Constatações indicam que a cultura ocidental contemporânea experimenta um retorno expressivo ao tema do mito e das visões de mundo centradas no símbolo.
O clima de saturação do imaginário teve início no século XIX como reação à revolução industrial e expandiu-se com o avanço dos meios audiovisuais no século XX.
Dom Basile é citado para ilustrar o crescimento desse movimento desde o início do século.
O racionalismo matemático, antes excomungador de imagens, acabou produzindo tecnicamente o advento da rainha das faculdades.
A invenção da fotografia e as técnicas de reprodução infinita permitiram uma democratização e ampliação do conhecimento artístico sem precedentes.
André Malraux observa em seu Museu Imaginário que os meios de compreender uma obra centuplicaram-se com o clichê e o tiragem ilimitada.
Van Gogh e Cézanne dispunham apenas de raras gravuras, enquanto a geração atual convive com uma invasão geométrica de imagens via satélite e radiografia.
Os manuais escolares de Malet e Isaac ou o de História de Uby, antes despojados, deram lugar a obras como as de Lagarde e Michard, ricas em fotografias que orientam a leitura.
A vulgarização da psicanálise contribuiu para a revalorização do símbolo e da imagem nos níveis médico e cotidiano.
Freud é apontado como contemporâneo dos irmãos Lumière, de Cartier—Bresson e de Malraux.
Termos como o mito de Édipo e de Jocasta penetraram o horizonte de comportamento comum através da televisão e de publicações ilustradas.
A crítica literária e artística migrou de uma explicação histórica extrínseca para uma abordagem intrínseca focada na temática das obras.
Hippolyte Taine e Gustave Lanson representam a crítica preocupada com explicações históricas que foi superada pela Nova Crítica dos anos 50.
Herbert Marcuse critica a unidimensionalidade da explicação histórica pura.
O interesse pelo exotismo manifesta-se em seitas budistas em Montparnasse, sufis em Ménilmontant ou seguidores de Krishna em Alfama.
Marilyn Ferguson é identificada como a grande sacerdotisa do New Age, descrito como um patchwork que tenta transcender a angústia do nada.
Joachim de Fiore é mencionado como o precursor de visões que projetam um futuro espiritualizado, influenciando o New Age.
A vida política e cívica do século XX não permaneceu imune ao maremoto mitológico reforçado pelo poder mediático.
Georges Sorel e Alfred Rosenberg são citados como figuras ligadas às pressões do imaginário político e à nova teogonia do culto à personalidade.
J.—P. Sironneau analisa em sua tese as religiões seculares que se cristalizam em torno de ideologias com eficácia terrível.
A atual ressurgência do imaginário representa uma revolução contra séculos de repressão pedagógica e epistemológica.
A tradição pedagógica ocidental manteve uma postura iconoclasta, autorizando imagens apenas em esferas marginais da sociedade.
Henry
Corbin demonstra que, diferentemente do Islã que proíbe a figuração de Allah mas interioriza o imaginário, o Ocidente permite a imagem visual mas a desvaloriza intelectualmente.
Corbin assinala essa diferença em sua obra sobre a imaginação criadora no sufismo de
Ibn Arabi.
A lei francesa que reserva apenas um por cento do orçamento de monumentos para ornamentação exemplifica essa marginalização.
A Denkpsychologie é citada como exemplo do ideal de um pensamento sem imagens.
A desvalorização da imagem remonta à Antiguidade e consolidou-se com o domínio da lógica aristotélica e do racionalismo cartesiano.
Aristóteles, Platão e Sócrates parquearam a imagem no domínio inferior da fantasia.
Malebranche nomeou a imaginação como a louca da casa, termo repetido por Voltaire em seu Dicionário Filosófico.
O divórcio entre o pensamento visionário e o racional acentuou-se com a tradução de Aristóteles para a Europa.
