1.2 Origens e desenvolvimento

Maria Gabriela Carvalhão Buescu. Perceval e Galaaz, Cavaleiros do Graal. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1991

1. A determinação das origens da Matéria da Bretanha divide os arturianistas, e Rodrigues Lapa apresenta a Tese Insular de Gaston Paris, que atribui ao folclore celta galês o papel fundamental na gênese dessa literatura, expressa por bardos e jograis sob a forma de lais bretões, poemas narrativos de dísticos octossilábicos inspirados em episódios arturianos, sobre cujo gênero Ernest Hoepffner observa que ainda não há solução definitiva, embora a palavra lai se relacione com o irlandês laid, canção.

2. Rodrigues Lapa critica a Tese Insular por excesso de romantismo e falta de cientificidade, pois se funda apenas na ideia de povo criador, e contrapõe a tese de Foerster, que reabilita o gênio francês atribuindo a Chrétien de Troyes a criação e o desenvolvimento da lenda, enquanto Ferdinand Lot concilia as duas posições radicais ao sustentar que as lendas celtas e galesas foram reelaboradas na Armórica francesa, de onde se difundiram pela Europa.

3. Francisco Adolfo de Varnhagen, Visconde de Porto Seguro, é referenciado como precursor dos estudos arturianos na Península Ibérica e em Portugal, tendo publicado em Viena, em 1872, a obra Da litteratura dos livros de Cavalaria.

4. Varnhagen, amigo de Almeida Garrett e erudito brasileiro de grande importância para a literatura portuguesa do primeiro Romantismo, desempenhou papel paralelo e simétrico ao de Garrett nos estudos romancísticos e arturianistas, referindo-se à antiguidade dos ciclos cavaleirescos, ao livro de Monmouth e às lendas de Artur, Merlim e do Santo Graal, e estabelecendo relações de descendência entre os textos medievais e os temas recuperados pela literatura de cavalaria.

5. Segundo Ivo de Castro, Varnhagen terá sido o primeiro a ver o manuscrito do Livro de José de Arimateia, dando conta dele na obra Cancioneirinho, publicada em 1870, e é na segunda metade do século que o arturianismo envereda por um caminho determinadamente científico e explicita a trajetória da Matéria da Bretanha.

6. Loomis, arturianista americano de grande notoriedade, defende rigorosamente a origem celta dessa literatura, aceitando como hipótese de trabalho que se trata de uma mistura de antigos temas celtas adaptados às ideias e maneiras da França medieval, e sustenta que, sendo as histórias do Graal parte integrante da lenda arturiana, e tendo esta surgido primeiro no País de Gales, não é preciso ir longe para corroboração.

7. A evolução da controvérsia sobre a origem dessa literatura assume importância decisiva, e Loomis entende que Chrétien de Troyes se baseou em contistas bretões da Armórica, os quais se inspiraram em jograis galeses, havendo pois um intermediário, ponto de vista verosímil que, embora corrobore em parte a tese romântica de Gaston Paris, exclui o romantismo folclórico e a ideia de povo criador, assentando em estudos científicos e filológicos, e, ao estabelecer estreita relação entre a tradição graálica e a literatura galesa, defende que esta encerra muito da tradição irlandesa.

8. Loomis afirma que a literatura galesa absorveu grande quantidade de saber mítico e heroico da Irlanda durante a Idade das Trevas, não devendo surpreender que se descubram nas sagas irlandesas muitos motivos e padrões que passaram através do País de Gales para a Matéria da Bretanha, o que é particularmente verdadeiro nos romances do Graal, e adianta que a saga The Prophetic Ecstasy of the Phantom teria muitas afinidades com a história de Perceval de Chrétien, sugerindo que essa saga, embora modificada para incorporar as tradições galesas de Brân e da ferida fatal, forneceu o esboço básico para a história de Perceval no castelo do Graal.

9. Jean Marx atesta a insignificância da cultura da Bretanha francesa nesse campo e defende que teria sido através dos recitadores profissionais e contadores galeses, os cyvarwiddon, que as tradições lendárias chegaram às cortes francesas e franco-normandas, sublinhando a importância da transmissão oral e rejeitando em parte as conjecturas de Foerster e Loomis sobre intermediários bretões.

10. Jean Marx sustenta claramente que foi no País de Gales e na Cornualha que se fixou o esquema das aventuras da Távola Redonda e do Graal, e, aproximando-se de Loomis e de D. D. R. Owen, adianta que a vizinhança da Irlanda, reservatório perpétuo de modelos, lendas, contos e maravilhoso, era necessária à constituição dessa saga, pois tudo demonstra que a Irlanda veio revivificar, animar e enriquecer a literatura galesa, como atestam os próprios Mabinogion.

11. Toda essa problemática tem gerado grandes controvérsias em torno das origens da lenda arturiana que, para além do problema propriamente da sua gênese, coloca, sem dúvida, a questão da sua difusão, ou, para utilizar uma terminologia talvez mais adequada, da sua fortuna.