Maria Gabriela Carvalhão Buescu. Perceval e Galaaz, Cavaleiros do Graal. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1991
A investidura de Galaaz
1. Na véspera de Pentecostes, Lançalot do Lago é chamado de Camaalot por uma donzela que o conduz à abadia onde seu filho Galaaz fora educado, chegando o momento de armá-lo cavaleiro segundo a regra da Cavalaria, passando o jovem a noite vigiando e orando acompanhado do ermitão, seu aio, e, de manhã, Lançalot fez cavaleiro seu filho Galaaz, como era costume, partindo depois para Camaalot separadamente, com Galaaz acompanhado pelo ermitão que lhe pediu que o deixasse acompanhá-lo em todas as suas aventuras para meter em escrito todas as maravilhas que Deus mostraria por seu nome.
2. O ermitão dirige a Galaaz um longo pedido de companhia, afirmando que bem sabe que ele não morará na corte do rei Artur mais de um dia, pois a demanda do Santo Graal se começará tão logo ele chegue, e que deseja acompanhá-lo porque conhece sua santa vida e bondade, não havendo no mundo coisa que tanto o pudesse confortar como ver um cavaleiro tão santo e as maravilhas que ele verá e a que dará cima, pois Deus, que o fez nascer em tal pecado para mostrar seu grande poder e virtude, lhe outorgou, por sua piedade e pela boa vida que começou desde a meninice, poder, força, bondade de armas e ardimento sobre todos os cavaleiros que nunca trouxeram armas no reino de Logres, de modo que dará cima a todas as outras maravilhas e aventuras em que todos os outros faleceram.
3. Leonel e Boorz vêm ao encontro de Lançalot e os três se dirigem para a corte do rei Artur, que muito se alegra com a chegada dos três primeiros cavaleiros, com quem vai celebrar a ceia de Pentecostes.
4. O Rei Artur é então chamado a uma ribeira onde lhe foi mostrada uma espada cravada no padrom flutuando sobre as águas, por encantamento do mago Merlim, dizendo o Rei aos cavaleiros que só o melhor cavaleiro do mundo conseguiria retirar a espada da pedra, e Galvão, o mau cavaleiro, tenta retirá-la mas não consegue.
Chegada de Galaaz à corte, aventura da SEEDA PERIGOSA, e aventura da espada no padrom
1. Entretanto, Galaaz, acompanhado do ermitão, chega à corte do rei Artur, sendo a entrada na sala da Távola Redonda precedida por uma luz, e Galaaz é recebido com todas as honras, apresentando o ermitão Galaaz ao rei.
2. O ermitão apresenta Galaaz ao rei Artur como o cavaleiro desejado, aquele que vem da alta linhagem do rei David e de Joseph Darimatia, por quem as maravilhas desta terra e das outras haverão cima.
3. Com o advento de Galaaz, o cavaleiro desejado, vai dar-se o início à demanda do Santo Graal, mas antes Galaaz realizará a aventura da seeda perigosa, sentando-se na cadeira destinada ao cavaleiro perfeito.
4. Todos os cavaleiros o saúdam e lhe dão as boas-vindas, e o rei, ao vê-lo na sceda perigosa, entende que aquele é realmente o cavaleiro que Merlim havia profetizado, conduzindo então Galaaz ao ribeiro e convidando-o a retirar a espada cravada na pedra, o que Galaaz faz com toda a facilidade, metendo-a depois à cinta, e, obtida a espada por aventura, pode então dar-se o início à demanda.
A primeira aparição do Graal
1. Chega então Tristam, sobrinho do Rei Mars da Cornualha, muito querido de Artur, e que se dirige a Lançalot perguntando se é verdade que veio Galaaz, o mui bom cavaleiro, à corte, aquele que há de acabar a seeda perigosa e há de dar fim às aventuras do reino de Logres.
2. Estando todos sentados à mesa, surge misteriosamente o Santo Graal coberto com um pano e, ao mesmo tempo, enche-se a sala de maravilhosos odores e ofuscante luz, ficando todos mais belos aos olhos uns dos outros e coberta a mesa dos mais maravilhosos manjares, e o Graal desaparece tão misteriosamente como surgira.
