2 Centro

COOPER, J. C. Symbolism: The Universal Language. Wellingborough: Aquarian Press, 1982.

1. A perspectiva racionalista tende à acumulação fragmentária dos fatos, enquanto a perspectiva central procura o núcleo espiritual comum ao indivíduo, ao mundo e a todas as coisas, compreendendo o centro como experiência sagrada de renovação e imortalidade, cuja natureza não geométrica permite sua presença em inúmeros lugares.

2. A busca espiritual começa frequentemente por uma viagem exterior ao domínio da multiplicidade, cujas perspectivas parciais se revelam insuficientes, até que as provações conduzem à descoberta da verdade interior e ao retorno ao centro, ponto de compreensão da totalidade, de harmonia e de transformação dos estados de existência.

3. O labirinto representa o percurso da circunferência ao centro, exemplificado pela jornada de Teseu, cuja vitória sobre o Minotauro depende do fio de Ariadne, símbolo da sabedoria intuitiva e da alma que orientam o enfrentamento das forças obscuras e asseguram o retorno.

4. O regresso ao centro exprime a reconquista do Paraíso e da harmonia primordial, enquanto os labirintos rituais e religiosos representam as dificuldades da peregrinação humana, superadas pelo esforço individual e pela orientação do fio divino da sabedoria.

O fio da vida

1. O fio simboliza simultaneamente o destino que prende o indivíduo e o vínculo que o comunica com a divindade, integrando a trama cósmica tecida pela Grande Mãe e a continuidade das existências sob a lei do carma, numa relação paradoxal em que os mesmos poderes que vinculam também permitem a libertação pela realização do centro.

2. O altar constitui o centro sagrado dos templos e das igrejas e o ponto de união entre céu, terra e mundo subterrâneo, enquanto cúpulas e pináculos exprimem a ascensão espiritual, a nave corresponde à experiência humana e a cripta representa a matriz obscura da morte e da ressurreição.

A lareira

1. A lareira representa o centro espiritual da casa e o destino simbólico do retorno do viajante, reunindo a terra habitada e o fogo divino num ponto focal de ritos familiares, alimentação, calor, convivência e acolhimento dos visitantes.

2. A perda da centralidade espiritual da lareira na arquitetura moderna, o deslocamento da atenção familiar para a televisão e a organização de grandes blocos residenciais exprimem a ruptura da unidade doméstica e o afastamento dos vínculos com a terra, o céu e o ambiente natural.

3. A chaminé e a abertura superior da tenda estabelecem uma comunicação vertical com o céu, enquanto a fumaça simboliza a oração e a presença divina, e a união entre a base terrestre feminina e o fogo masculino forma o centro vivo da casa, cuja pedra também pode abrir simbolicamente o contato com o mundo subterrâneo e os mortos.

O limiar

1. A travessia do limiar marca a passagem do mundo profano exterior ao espaço sagrado doméstico e, quando ocorre numa casa alheia ou em imagens como a floresta, as águas e o espelho, simboliza a entrada num domínio desconhecido, potencialmente perigoso e aberto a acontecimentos extraordinários.

2. O encontro entre forças naturais e sobrenaturais torna o limiar uma zona perigosa que deve ser transposta sem contato, fundamentando tanto o costume de carregar a noiva para dentro da nova casa quanto o emprego de ferro e ferraduras para impedir a entrada de influências maléficas.

3. A ferradura constitui um símbolo protetor associado aos cornos da lua crescente da Grande Deusa Mãe, reunindo o poder dos chifres ao significado simbólico do cavalo.

4. Os monstros e animais que guardam entradas sagradas e tesouros afastam influências adversas e representam as dificuldades que precisam ser vencidas para alcançar o centro espiritual, excluindo aqueles que não possuem coragem, disposição ou dignidade para empreender a busca.

5. A porta simboliza a passagem entre estados, o ingresso numa nova vida e o acolhimento sob a proteção feminina, acrescentando sentidos de esperança, abertura e oportunidade que compartilha com a janela, também associada à ampliação da perspectiva e da consciência.

6. A escada representa a ascensão a estados superiores de consciência e aos céus, enquanto sua forma espiral reúne o movimento solar, o mistério e o futuro, e seus degraus correspondem às etapas progressivas da iniciação.

7. A subida e a descida pela escada exprimem a comunicação entre poderes terrestres e celestes, cuja continuidade primordial foi interrompida pela perda do Paraíso e somente pode ser recuperada mediante a iniciação e o retorno ao centro.

8. A entrada na casa corresponde ao ingresso numa esfera feminina de proteção, alimentação e abrigo, personificada pela mãe e pela Grande Mãe nutridora, a Terra.

O pão e o sal

1. O pão e o sal simbolizam acolhimento, hospitalidade e boa-fé, estabelecendo entre anfitrião e hóspede obrigações recíprocas de amizade e proteção que excluem a agressão e reforçam a segurança oferecida pela casa diante das ameaças exteriores.

2. A incorruptibilidade do sal fundamenta sua associação à permanência, à imortalidade, à sabedoria e ao valor moral, enquanto sua capacidade de conferir sabor também o aproxima da vivacidade e da agudeza de espírito.

3. O sal simboliza a verdade e participa de ritos de nascimento, batismo, consagração e sepultamento, protegendo os indivíduos e afastando os espíritos malignos.

4. O pão representa a vida corporal e, quando consagrado, o alimento da alma, segundo a concepção de que a ingestão transmite as qualidades do alimento, princípio também presente na absorção ritual dos poderes do inimigo e no consumo de peixes associados à fecundidade, às águas e às divindades maternas e lunares.

O ovo

1. O ovo constitui um símbolo universal da criação, da vida e da ressurreição, exprimindo na iniciação o duplo nascimento e, como Ovo Cósmico, a totalidade primordial que contém o universo e suas possibilidades, mantendo unidos os opostos antes de sua diferenciação.

2. As tradições hindu e egípcia apresentam o ovo como origem da criação e de divindades como Brahma e Rá, enquanto suas partes podem representar céu e terra, motivo também relacionado à árvore cósmica, ao nascimento dos Dióscuros e às correspondências chinesas entre gema, clara e estrutura do mundo.

3. A associação entre ovo e serpente reúne a criação pelo Verbo, os mistérios órficos da vida e da ressurreição e a totalidade primordial simbolizada pelo Uroboros, enquanto a alquimia encerra no ovo os princípios feminino e masculino e a celebração pascal o vincula à renovação primaveril da existência.