situações patéticas e os mesmos tropos e hipérboles
São exemplos de situações: a alegria de amantes que se reúnem ou de um pobre que encontra um tesouro
São exemplos de tropos: os olhos como luas ou sóis, as faces como rosas ou anêmonas, os lábios como corais, termos usados por Salomão para a Sulamita
A arte essencial do escriba é entreverar elementos e situações conhecidos para parecerem novos, seguindo a tradição dos confabulatores nocturni
A raiz da emoção diante do relato do jogral é de natureza dramática e contém o germe de um teatro
Os árabes, no entanto, não passaram do status nascendi nesse aspecto
As mil e uma noites são resumidas como uma amálgama de história, quase-história e franco mito, operada no tópico e no íntimo, resultando em personagens de classificação mista e bastarda
A obra é considerada uma escritura cruzada de dupla e até tripla leitura, exigindo chaves de filólogos, etnólogos e psiquiatras
Há muita história em As mil e uma noites, embora apresentada em termos fabulosos
Ao longo do livro, passa-se de uma época a outra, vislumbrando graus de evolução política e social do império islâmico
A mistura sem ordem cronológica não danifica o prazer estético, acusando a mesma técnica medieval de tapeçarias e quadros antigos, usada por Goethe no
Fausto
A técnica dos escribas anônimos produziu um fruto de enxerto novo, com um bouquet único, criando o gênero da história breve, rara e patética
A fórmula de liga do real com o fantástico, própria das criações oníricas, dá às histórias um ar de verdade convincente
Essa atmosfera de ópio é tão sedutora que escritores ocidentais como Baudelaire e De Quincey tentaram suscitá-la em si mesmos com álcool, morfina e ópio
Os personagens mil-e-uma-noitescos vivem em estado de semialucinação, conduzindo-se de modo raro e ao mesmo tempo natural
Personagens reais, como mercadores sentimentais e esplêndidos, agem de modo fantástico, negando sua classe, enquanto personagens francamente fantásticos se portam como seres reais
O ponto de partida das histórias costuma ser simples e natural, mas logo se ingressa no reino da quimera
A credulidade e a aparente sinceridade do narrador contagiam o leitor, como Sancho na companhia de Dom Quixote
O fato de a maioria das histórias ser contada pelo protagonista, a impulso de uma necessidade de confidência e não de exibição literária, confere um ar supremo de sinceridade
O tom de verdade do narrador em primeira pessoa, sem pretensões literárias, rende o leitor desconfiado, como ocorre em conversas em cafés ou bancos públicos
Os protagonistas serem personagens reais e até vulgares ajuda a fazer parecer que a vida normal pode mudar de repente por um encontro fortuito ou um pensamento estranho
Uma palavra casual, um pensamento inoportuno ou um sonho podem remover estados psíquicos latentes e converter o homem sedentário em nômade, ou o apático em amante
Os personagens de As mil e uma noites têm todos uma psicologia anormal ou psicose latente
Essa psicose é provocada pelo contraste de civilizações, culturas e religiões, conflitos entre um fundo poético e anárquico e novas formas de vida política e social
Os personagens têm a psicologia medieval, não aceitando a racionalização das formas de vida, vacilantes entre dois mundos e presa fácil de demônios
São descritos como endemoniados ou guiados por sua estrela, andando como ébrios, em um estado de inconsciência consciente
Esses buscadores de tesouros quiméricos são seres parcialmente enlouquecidos, com uma loucura cíclica e intermitente à la Dom Quixote, heróis de segunda mão
A realidade humilde dos personagens, convertidos de repente em heróis ou sultões poderosos, dá uma fisionomia peculiar à obra
O caso de Simbad, o marinho, homem de vontade e luta, é tão raro que se pensa ser uma cópia do Ulisses grego
As histórias, apesar do tom de sinceridade, sugerem a suspeita do falso, deixando a dúvida de que os narradores não creem totalmente nelas
As suntuosidades descritas parecem espejismos de deserto, o sonho de gente pobre que sonha com riquezas, coisas já em ruína na época em que as histórias foram escritas
O muito sol do Oriente cria uma caligem propensa ao espejismo, dotando as histórias de um encanto especial
Nada é como é em As mil e uma noites: a China não é a China, a Pérsia não é a Pérsia, os mercadores não são mercadores
O elemento onírico sincroniza, sintoniza e funde tudo, formando paisagens e criaturas exclusivas da obra, que se resolvem em fábulas
Esse mundo irreal tem um fundo de realidade indiscutível, desenvolvendo-se no marco político e religioso do califado
Há no livro uma protesto contido de caráter social, correntes filosóficas e místicas, nacionalismos latentes e o anseio de utopia
O mundo de As mil e uma noites é uma aparição, um véu poético sobre a realidade, com personagens cheios das mesmas taras e psicoses da moderna novela psicológica
A inquietude refletida na obra assume formas místicas e poéticas, de acordo com o tom geral da época
Os personagens representativos não têm o poder impressionante dos personagens da novela moderna que lhes correspondem
Seria preciso passar esses argumentos pela pena de um escritor moderno para que adquirissem toda sua importância política e social
Em As mil e uma noites não há psicologia nem paisagem, tudo é impreciso e vago, com o infantilismo de criações antiquíssimas
A obra deve ser considerada em sua dualidade íntima: muito velha e muito criança, muito sábia e muito ignorante, erudita e popular ao mesmo tempo