R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.
A questão moral em As mil e uma noites é considerada um ponto candente, indagando-se se são um livro moral e qual seria a sua moral
A obra não é considerada inteiramente moral se atendido apenas ao meio social e ao tempo histórico em que se desenvolvem as histórias
As magnificências literárias ocorrem em um ambiente de profunda miséria moral, no marco da tirania política, da poligamia e da escravidão
Mulheres exquisitas e cultas são apresentadas como pobres escravas compradas nos zocos, causando pena e indignação em Maeterlinck
O quadro de moral bárbara e primitiva hoje subleva, mas o sentimento de protesta se atenua ao lembrar que os diálogos de Platão também se desenvolvem em ambiente de escravidão
É necessário situar-se imaginativamente nos tempos e não pedir a uma obra puramente literária o que ela não pode dar
Por cima da moral corrente, há na obra, como nos diálogos de Platão, destelhos de alta moral, independente dos costumes
Não se pode tachar de imorais As mil e uma noites nem o povo que as escreveu, pois se situavam no terreno da moral então vigente
É absurdo vincular a moral a uma raça, especialmente quando os semitas já tinham a Bíblia, de cujo fundo profético arranca toda a moral do Ocidente
Prescindindo das limitações do tempo e do grau de evolução social, a obra formula protestas e retificações ao estado de atraso moral de suas cenas
Há nelas, em meio aos arabescos, uma linha constante que tende ao grande e ao belo, base de toda moral superior
Há um elogio contínuo das virtudes afirmativas: generosidade, perdão das ofensas, grandeza de alma, sacrifício de si mesmo pelo bem dos outros
O amor, mesmo em formas primárias, é algo generoso que rompe os quadros sociais e une homens e gênios
As mil e uma noites têm uma atmosfera de idealidade que envolve e penetra todos os seus prosaísmos ocasionais
A obra se torna divina à força de ser humana, retificando o que Cervantes disse de A Celestina
A obra dá uma lição de moral na forma em que pode dá-la uma obra de arte: em termos de beleza, fazendo com que se deseje parecer com suas grandes figuras
Há uma constante apologia do belo, moral e físico, e a condenação e zombaria do feio
Não há ruindade que não leve seu castigo nem grandeza de alma que não receba sua coroa, com a estética atuando como moral
Todos os maus morrem por onde mais pecaram, como o rei Omaru-n-Nomâni, a velha Zatu-d-Dauahi e os irmãos de Abdu-l-Lah-ben-Fázil
A justiça imanente atua até sobre os gênios, que parecem estar acima da Nêmesis
Uma característica da obra é mostrar a solidariedade que une todos os seres, de todas as castas e planos
A história do mercador que, ao atirar um caroço de tâmara, mata o filho do efrito é uma prova dessa solidariedade
A teoria do determinismo e da estrita concatenação de causas e efeitos confirma cientificamente essa ideia
Nada é indiferente nos universos, nem nada se perde, nem no moral nem no físico, ideia que já aparece no Talmude
As mil e uma noites não são um livro inteiramente frívolo e sem substância, contrariando a afirmação de De Sacy
A afirmação de De Sacy de que a obra não apresenta nenhum objeto moral ou filosófico é considerada excessiva
Também é excessiva a afirmação de Roso de Luna, que lhes atribui o valor de uma revelação
A obra deve situar-se em um plano intermedio, próprio das obras literárias, que expressam seu conteúdo moral e filosófico por imagens e linguagem simbólica
Como outros livros medievais, a obra recolhe arrastres de uma tradição antiquíssima e funde elementos da épica e da sabedoria universais
Em meio à loucura aparente, encerram uma grande cordura, tratando de levar o homem ao caminho reto por caminhos torcidos
A obra tem o anseio catequístico de seu tempo, aspirando a doutrinar os homens mostrando o quadro dos tempos e o jogo prodigioso dos destinos humanos
A obra mostra o surgir e desvanecer de impérios e cidades, desenhados e apagados como figuras na areia pelo dedo do Destino, que está sujeito à vontade de Alá
A obra deixa o leitor solitário e entre ruínas, frente à Morte e a Deus, último termo de todas as coisas
O Alá corânico é apresentado como a Entidade misteriosa, incognoscível, indefinível, a única Realidade irreal, que acaso seja o Todo e acaso o Nada
O leitor se sente apanhado nas malhas do Absoluto e fica pensativo, como Xariar quando Xerazade se cala
Essa emoção estética vale por toda uma moral, sendo, em último termo, uma emoção do Tempo
O Tempo, que serve de broche e confere unidade ao livro deslavado, é como um grande rio cuja palpitação fugitiva se deixa ouvir constantemente ao pé deste alcáçar literário