R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.
O gênero literário picaresco é algo que os árabes podem reivindicar como seu, tendo ampla e brilhante representação em As mil e uma noites, como na longa História de Ahmedu-l-Dánaf e Hasan-Sihuman com Dalila, a ladina, e Seineb, a trapisondista, sua filha (Noites 387 a 394).
Esse gênero tem continuação nas Aventuras de Alí, O Azougue, o de Mizr (Noites 394 a 405).
Nessa história desfilam todos os tipos da malandragem de Bagdá e até do Cairo.
Também aparecem os grotescos policiais encarregados de persegui-los, que são tão pícaros e malandros quanto eles.
O gênero picaresco oriental, modelo do gênero picaresco espanhol, não se sai nunca do mundo da deliquência miúda, do furto e da pequena estafa, deixando margem para a hilaridade sem se arrojar à esfera do crime.
Esses delitos não causam dano maior, deixando um margem para a hilaridade.
O gênero picaresco oriental nunca se arroja à esfera do crime, em que se move o atual romance de detetives e gângsteres.
É um mundinho de engenho e, em certo modo, de travessura.
Esse mundo foi criado pelos literatos árabes, que, como os da época correspondente na Espanha, eram também por força algo pícaros ou boêmios.
Ninguém duvida mais que aos árabes pertence a quase paternidade do gênero picaresco, do qual anteriormente só existem o Satiricón, de Petrônio, e O asno de ouro, de Apuleio, sendo que na história comentada intervém também a magia.
Na história comentada intervém também a magia, como na do último dos escritores citados (Apuleio).
Ainda que antes dos árabes já houvesse manifestações de literatura picaresca, foram eles que sistematizaram o gênero.
Os árabes ilustraram o gênero com obras admiraveis, escritas na melhor prosa arábica, esmaltada de versos e sentenças, como as Mekamats de Al-Hariri.
Foram eles que, por mediação dos mouriscos, introduziram na Espanha o gosto por esses quadros de vida plebeia e malandra, cheios de uma verdade pitoresca e às vezes amarga no meio das risas.
O romance picaresco, visto por muitos como precedente do realismo zolaesco e do romance psicológico do século passado, arranca indubitavelmente desses modelos árabes que os europeus apenas reproduziram.
Os europeus não fizeram senão reproduzir os modelos árabes, transladando-os para seus ambientes e pintando-os com suas próprias cores.
A pena com que escrevem parece a mesma cana árabe que seus colegas do Oriente lhes tivessem cedido.
Dalila, a ladina, esse tipo de mulher enredadora e trapisondista, deu sua forma e até seu ar a Celestina da novelística do medievo longo.
Esse tipo não tem igual nas demais literaturas da Europa e saiu dos haréns do Oriente.
É natural que assim seja, porque essa literatura picaresca, embora afete ares de autobiografia e autoconfissão do protagonista plebeu, é obra de grandes escritores, aristocratas do espírito e da cultura.
Por meio desses bonecos, os escritores projetam no livro a filosofia empírica de uma personalidade superior.
O único elemento veraz e legítimo nessas autobiografias de pícaros como autoconfissão dos autores é a queixa do homem de engenho maltratado pela sorte e mal apreciado na estimativa social.
Essa queixa inspira o argumento constante e tradicional dessas obras, tanto no Oriente quanto no Ocidente.
O gênero picaresco, tratado por escritores graves, sapientes humanistas e humanos, vem a ser uma espécie de epopeia ao revés, uma epopeia do povo cujos heróis são seres humildes, anônimos, que vestem farrapos e lutam pela vida.
Os heróis não são reis, nem príncipes, nem guerreiros de uma genealogia longa e prolixa.
São seres da gleba e do ossário comum, que vestem farrapos e lutam simplesmente pela vida, pelo pouco de sol e pelo pedaço de pão vital.
Às vezes sentem apetites de trajes suntuosos e manjares exquisitos, passando então do jejum à comilança para voltar novamente ao jejum.
O característico do pícaro é viver ao dia e tomar as coisas conforme vêm.
É preciso distinguir o gênero picaresco dos árabes e o gênero picaresco espanhol do século XVI, que é sua continuação, da literatura do arrivista, que não aparece até o século XIX com Balzac e seu personagem Vautrin.
A literatura do arrivista, do parvenu, não aparece até o século XIX.
Balzac delineia com Vautrin toda uma estratégia de assalto à fortuna e ao poder.
Isso explica que o gênero picaresco seja o gênero literário mais eminente entre os árabes, que não têm propriamente epopeia, e que nele se encontrem as supremas virtudes do estilo, até raiar no sutil e obscuro de sua mais requintada poesia.
No gênero picaresco se encontram as supremas virtudes do estilo, até raiar no sutil, alambicado e obscuro de sua mais requintada poesia.
Escritores como Al-Hariri, comparável no conceptuoso a Quevedo, apresentam em suas Mekamat mais dificuldades ao estudioso que os moallakats clássicos.
As Mekamat de Al-Hariri foram publicadas em fólio por De Sacy.