R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.
Xerazade, a filha do vizir, apresenta um caráter mais complexo, com múltiplos elementos em seu gesto ousado de amansar o rei histérico
Há muito de viril e heroico nesse gesto de meter-se na boca do leão que devorou tantas mulheres, assemelhando-se a Judite
É uma hipótese aceitável que sua intenção fosse dar morte alevosa a esse Holofernes persa, ganhando o título de redentora
A um rasgo de virilidade une-se em Xerazade outro tipicamente feminil: a arma em que fia sua salvação é principalmente seu próprio feitiço de mulher
Ela conhece as técnicas amatórias que ensinam às virgens a arte da conjugalidade perfeita, seguindo o modelo da Summa erótica do indiano Vatsyayana
Influem em Xerazade sentimentos muito femininos, como a vaidade e a ambição de triunfar onde tantas outras fracassaram
Cabe pensar que ela ia fascinada pelo tropismo da própria lenda de macho terrível do rei Xariar, impelida pela lei biológica da seleção
O complexo psicológico de Xerazade é análogo ao das mulheres que aspiraram a fixar a libido xariaresca de Henrique VIII
O francês Verne a conceitua como uma superfêmea em sentido nietzschiano, mas ela é apenas uma supersexuada, muito mulher
Xerazade vale-se de meios femininos, opera sobre a sensualidade do monarca, usa de coquetterie e leva consigo sua irmã mais nova, Dunyazade
Xerazade não é uma intelectual pedante, apesar de saber muito, pois seu saber é popular, composto de contos, histórias e lendas
Sua principal qualidade é a grande memória, que a capacita para recitadora, levando sua irmã a palácio como apontadora
É mais discreto considerar Xerazade simplesmente como uma senhorita novelesca, com a cabeça nas nuvens, segundo a frase corrente
Xerazade é a louca da casa, a fantasia oriental, e vai meter-se nessa gaiola dourada do rei Xariar para alegrá-lo e distraí-lo
O rei Xariar perdeu o dom e o gosto da fantasia, com seu campo invadido pela monoideia absorvente
Ele só vê o feio e o mau da vida e já não sonha com nada belo, pois perdeu a esperança e a ilusão do amor
Xerazade, muito mulher, tem células maternais e está capacitada para tratar com ternura e manha de mãezinha a esse menino doente e mau
Ela triunfa onde fracassaram os sábios vizires e psiquiatras da época, pois como mulher é ao mesmo tempo menina e mãe
Xerazade lembra, por sua feminilidade, a Sulamita do Cântico dos cânticos e a Shakuntala de Calidasa
A Sulamita leva à corte do rei Salomão a alegria da Natureza e a amorosa ingenuidade dos pastores
Shakuntala, filha dos campos, é a poesia para o rei hindu, que ao perdê-la perde o gosto pela vida
Xerazade lembra a Sulamita no detalhe de levar consigo a palácio sua irmãzinha mais nova, Dunyazade
Não se deve desorientalizar e desumanizar Xerazade adornando-a com virtudes de santa princesa de eucologio medieval
Rimski-Korsakov, em sua visão musical, captou-a melhor, pois a alma russa também é oriental, em todo seu encanto bárbaro, forte e sensual
Xerazade deve ser imaginada como algo primitivo, natural e bárbaro, pois só assim podia subjugar esse sultão primitivo e bárbaro
O recurso de conservá-la virgem até o final, como faz Verne, é um recurso literário forçado e caprichoso
É preciso pôr na ficha de Xerazade um tanto de sensualidade e de amoralidade
Xerazade é uma jovem de seu tempo e sua raça, sem os refinamentos do Ocidente e da época moderna
Uma Corina oriental não se teria prestado a passar por uma prova literária em que tivesse que deixar-se talar o bilhete de núpcias
Deve-se deixar Xerazade saboreando um sorvete ao pé do leito nupcial, dispondo-se a começar sua primeira história