R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.
Como todas as criações do tipo popular, As mil e uma noites encerram um fundo erudito tratado popularmente, o que lhes dá o nome convenido
O sábio indianista Regnaud afirma, referindo-se aos Vedas, que a muchedumbre anônima designada com o nome de povo jamais produziu literatura
Na origem de todos os ciclos poéticos, a tradição ou a história mostram individualidades ou grupos de autores organizados em corpos profissionais que dão impulso à literatura
O nome de populares que se dá a essas obras justifica-se pelo seu tom popular e porque seus criadores trabalharam coletivamente inspirando-se em tradições antiquíssimas
Enquanto a poesia não passa de seu período oral, não perde esse tom de criação anônima e coletiva do povo
A escritura levanta uma barreira entre os cantores espontâneos analfabetos e os literatos que compõem livros
São os brâmanes que fixam os textos védicos e lhes formam sua gramática e seu glossário, dando origem à literatura erudita
A literatura escrita, que se forma sobre a falada, é de caráter culto e sábio, adotando um tom didático dirigido a um público culto
A literatura popular falada segue desenvolvendo-se com independência das fontes doutas, sobre uma base de saber incompleto e vago
Mais adiante, a literatura popular se nutre dos derrames da fonte culta, adaptando à sua idiossincrasia essas doutrinas essenciais
Os sábios escrevem obras para o povo, acomodando-se ao seu estilo e ao seu verbo figurado cheio de vida e cor
O processo de formação da gíria é o mesmo da linguagem poética e arranca do subconsciente
O poeta, em suas reações, é um rebento atávico do selvagem e do delinquente primitivo no meio da civilização
Popular é sinônimo de poético, e poetas como Virgílio em suas Geórgicas rehuíram cuidadosamente todo tecnicismo para compor versos admiráveis
Os filósofos, moralistas e pedagogos, quando sentem o dever de instruir o povo, fazem literatura popular adotando uma atitude infantil
Reaparece o popular na forma, mas com um fundo de saber erudito, devido à incultura geral dos tempos
O escritor culto, por incultura ou por próprio prazer e diversão, emprega em suas obras o tom da plebe
O escritor culto sabe seu latim e leu seus clássicos, mas se expressa em romance, em prácrito ou em árabe vulgar
Surge a dúvida se o escritor é assim de si ou se se acomoda deliberadamente a essa forma popular por razões estéticas ou por analogia de gostos
Anacronismo e confusão de nomes e lugares são recursos do popular, como se vê em Berceo, no Arcipreste, em Rabelais e nos quadros dos primitivos
Em As mil e uma noites, o popular se aprecia desde logo na linguagem não clássica e no estilo simples com tendência à frase estereotipada e ao estribilho
O popular ressalta na imprecisão das noções históricas e geográficas, nos anacronismos e impropriedades
Harunu-r-Raschid aparece alternando com gênios, como Salomão na lenda, em relatos de base histórica
Os populismos do rapsoda são tantos que induzem à suspeita de divertir-se com o pastiche ou o esperpento
Mas essas suspeitas são provocadas pelas mostras de saber erudito, filosófico e iniciático de que o rapsoda dá provas em outras ocasiões
Os autores dos contos se mostram carregados e sobrecarregados de cultura não só oriental, mas até helênica
Já foi sinalizada a quantidade de saber psíquico e metapsíquico nessas histórias, tradição mista com colaboração de todos os sábios da antiguidade
Na História do rei Amaru-n-Nomâni e de seus filhos (Noites 60 a 102), na História de Tauaddud, a escrava (Noites 269 a 280) e na de Balukiya (Noites 285 a 295) há exposta fragmentariamente toda uma cosmogonia de origem indo-persa
A chave teosófica é útil nesse caso, ao passo que para enigmas pré-históricos é necessário apelar à antropologia
Todo esse fundo de saber aparece já no Alcorão desfigurado, revuelto e confundido, tratado em forma popular e poética
Os autores das histórias mil-e-uma-noitescas não acertam de discernir se são ignorantes ou se querem parecê-lo
Viveram e escreveram em tempos em que já tinham à disposição uma bibliografia copiosa em obras árabes ou traduzidas para o árabe
A mesma paradoxa mil-e-uma-noitesca se apresenta: os autores parecem tão logo analfabetos quanto arquintelectuais
Há histórias de intenção ambígua, como a do garoto teimoso que não faz mais que loucuras e acaba por salvar um reino, podendo ser sátira do Saber e também apologia
Rabelais, homem sapientíssimo, burla-se da sabedoria oficial, e nos séculos XVI e XVII há uma pugna constante entre o saber oficial erudito e o saber vivo dos pensadores
Contra a pedanteria acadêmica, os pensadores adotam linguagem e formas de plebe e dizem sua missa literária em romance vulgar
Assim se compuseram livros de profunda médula filosófica, como o Bertoldo, Bertoldino e Cacaseno, que trazem sua origem do anedotário dos cínicos gregos
Voltaire no século XVIII e Molière no século XVII dizem grandes e profundas verdades em estilo de fabliau e farsa medieval
Em As mil e uma noites, é fácil perceber, sob a forma popular, um saber erudito que trata de se disfarçar
Até o conto mais aparentemente absurdo é passível de um sentido transcendental
Não há nada na obra que seja um franco disparate, por mais que o pareça
A parte inverossímil de prodígios, magias e feitiçarias pode ser tomada como a atmosfera poética em que o rapsoda gosta de envolver suas criações
Há sempre a dúvida se o narrador crê de boa-fé no que narra ou se sorri interiormente
Entre o rapsoda e o escriba media uma grande distância, na qual pode se intercalar um sorriso
Há histórias como a de Aladim e a lâmpada que são imitações eruditas que afetam ar popular, o chamado pastiche
O rapsoda impõe ao escriba seu estilo e seu pathos, mas o próprio escriba tem às vezes a mesma mentalidade do rapsoda
O popular predomina nas histórias e caracteriza sua técnica formal, embora no fundo se deixem perceber presenças eruditas
Disso decorre que As mil e uma noites tenham o encanto especial dos livros que sugerem mais do que dizem
Por trás do fundo popular anônimo, se transluz um escritor que joga com ele em plano de humorismo, como Cervantes com a loucura cavalheiresca de seu herói
O jogral e o escritor colaboraram nessa ingente criação, difundindo sobre toda ela uma espécie de penumbra espiritual