CALVINO, Italo. Fábulas italianas. São Paulo: Companhia Digital, 2012.
O impulso inicial para produzir este livro surgiu de uma exigência editorial: pretendia-se publicar uma antologia italiana de contos populares ao lado de grandes livros estrangeiros.
Questionava-se qual texto escolher, especificamente se existiria um “
Grimm italiano”.
Observa-se que os grandes livros italianos de fábulas nasceram antes dos outros, com exemplos notáveis no século XVI em Veneza com Straparola, cujas “Piacevoli notti” apresentam a fábula de maravilhas com imaginação entre gótica e oriental.
No século XVII, em Nápoles, Giambattista Basile escolheu para suas acrobacias de estilista barroco-dialetal os “cunti”, as “fábulas de’ peccerille”, dando um livro, o “Pentameron”, comparável ao sonho de um disforme Shakespeare partenopeu.
No século XVIII, em Veneza, Carlo Gozzi possibilitou que os contos ganhassem o palco entre as máscaras da “commedia dell’arte” como um divertimento pesado e solene.
A fábula na França e o surgimento do gênero
A hora da fábula soara desde os tempos do Rei Sol na corte de Versalhes, onde Charles Perrault inventara um gênero e recriara no papel uma simplicidade de tom popular.
O gênero tornou-se moda e desnaturou-se, com aristocratas e “précieuses” transcrevendo e inventando fábulas que floresceram e morreram na literatura francesa nos 41 volumes do “Cabinet des fées”.
O ressurgimento na Alemanha romântica e a situação italiana
A fábula ressurgiu pesada e truculenta no alvorecer do século XIX na literatura romântica alemã como criação anônima do “Volksgeist” por obra dos Irmãos
Grimm.
Na Itália, Tommaseo pesquisou cantos, mas as “novelline” aguardaram em vão seu descobridor; Caterina Percoto escreveu contos em dialeto friulano e Temistocle Gradi traduziu fábulas para o falar dialetal.
Os estudiosos de folclore da geração positivista
Foram necessários os diligentes estudiosos de folclore da geração positivista para que se começasse a escrever sob a imposição das avós, acreditando, com Max Muller, na Índia como pátria de cada história e mito humano.
Eles passaram a reunir “novelline”, incluindo Ângelo de Gubernatis, Vittorio Imbriani, Domenico Comparetti, Giuseppe Pitrè, e uma rede de pesquisadores locais como Luigi Molinaro del Chiaro em Nápoles.
Até mesmo Benedetto Croce, com dezessete anos, registrava cantos e lenga-lengas que lhe ditavam as lavadeiras da região do Vômero.
A acumulação do patrimônio e a ausência de um “Grimm italiano”
Acumulou-se uma montanha de narrativas extraídas da boca do povo, graças aos nunca suficientemente louvados “demopsicólogos”, mas tratava-se de um patrimônio destinado a ficar imobilizado nas bibliotecas dos especialistas.
Não surgiu um “
Grimm italiano”, embora Comparetti já em 1875 houvesse tentado uma antologia geral com um volume de “Novelle popolari italiane” e prometido outros dois que não saíram.
A fábula na literatura italiana para crianças
O gênero “fábula” tornou-se domínio dos autores de livros para crianças, tendo por mestre Collodi, que adquirira o gosto pela fábula nos “contes de fées” franceses do século XVIII.
Lembra-se, como excepcional êxito poético, “C’era una volta…” de Capuana, livro de fábulas alimentado por fantasias e espírito popular.
Recorda-se que Carducci levou as narrativas de tradições populares às escolas, inserindo algumas “novelline” toscanas de Pitrè e de Nerucci, e que d’Annunzio transcreveu e publicou com sua assinatura algumas “novelline” da região dos Abruzos.
A possibilidade de uma grande antologia e o mergulho pessoal
A grande antologia dos contos populares da Itália inteira, que seja também livro de leitura agradável, ainda não surgiu, mas parecia que talvez só agora existissem as condições para produzi-la.