No encontro de Córdoba em 1979, relembrou-se que Henry
Corbin situava esse divórcio na partida de
Ibn Arabi após o funeral de Averróis.
Pensadores como Guilherme de Auvergne, Santo Tomás de Aquino e Descartes consolidaram a via da percepção e do conceito em detrimento da imaginação criadora.
A figura do filisteu ou do burguês de Daumier opõe-se à do poeta sonhador, o Pierrot lunar, profeta incompreendido.
O positivismo do século XIX, embora pretendesse destruir o obscurantismo, instaurou-se como um novo mito progressista.
Saint—Simon, Fourier e Auguste Comte transformaram o social em refúgio para o sonho utópico sob a máscara da física social.
Henri de Lubac estuda a posteridade de Joachim de Flore em figuras como Bossuet, Vico, Condorcet, Hegel e Marx.
O mito de Prometeu triunfa na ideologia do progresso, como se vê no projeto de lei de Pierre Leroux em 1848, que via na Santíssima Trindade a figura do progresso natural.
A laicização do teológico reforçou o mito em vez de enfraquecê-lo, dotando o modernismo de uma estrutura religiosa.
Auguste Comte fundou uma religião da humanidade com liturgia própria, presente até hoje no Rio de Janeiro.
Karl Marx cultivou sua barba à semelhança de um busto de Júpiter, sonhando-se como o Olimpiano de uma nova era de ordem.
A Fenomenologia do Espírito de Hegel e o materialismo de Marx são descritos como epopeias onde a história termina no Estado prussiano ou na sociedade sem classes.
A saturação das visões de mundo é uma motivação fundamental para a transição entre etapas civilizatórias.
Alain afirmava que o cansaço de ser platônico explica Aristóteles.
Pitirim Sorokin destaca o balanço entre estados imaginários quando temas inspiradores sofrem anemia.
R. Trousson e Jean Tulard analisaram como o mito de Prometeu e a biografia de Napoleão dominaram o imaginário do século XIX.
O surgimento dos decantes no final do século XIX marcou a desilusão com o triunfismo industrial e o progresso insolente.
Thomas Mann utilizou o mito de José em sua tetralogia para combater o mito nazista de Rosenberg.
Mann observou que Richard Wagner e Émile Zola, apesar de parecerem opostos, restauraram conscientemente o mito como estrutura narrativa.
Nietzsche, o pai de Zaratustra, anunciou a morte de um Deus antigo e a ressurreição de Dioniso ou Hermes.
Michel Foucault sugeriu que os novos mitos são, no fundo, sempre os mesmos.
A pintura simbolista de Gustave Moreau, Redon, Arnold Böcklin e outros reagiu contra o progressismo científico do neo—impressionismo.
A teoria das gerações literárias e a revolta dos filhos contra os pères são insuficientes para explicar mudanças culturais profundas.
A subversão da razão clássica e da epistemologia tradicional abriu espaço para o retorno do imaginário.
Gaston Bachelard refere-se a uma filosofia do não que questiona as bases da física e da geometria clássicas.
Max Planck, Einstein, Niels Bohr, Werner Heisenberg e Wolfgang Pauli alteraram as categorias de Kant e Aristóteles.
Edgar Morin, Stéphane Lupasco e Hannah Arendt refletiram sobre essa subversão lógica.
Riemann e Lobatchevski são citados como precursores dessa mudança através de geometrias não euclidianas.
O enfraquecimento do racionalismo permite que o imaginário ocupe o espaço vacante por um efeito de vasos comunicantes.
O desenvolvimento da antropologia e o contato com a alteridade revelaram a permanência do pensamento simbólico em todas as culturas.
Claude Lévi—Strauss afirma em O Pensamento Selvagem que o homem sempre pensou igualmente bem.
A escola africanista de Marcel Griaule, Germaine Diéterlen e Jean
Servier — autor de L Homem e o Invisível — explorou dimensões além do racional.
