As fábulas distribuídas ao longo da narração — quinze ao total, segundo uma repartição muito desigual — constituem outro elemento que estrutura de maneira importante a Vida de Esopo.
Não há nenhuma fábula na primeira parte; cinco na segunda seção (de sessenta e quatro capítulos); três na terceira seção (de apenas nove capítulos); nenhuma na quarta seção — provavelmente porque a história de Aquicar, fonte desta parte, também não continha fábulas; e sete na quinta seção, número elevado para um desenvolvimento de apenas dezenove capítulos.
Essa progressão — de cerca de 8% de fábulas na segunda seção para 33% na terceira e 37% na quinta — mostra como a identidade de Esopo como fabulista (logopoios) se afirma progressivamente ao longo do relato.
No capítulo 7, Esopo recebe das Musas “a faculdade de inventar histórias, de imaginar e de compor fábulas gregas”, mas só utiliza esse talento pela primeira vez no início da seção samiana, quando explica à esposa de Xanto a origem dos sonhos mentirosos (capítulo 33).
Das quinze fábulas inseridas no texto, cinco figuram na Collectio Augustana e cinco outras se reencontram, sob forma mais ou menos aproximada, em diversos autores antigos — Fedro, Babrio, Hesíodo, Eurípides, Diógenes Laércio, Ateneu, Estobeu —, o que prova que o autor da Vida de Esopo utilizou essencialmente material preexistente.
O autor precisa, ao final da seção samiana, que Esopo redigiu para Creso “as histórias e as fábulas que ainda hoje se leem” e as deixou na biblioteca do rei lídio (capítulo 100).
As fábulas inseridas na Vida de Esopo não devem ser consideradas apenas por si mesmas, mas lidas numa perspectiva biográfica: foram escolhidas de modo a contribuir para a construção do sentido geral da obra — como o demonstra o logos dos dois caminhos (capítulo 93), pelo qual Esopo convida os samianos a resistir a Creso sem se deixar tentar pela solução mais fácil, desenvolvendo assim um dos temas-chave do texto: a oposição entre aparência e realidade, tema central na biografia de um personagem cuja aparência repulsiva dissimula talentos excepcionais.