Partida dos cavaleiros para a demanda
1. Ainda antes de partir, Galvão é o único cavaleiro a tirar da bainha a espada que fará grande mortura, que fica toda coberta de sangue, sinal de que quem a empunhava era um homem pecador e mau, a cujas mãos muitos cavaleiros morreriam, e então Galvão, tanto a sacou da bainha, tornou-a toda coberta de sangue, toda de uma parte e da outra, tão quente e tão vermelho como se a sacassem do corpo de homem ou de chaga.
2. São, pois, profetizados os males que advirão com a participação de Galvão na Demanda, sendo, pelo contrário, exaltadas as virtudes do Cavaleiro Perfeito que seria Galaaz, e não seja tal que entre, se não for bem manifestado, pois em tão alto serviço de Deus como este não deve entrar se não for bem manifestado e bem comungado e limpo e purgado de todos os cajões e de pecado mortal, pois esta demanda não é de tais obras, antes é demanda das puridades e das coisas escondidas de Nosso Senhor, que fará ver convictamente ao bem-aventurado que ele escolheu.
3. Galaaz, por ordem do rei Artur, será mestre aos Cavaleiros da Mesa Redonda, e todos partem, embrenhando-se pela Floresta Gasta, perante os olhos lacrimosos do rei Artur que desejava também participar da demanda.
Aventuras de Galaaz
1. Galvão encarna a figura do cavaleiro violento e mau, acerca do qual a donzela laida profetiza males e crimes, dirigindo-lhe palavras em que o chama cavaleiro desleal e o adverte de que, embora queira ir a esta demanda como os outros, saiba que dom Galaaz, que ali está e é o melhor cavaleiro do mundo, não fará tanto bem a esta demanda como Galvão fará de mal, pois esta aventura advirá por ele, devendo todos maldizer sua vinda.
2. Entretanto Galaaz, que, armado de espada, não tinha ainda escudo, vai recebê-lo do rei Bandemaguz, sendo o ermitão que lhe revela as maravilhas e prodígios que acontecem àqueles que o usam e que só podem ser cavaleiros virtuosos e bons, e o escudo maravilhoso era branco e tinha impressa uma cruz vermelha, representando, segundo o que o cavaleiro branco contou a Galaaz, o próprio Cristo, e, depois de passar a aventura do Mosteiro, onde recebe o escudo, Galaaz vai saber a sinefiança desta aventura, que lhe será revelada pelo ermitão.
3. O ermitão revela a Galaaz a sinefiança da aventura, dizendo que nela havia três coisas muito duvidosas, sendo a primeira a campa do mimento, que não era muito ligeira de erguer, a outra o corpo do cavaleiro, e a terceira a voz tal que todo homem que ouvia perdia o sem e a força dos braços e de todos os membros.
4. O ermitão revelou-lhe as três sinefianças da aventura que Galaaz teve e que, na globalidade, representava a paixão de Jesus Cristo, podendo entender-se nessa aventura a sinefiança da paixão de Jesus Cristo e a lembrança de sua santa vida.
5. Galaaz prossegue as mais estranhas aventuras, e, depois de armar cavaleiro o escudeiro Meliante, separou-se deste e, encontrando Ivã, o Bastardo, chegaram juntos a um castelo onde foram recebidos, cujo dono tinha um filho de nome Dalides, e, mais tarde, Galaaz encontra Dondinax, o Selvagem, e liberta-o da prisão, enquanto Dalides quer bater-se com Galaaz, mas é derrubado e suicida-se com a própria espada.
6. Das profundezas da floresta surge a Besta Ladrador, animal monstruoso e híbrido, fruto dos amores demoníacos de uma princesa, ficando os cavaleiros maravilhados e aterrados com esta visão.
7. Entretanto Galvão persegue Galaaz para vingar a morte de Dalides e travam combate, e, tendo sido ferido por Galaaz, é encontrado por Boorz que, por sua vez, promete vingá-lo, desafiando Galaaz para um combate.