Alguém teve a ideia de que o autor deveria escrevê-lo, o que representava para ele um salto no escuro, um mergulho num mar onde só se atreve a entrar quem é atraído por um apelo do sangue.
Para os
Grimm era a descoberta de uma antiga religião da raça; para os “indianistas”, as alegorias dos primeiros arianos; para os “antropólogos”, os ritos de iniciação; para a “escola fínica”, a classificação em catálogos como o “Type-Index” e o “Motif-Index”; para os freudianos, um repertório de sonhos comuns.
A imersão pessoal no mundo das fábulas
O autor mergulhava nesse mundo submarino desprovido de arpão especializado, sem óculos doutrinários, sem entusiasmo por tudo o que é primitivo, exposto aos desconfortos de um elemento quase informe.
Começando a trabalhar, era paulatinamente atacado por uma espécie de frenesi, uma fome insaciável de versões e variantes, uma febre comparatista e classificatória.
Sentia-se ganhar forma aquela paixão do entomólogo, que o levava a trocar todo Proust por uma nova variante do “Ciuchino caca-zecchini” [burrinho caga-moedas de ouro].
Foi capturado pela natureza tentacular do objeto de estudo, descobrindo que o fundo fabular popular italiano é de uma riqueza que não fica a dever nada aos fabulários mais celebrados.
Quanto mais afundava na imersão, mais diminuía o distanciamento controlado e sentia-se admirado e feliz com a viagem, trocando o frenesi catalogatório pelo desejo de comunicar as visões aos outros.
A conclusão da viagem e a verdade das fábulas
A viagem entre as fábulas terminou e o livro está pronto; durante dois anos viveu-se entre bosques e palácios encantados, e o mundo ao redor foi se adaptando àquela lógica de metamorfoses e encantamentos.
Agora que o livro terminou, pode-se dizer que não foi uma alucinação, mas sim a confirmação de algo já sabido: as fábulas são verdadeiras.
As fábulas são, tomadas em conjunto, uma explicação geral da vida, o catálogo do destino que pode caber a um homem e a uma mulher, abrangendo a juventude, as provas para tornar-se adulto e a confirmação como ser humano.
Nesse sumário desenho estão presentes a drástica divisão dos vivos em reis e pobres com sua paridade substancial, a perseguição do inocente, o amor encontrado antes de ser conhecido, o esforço para libertar-se e autodeterminar-se, a fidelidade a uma promessa, a pureza de coração, a beleza como sinal de graça e sobretudo a infinita possibilidade de metamorfose do que existe.
O método de transcrição dos contos populares foi influenciado pela obra dos Irmãos Grimm e codificado em cânones científicos na segunda metade do século.
Os
Grimm não foram propriamente “científicos” como se entende hoje, pois contribuíram com lavra própria, juntando variantes e retocando expressões, como confirmam os estudos de seus manuscritos.
A advertência sobre o método dos
Grimm serve para introduzir e justificar a natureza híbrida do trabalho apresentado, que é “científico” pela metade ou em três quartos.
O programa de trabalho híbrido
A parte científica do trabalho é aquela que fizeram os folcloristas ao longo de um século, pondo no papel os textos que serviram de matéria-prima.
A lavra pessoal insere-se no trabalho alheio e consiste em escolher as versões mais bonitas, traduzi-las dos dialetos, enriquecê-las com variantes, integrar com mão leve pontos elididos e manter tudo num registro de italiano que afunde suas raízes no dialeto.
Trabalhou-se em material já reunido e publicado, não se tendo ido recolher pessoalmente as histórias no regaço das velhotas, pois já se dispunha de uma grande massa de material.
Deseja-se que o livro sirva para reanimar o interesse por pesquisas de coleta na Itália, preenchendo as lacunas existentes para muitas regiões com pesquisas inteligentes e atualizadas.
Os dois objetivos da orientação do trabalho
O trabalho orientou-se em direção a dois objetivos: representar todos os tipos de fábula documentados nos dialetos italianos e representar todas as regiões da Itália.
