Adaptando o modelo do antropólogo Robert Redfield sobre “grandes e pequenas tradições”, Burke sugere que na Europa pré-moderna a “pequena tradição” era simplesmente a cultura comum em que todos — elite e não elite — participavam, enquanto a “grande tradição” era uma cultura minoritária exclusiva dos privilegiados, letrados e instruídos: “Havia duas tradições culturais na Europa pré-moderna, mas não correspondiam simetricamente aos dois principais grupos sociais, a elite e o povo comum. A elite participava da pequena tradição, mas o povo comum não participava da grande tradição. Essa assimetria ocorreu porque as duas tradições eram transmitidas de maneiras diferentes. A grande tradição era transmitida formalmente em escolas de gramática e universidades. Era uma tradição fechada no sentido de que pessoas que não haviam frequentado essas instituições, que não eram abertas a todos, ficavam excluídas. Num sentido bastante literal, não falavam a língua. A pequena tradição, por outro lado, era transmitida informalmente. Era aberta a todos, como a igreja, a taverna e o mercado, onde tantas performances ocorriam. Assim, a diferença cultural crucial na Europa pré-moderna… era entre a maioria, para quem a cultura popular era a única cultura, e a minoria, que tinha acesso à grande tradição mas participava da pequena tradição como segunda cultura.”