8. Galaaz fere também Boorz, que se rende e reconhece Galaaz como o melhor cavaleiro do mundo, sucedendo-se outros combates, e Ivã, o Bastardo, parte em perseguição da Besta Ladrador, mas é ferido pelo cavaleiro diabólico que saiu dela, e, com Girflet, também ferido, continua a demanda da Besta Ladrador.
Galaaz e Boorz no castelo do rei Brutus
1. Galaaz e Boorz caminham juntos e chegam a Castel Brub, onde o rei Brutus os recebe com grande alegria, e a princesa sua filha, seduzida pela formosura de Galaaz, deseja possuí-lo e entra na câmara onde o cavaleiro dormia, ficando este espantado ao vê-la e aconselhando-a a partir, mas a donzela, irada, ameaça matar-se e coloca Galaaz no dilema de, sendo responsável por sua morte, cometer um pecado maior, e a donzela, desesperada, crava a própria espada de Galaaz no coração.
2. Ao ver a filha morta com a espada de Galaaz, o rei fica convencido de que fora assassinada pelo cavaleiro e quer vingá-la, travando então um combate com Boorz, mas, por fim, reconhece que ela se matara por suas próprias mãos, e assim aconteceu à donzela, como contado, que se matou por amor de Galaaz, colocando esse episódio à prova a virgindade de Galaaz.
3. Os dois cavaleiros, Galaaz e Boorz, partem novamente, e é então que Galaaz avista a Besta Ladrador e, acompanhado de Boorz, parte em sua perseguição, contudo um cavaleiro empreendera já a demanda da Besta e jurara levá-la até ao fim, sendo o único que restava dos doze filhos de Esclabor, Palamades, um cavaleiro bom mas não batizado e não cristão, cujo pai, Esclabor, que fora já convertido, conta como se havia tornado cristão.
Outros cavaleiros
1. Entretanto outros cavaleiros entram em cena e são narradas as suas diversas e maravilhosas aventuras, incluindo Ivã de Cenel, Patrides, Estor de Mars, Elaim, o Branco, Garriet e Ivã, o Bastardo, mas o conto torna a Galaaz, Boorz e Lionel.
Boorz
1. Galaaz e Boorz partem deixando Esclabor e, pelo caminho, encontram o cavaleiro da Besta Ladrador que investe contra Boorz, sem, no entanto, o ferir mortalmente, e Galaaz persegue-o então para vingar o companheiro.
2. Encontrando o ermitão, Boorz, filho do rei Boorz de Gaunes, é instruído pelo santo homem acerca dos mistérios do Santo Graal, dizendo-lhe ele o que é a demanda do Santo Graal buscar, que tanto quer ser como buscar as maravilhas da Santa Igreja e as causas abscondidas e as maravilhas e as grandes puridades que Nosso Senhor não quis outorgar que homem as achasse que avejovasse em pecado mortal, sendo a demanda do Santo Graal que ele espartiu os bons cavaleiros dos maus, assim como grão da palha, e, quando ele partir os luxuriosos dos bons cavaleiros, então mostrará a estes homens bons e a estes bem-aventurados as maravilhas que andam buscando do Santo Graal.
3. Boorz foi abençoado pelo homem bom e parte, sendo a seguir confrontado com um dilema angustiante, devendo socorrer seu irmão Lionel preso por dois cavaleiros, ou, deixando-o, prestar auxílio a uma donzela nas mesmas condições, e Boorz decide salvar a donzela e encomenda a Deus a sorte de seu irmão Lionel, e, socorrida a donzela, acorre para salvar Lionel, mas ele, enfurecido, persegue Boorz com intenção de se vingar e obriga-o a trocar armas consigo.
4. Quando Lionel se prepara para desferir o golpe fatal sobre Boorz, intervém o ermitão que foi morto por Lionel, e Calogrenante, desejando evitar uma luta sacrílega e fratricida, bate-se em lugar de Boorz e acaba por ser morto pelo violento Lionel, e Boorz ouve então uma voz do céu que o manda prosseguir o seu caminho e reunir-se a Persival que o esperava.
