R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.
Como no Talmud, há na obra história, teologia, filosofia, ciências, realidade e idealidade, coisas para rir e para chorar, incluindo a morte, como nas grandes comédias.
Em As mil e uma noites, como no Talmud, há história, teologia, filosofia, superstição e ciências.
Há também realidade rasteira e idealidade etérea, coisas para rir e coisas para chorar.
Há de tudo como na vida, sem faltar a morte, como nos grandes poemas ou divinas ou humanas “comédias” que pretenderam refleti-la ao longo do tempo.
Os árabes, às vésperas de sua decadência, guardaram na obra tudo o que não queriam perder, confiando seu enunciado à narradora persa Schahrasad, como os hebreus fizeram com o Talmud na diáspora.
Como no Talmud, livro de despedida em que os hebreus guardaram todos os seus recuerdos antes de deixar a Palestina, os árabes trataram de guardar em As mil e uma noites tudo quanto não quiseram que se perdesse.
Os árabes fizeram isso às vésperas de sua decadência.
Eles confiaram o enunciado da obra à jovem narradora persa Schahrasad, que não poderia ter conhecimento disso, pois sua voz era já uma voz de além-túmulo.
Essas anedotas são de procedência exclusivamente árabe.
Há no enorme bazar oriental da obra apólogos, fábulas, parábolas, madrigais, epigramas, discursos, epístolas e diálogos, por onde passaram todas as caravanas literárias do mundo.
Apólogo, fábula, parábola, madrigal, epigrama, discursos, epístolas, diálogos: de tudo há nesse enorme bazar oriental.
Por essa obra passaram todas as caravanas literárias do mundo.
A obra abunda em resumos abreviados de longos processos mentais, tomados de múltiplas fontes, como os Maschalim salomônicos, o Hitopadesa e o Livro de Kalila e Dimna.
As mil e uma noites abundam nessa classe de resumos abreviados e sintéticos de longos processos mentais.
Esses resumos são tomados de múltiplas fontes.
Entre as fontes estão os Maschalim salomônicos, o Hitopadesa, o Livro de Kalila e Dimna e outros muitos pelo estilo.
O refrão, dito agudo e sentencioso muito do gosto de árabes e hebreus, tem particular importância, sendo numerosíssimos os refrões árabes adotados pela Europa.
Entre esses resumos, tem particular importância o refrão, esse dito agudo e sentencioso.
O refrão sempre foi muito do gosto de árabes e hebreus.
Eles costumam incrustar essa pedraria miúda tanto em seus escritos como em suas conversas.
“Os refrões árabes — diz Gustavo Le Bon — são numerosíssimos e Espanha e o resto da Europa tomaram deles muitos dos que possuem, sendo de origem muçulmana grande parte dos que constituem o caudal inesgotável da sabedoria de Sancho Pança.”
Não preside unidade de critério nos refrões, que se contradizem e retificam a cada passo, pois têm muito de subjetivo e não são ciência, mas experiência.
Como é de rigor, nunca preside unidade de critério nessas guias normativas dos refrões.
Os refrões se contradizem e se retificam a cada passo, segundo a diversa casuística que os inspirou.
O refrão, apesar de sua universalidade e objetividade aparentes, tem muito de subjetivo.
No fim das contas, os refrões não são ciência, mas experiência.
Depois do refrão, vem a fábula, criação primária de todas as literaturas, cuja prioridade de invenção é disputada pelos povos, tendo os indianos Bidpai, os gregos Esopo, os romanos Fedro e os árabes Lokmán.
Depois do refrão, vem a fábula, essa criação primária de todas as literaturas.
A prioridade de invenção da fábula é atribuída por todos os povos a si mesmos e é tema de dissensão entre os eruditos.
Os indianos têm seu Bidpai; os gregos, seu Esopo; os romanos, seu Fedro; os árabes, seu Lokmán.
Os árabes têm seu Lokmán, de cujas fábulas se formaram analectas, havendo semelhanças com as de Esopo, mas o que interessa é que as fábulas incluídas nas Noites são de procedência indiana.
Os árabes têm seu Lokmán, o sábio Lokmán de quem Maomé fala em seu livro, e de cujas fábulas se formaram analectas bastante copiosas.
Entre as fábulas de Lokmán e as de Esopo, assim como entre suas respectivas biografias anedóticas, notam-se não poucas semelhanças.
O que interessa fazer constar aqui é que as fábulas que se incluem em As mil e uma noites são de indubitável procedência indiana.
As mais pertencentes ao fundo do citado monumento de Bidpai, Pilpai ou Bilpai.
Os animais, as morais, o ethos, o pathos e a filosofia empírica das fábulas são absolutamente hindus, sem ligações lokmanianas.
Tanto os animais que nessas fábulas intervêm como as morais que delas se derivam são absolutamente hindus.
O ethos e o pathos, assim como a implícita filosofia empírica, são absolutamente hindus.
Não se pode descobrir neles ligamentos lokmanianos.
Os árabes deram à fábula clássica um desenvolvimento que ela não tinha, criando, nesse sentido, uma nova variedade literária.
Os árabes deram à fábula clássica um desenvolvimento que ela não tinha.
Nesse sentido, pode-se dizer que os árabes criaram uma nova variedade literária.