Todos os tipos importantes da fábula propriamente dita estão representados por versões significativas, incluindo também lendas religiosas, novelas, fábulas de animais, historietas e anedotas.
Utilizou-se muito pouco das lendas locais sobre origens de lugares, pois as narrativas são breves e os volumes dos coletores não apresentam as histórias com as palavras do povo.
Consideraram-se como dialetos italianos os da área linguística italiana, não os da Itália política, incluindo fábulas da região de Nice e de Zara.
O critério de escolha das versões regionais
Preferir uma versão de determinada localidade não significa que aquela fábula é daquela região, uma vez que as fábulas são iguais em todos os lugares.
A circulação internacional “na comunhão não exclui a diversidade”, usando as palavras de Vittorio Santoli, que se exprime mediante a adoção ou recusa de certos motivos e a atmosfera que envolve a narrativa.
Chamam-se italianos estes contos populares uma vez que relatados pelo povo na Itália, e o grau em que se deixaram embeber do quê veneziano, toscano ou siciliano é o critério diferencial da escolha.
A designação Monferrato ou Marcas ou Terra d’Otranto significa apenas que para aquela fábula se tomou em consideração uma versão que pareceu a mais bela e a mais impregnada pelo espírito daquele lugar.
Versões dotadas desses requisitos não se encontram em igual medida no material de todas as regiões, pois muitos primeiros folcloristas tinham uma paixão “comparatista” que recaía sobre o igual em vez de sobre o diferente.
As críticas esperadas e a resposta sobre a legitimidade da intervenção
Prevêem-se críticas de quem privilegia o texto popular genuíno por ter “metido as mãos” nos textos, e de quem recusa o conceito de “poesia popular” por timidez e falta de liberdade.
Não se poderia impor ao trabalho um método diferente, e discute-se a objeção fundamental sobre a legitimidade da intervenção nos textos.
Tentar traduzir cantos populares dialetais seria tarefa absurda, mas a fábula goza da maior traduzibilidade que é privilégio da narrativa, e o livro nasceu para tornar acessível a todos o mundo fantástico contido em textos dialetais.
Uma tradução pura e simples não teria bastado, pois as coletâneas das várias regiões foram elaboradas com critérios diversos, e o trabalho consistiu em tentar fazer desse material heterogêneo um livro.
A explicação específica sobre as fábulas toscanas
A mesma operação de traduzir as fábulas dos dialetos de toda a Itália teve de ser realizada com as fábulas da Toscana, pois os dialetos toscanos são tão diferentes do italiano quanto os outros.
O trabalho com os textos toscanos foi mais difícil e os resultados são mais discutíveis, sendo obrigado a diminuir um grau no tom da linguagem e a descolorir o vocabulário.
A tarefa de diminuir o tom da linguagem foi executada com tristeza, pensando na eficácia daquelas páginas, mas também com a implacável segurança de que a redução ao essencial é um ato de moralidade literária.
A variação da intervenção conforme o texto
A medida e a qualidade da intervenção variam de uma fábula para outra segundo o que o texto sugeria, havendo vezes em que se impunha tamanho respeito que era obrigado a traduzir tal e qual, como em “Os cinco desembestados”, “Pelo mundo afora”, “Desventura” e “O relógio do barbeiro”.
Outras fábulas constituíam mero ponto de partida para um exercício de estilo, como em “O menino no saco”, onde se inventaram nomes e lenga-lengas, e em “Diabocoxo”, onde se jogou com sugestões do texto.
Na lenda sarda de santo Antônio, montou-se a narração conforme se quis, partindo de pistas da tradição, e nas fábulas lígures trabalhou-se por inventiva própria sobre frágil vestígio.
Apoiava-se no provérbio toscano caro a Nerucci: “La novella nun è bella, se sopra nun ci si rapella”, segundo o qual a novela vale por aquilo que nela tece e volta a tecer quem a reproduz.
Decidiu-se tornar-se também um elo da anônima cadeia sem fim pela qual as fábulas se perpetuam, elos que não são jamais puros instrumentos, mas seus verdadeiros “autores”.