Frobenius, Frazer, Mircea
Eliade e Roger Bastide abriram o olhar ocidental para sonhos e transes antes desprezados.
As Reuniões de Eranos em Ascona tornaram-se o centro de uma nova ciência antropológica unificada.
George Steiner discute a real presença dos símbolos no contexto contemporâneo.
O próprio marxismo sofreu subversões internas que reabilitaram o poder das superestruturas e do mito sobre a base tecnológica.
Gramsci, Walter Benjamin, Ernst Bloch, Karl Mannheim e Herbert Marcuse reconheceram o impacto de estruturas míticas nos comportamentos sociais.
A descoberta de dissimultaneidades no progresso histórico abalou o materialismo dogmático.
A história linear e progressista é colocada em dúvida em favor de uma visão que admite retornos e declínios.
Giambattista Vico antecipou a noção de ricorso ou retorno histórico.
Oswald Spengler e Georges Sorel perceberam que as civilizações são mortais e o relato histórico é subjetivo.
Guy Bourdé, Hervé Martin, Paul Veyne e Raymond Aron questionam a objetividade da narrativa histórica em relação ao romance.
Georges
Dumézil demonstrou que relatos considerados históricos eram, na verdade, modelos míticos indo—europeus.
O sucesso de regimes totalitários como o nazismo deveu-se à oferta de ritos e mitos que as instituições modernas haviam suprimido.
Joseph de Maistre meditou sobre a facilidade da Revolução Francesa, assim como C. G. Jung alertou em 1936 que o deus Wotan estava reprimido no inconsciente germânico.
Jean Tulard demonstrou como o mito de Napoleão absorveu a personalidade histórica em um arquétipo solar.
Joël Thomas analisa a persistência do mito sebastianista e do imperador escondido na história de Portugal.
O descompasso entre o avanço das visões de mundo e o conservadorismo das instituições gera acelerações e bifurcações históricas.
As igrejas e o Estado ocidental perderam seu carisma mitológico ao buscarem a secularização e o conformismo com a ciência histórica.
Teólogos como Teilhard de Chardin, Loisy e Bultmann tentaram adaptar a fé a verdades científicas flutuantes.
Georges Gusdorf ironiza a desventura das igrejas e estados que laicizaram os saberes.
A necessidade vital de sonhar e simbolizar é comprovada por experimentos clínicos e biológicos.
O professor Jouvet demonstrou que a privação do sonho em gatos e humanos leva a alucinações e distúrbios neuróticos.
Gaston Bachelard defendeu o direito de sonhar como constitutivo da vitalidade humana.
A tentativa de reduzir a educação a um treinamento tecnocrático provoca um transferência do poder imaginário para seitas e misticismos selvagens.
A proteção contra mitos totalitários reside no ensino de uma ciência do mito ou mitodologia.
A sociedade ocidental atual é composta por três estratificações ideológicas que coabitam com mitos fundadores distintos.
A escola mantém a pedagogia positivista e a ideologia prometeica do século XIX focada no crescimento tecnológico.
Os meios de comunicação de massa, guiados pelo audimat, promovem mitos órficos ou dionísicos de forma anárquica.
A elite dos cientistas, como Niels Bohr e Schrödinger, redescobre modelos milenares como o Taoísmo e o Vedantismo.
Olivier Costa de Beauregard e Françoise
Bonardel apontam que a física quântica e o hermetismo compartilham estruturas de pensamento não aristotélicas.
Ferdinand Alquié escreveu sobre a solidão da razão, que no caso dos cientistas modernos, encontra eco em gnoses contemporâneas.
O potencial psíquico humano permanece constante, fazendo com que o homem reencontre mitos antigos em vez de criar novos.
Homo sapiens sapiens mantém as mesmas funções cerebrais há milênios, garantindo a perenidade do jogo mitológico.
O mito deixa de ser um fantasma gratuito para ser reconhecido como uma realidade fundamental da existência.