R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.
Se os árabes não têm eloqüência, têm a poesia, na qual são ricos não apenas para si, mas para dar aos demais, pois nasceram poetas por serem apasionados e por terem se criado no deserto.
Os árabes nasceram poetas porque nasceram apasionados e passionais.
Eles se criaram no deserto, nesse infinito de areia, coberto pelo outro infinito do céu, em que as estrelas escrevem os destinos.
A poesia nasceu entre esses beduínos idólatras da simples contemplação dessas grandezas naturais que deslumbravam seus olhos e arrebatavam sua mente.
A poesia também nasceu do ardor bélico em que os inflamava seu ardente sangue, fazendo-os aspirar a cometer façanhas com que se distinguissem.
Da poesia árabe surgiu uma dupla direção — lírica e épica — da qual há ampla constância nos herbários das antologias de cantores da época chamada da ignorância (Al-Chahilia), destacando-se os sete moallakats, ou poemas pendurados ou dourados.
Os poemas desse período passavam de dois mil, segundo alguns autores.
Os sete moallakats descuelam como sete planetas.
Eles mereceram a honra de serem escritos em ouro nos tapetes que todos os anos se suspendiam dos muros da Caaba, esse panteão idolátrico que logo passou a ser morada exclusiva de Alá.
Os autores dos moallakats são Amru-l-Kais, Tárafa, Sohair, Lebid, Antara, Amru e Harits, astros que iluminam as noites dessas cortes semibárbaras de Hira e Saná.
Depois da época da ignorância (de Alá) vem a do Islã, cujo foco poético mais potente se condensa na corte de Harun al-Raschid, em Bagdá, marcando o Século de Ouro da poesia árabe.
A corte de Harun al-Raschid em Bagdá é o foco poético mais potente do Islã.
O ciclo de Harun al-Raschid marca o Século de Ouro da poesia árabe pelo favor que esse sultão poeta concede aos colegas profissionais e pela esplendidez com que paga as pérolas poéticas.
Ao morrer Harun, a poesia árabe não morre, mas perde sua espontaneidade, tornando-se cortesã, acadêmica, repetindo-se e desmenuzando-se em jogos de engenho, acrósticos e rimas de circunstâncias.
A decadência da poesia árabe segue a linha descendente de sua decadência política, passando o dom apolíneo para os poetas persas, assim como a hegemonia política passa para a corte de Mahmud de Gasna.
Os persas devem sua poesia aos árabes, segundo a unânime opinião dos historiadores, desde Anquetil du Perron até Pizzi.
Pizzi afirma rotundamente que os persas não tiveram poesia até que entraram em contacto com os conquistadores árabes.
Os árabes são poetas natos, espontâneos, impulsivos, que reacionam instantâneamente ante as coisas que os impressionam, sendo por natureza improvisadores, e não escrevem porque não sabem.
O árabe lança sua copla ao vento, assim como sua lança, desde a sela de seu cavalo ou seu camelo, e não se cuida de recolhê-la.
Tárafa e quase todos os “Nobel” de Okazd são analfabetos.
Toda essa poesia pré-islâmica se foi transmitindo pelo ar, pela onda auditiva, até que no século II da hégira começam os Planudes árabes como Hamasa-Abi-Temman a recolhê-la em suas antologias.
Depois dos poetas pré-islâmicos vêm os chamados mujadram ou mujadrim (espúrios), por serem meio pagãos, meio muçulmanos, florescendo imediatamente antes ou depois do advento do Enviado Maomé.
Esses poetas, entre os quais figura o famoso Lebid, acusam já o contacto pessoal entre árabes e persas e o intercâmbio de temas e influxos.
Os persas aprendem os metros árabes e os primeiros novos ares e tons, delicadezas e elegâncias.
Nessa fusão de elementos, o sangue poético se enriquece e ao mesmo tempo se adultera, as respectivas línguas se mesclam e corrompem.
A poesia arábica é essencialmente lírica, expressão de um estado passional intenso mas instável, a semelhança do salmo hebraico, que nasce de uma emoção do momento e rompe em uma veemente catarata de tropos e figuras.
Nada de plano preconcebido nem de execução laboriosa: Davi se senta, pega a harpa e começa a cantar, para desafogo de seu coração, sua dor e seu gozo.
O lirismo semítico é uma terapia psíquica.
Esses poemas dourados têm todo o ar de improvisações e tudo sugere que não se compuseram de uma vez, de uma sentada, mas em sessões sucessivas.
Mais adiante, na época de Harun al-Raschid e demais príncipes abássidas, os árabes tiveram poesia escrita, como os gregos e latinos, mas sempre sua poesia conservou seu caráter de impromptu, de criação momentânea.
A poesia árabe é uma reação imediata a um fato emotivo ou ao enunciado de um tema.
Isso era favorecido pela ausência de rima ao modo ocidental e a abundância de licenças gramaticais permitidas ao poeta.
Em As mil e uma noites, todo mundo versifica a impulsos da emoção intensa ou do engenho excitado, e isso não é ficção, senão reflexo da realidade cotidiana.
O setor em que mais se distingue essa poesia é o erótico ou amatório, que abarca todos os graus da paixão, desde o arroubo triste e ardente que caracteriza os pródromos dessa psicose até os orgiásticos epinícios do enamorado triunfante.
A nota mais frequente nesses poemas eróticos é a pessimista, o lamento inspirado pelos pressentimentos das dificuldades que se opõem ao amor nascente.
A ausência, a saudade, é a inspiradora dos poemas mais belos, ternos, delicados e tristes que rimam esses enamorados.
Esses poemas de ausência, juntamente com os que poderiam chamar-se de marcha ou despedida, são algo tipicamente árabe, que já se expressa nos moallakats — o de Tárafa começa assim.
A lírica erótica dos árabes é a parte mais rica de sua poesia, e nesse particular nenhum povo lhe ganha, podendo-se encontrar nela os primeiros arquetipos do amor romântico, platônico, cavalheiresco, que na Europa não aparecem até o século XIV, com Dante.
As coisas que os poetas árabes disseram do amor e de suas amadas comporiam uma antologia sem igual.
Essa ideia e esse sentimento do amor têm já sua expressão poética em sua realidade entre os árabes do deserto, segundo se pode ver no anecdotário amoroso de Al-Bikai intitulado As-Suaku-l-Aschuak (Os zocos dos amores).
Trata-se aí não do amor simplesmente, mas do ischk ou paixão exaltada, sublimada, de uma espécie de loucura que pode conduzir ao “crime passional”, à fúria agressiva, à hebefrenia ou ao suicídio lento do místico desligado do mundo.
Nesse estado de percitus amore (agitado pelo amor) se encontram Tárafa, Antara e muitos heróis dos antigos romances árabes, retocados depois por rapsodas influídos pelo gosto e a moda persas, sendo esse o estado por que passam os heróis da novela cavalheiresca ocidental.
Kosegarten expressa o estado desses enamorados com a frase latina percitus amore, que corresponde mais ou menos ao kamopahata-chittanga dos sânscritos.
Os heróis desse estado são os Rolandos e os Amadises, até o último deles já doente de caricatura, Dom Quixote.
O poeta usri Chamil e sua amada Botsaina são precursores dos amantes de Teruel, “tonta ela e tolo ele”, segundo a frase popular que demonstra a incompreensão ibérica para esse gênero de amores, talvez introduzido entre os espanhóis pelos mouriscos.
Ali ibn Bakkar morre expressando seu último desejo de que o enterrem junto com sua amada Shams al-Nahar.
O povo espanhol fez sua essa frase como expressão irônica do desejo desses suicidas por amor: “Que os enterrem juntos”, o que indica o exotismo desses sentimentos.
Tudo isso demonstra a injustiça dos detratores dos semitas, como Roso de Luna, que os culpam de grosseiros e sensuais, incapazes de sentir em outra forma que a sexual e específica, sendo isso injusto e, ao mesmo tempo, inexato.
Em As mil e uma noites há provas sobradas de não ser assim, e a literatura é a consciência dos povos.
Toda essa lírica erótica que semeia de madrigais estas histórias prova que a alma semita pode sentir o amor com a mesma nobreza e pureza que os arianos e escrever páginas de ternura, poemas de amor que não têm nada que invejar aos de Rama e Sita ou Nala e Damayanti na literatura sânscrita.