Persival e Lançalot
1. Entretanto Persival encontra uma ermida, cujo ermitão lhe profetiza ser ele um dos três cavaleiros que terão a honra de encontrar o Graal, e Persival recebe uma carta divina de Jesus Cristo sobre o Santo Graal, que lhe profetiza também a sua morte e a de Galaaz em terras longínquas ao serviço de Nosso Senhor, e Persival despede-se do ermitão e, mais tarde, encontra Lançalot mas não o reconhece.
2. Lançalot dormia e em sonhos representavam-se-lhe os seus sete antepassados, desde o rei Mordraim, e também seu filho, Galaaz, nono em geração, que era o bom cavaleiro e desejado, e Lançalot vê-se a si próprio, que não encontra a graça, em virtude do seu pecado, os amores adúlteros com a rainha Ginevra, mulher do rei Artur.
3. Lançalot desperta e vê Persival, os dois partem e encontram Galaaz numa floresta, mas não o reconhecem, e Lançalot e Persival separam-se e o primeiro segue Galaaz, não sabendo que era seu filho, apesar de ele trazer o escudo branco com a cruz vermelha, e Lançalot, por fim, tem o pressentimento de que este cavaleiro é seu filho Galaaz e, perante a sua beleza e bondade, arrepende-se profundamente dos seus pecados.
4. Entretanto, Persival encontra sua tia que lhe confirma que Galaaz era o cavaleiro desejado, dizendo que este é Galaaz, o qual cavaleiro em dia de Pentecostes acabou a aventura da seda perigosa, este mesmo é o que verá em sua vida as maravilhas e as puridades do Santo Vaso, este é contra o que nenhuma proeza terreal poderá durar.
5. Persival separa-se então de sua tia e segue através da floresta onde lhe sucederam diversas aventuras com outros cavaleiros, entre os quais Galvão e Claudim, e, no seu caminho, encontra uma donzela muito formosa e bem vestida que se lamenta do seu desamparo, e Persival sente-se desde logo perdidamente enamorado, contudo uma voz do céu avisa-o e exorta-o a precaver-se de tal paixão, e subitamente, porém, a donzela começa a rir-se e, nesse riso diabólico, Persival reconhece o disfarce do demónio, e, fazendo o sinal da cruz, tenda e donzela foram arrastados por um turbilhão de vento.
6. Quando a viu rir, maravilhou-se, e logo entendeu que era demo que lhe aparecera em semelhança de donzela para o enganar e meter em pecado mortal, e vê chegar então uma galera, na qual uma voz o manda embarcar, para ir ao encontro de Boorz e Galaaz.
Boorz e Galaaz
1. Quando Boorz parte da abadia, ouve uma voz que lhe diz que vá na direção do mar, pois aí o esperava Persival, e, com efeito, encontra a nave, onde Persival embarcara, e, felizes, abraçam-se.
2. O conto torna agora a Galaaz que, depois de outras aventuras, se dirige igualmente para o mar, e, entretanto, encontra Tristão e ajuda-o, derrubando Girflet.
No reino de Logres: Estor, Sagramor, Lucão e Galvão
1. O conto torna agora a Galvão, a quem sucedem várias aventuras e que vai ao encontro de sua tia Morgaim, irmã do rei Artur, e de seu irmão Morderet, e encontra Erec que se vira obrigado a matar a sua própria irmã e que acaba por expiar com a morte o crime cometido, e o conto passa então a falar de Artur, o Pequeno, filho do rei Artur, e dos acontecimentos no reino de Logres.
Galaaz
1. O conto torna a Galaaz, que partira depois de ter ferido Galvão num torneio, e Tristão, que muito queria conhecê-lo, junta-se-lhe e partem juntos, e as lutas continuam a suceder-se no caminho de Galaaz, que encomenda Tristão mal-ferido aos frades e parte em busca de novas aventuras, chegando então ao castelo de Corbenic, onde o esperava seu avô, o rei Peles, que guarda os supremos mistérios do Graal, e aí o Encantador, que fizera pacto com o demónio, é expulso pela presença de Galaaz e desaparece, ardendo pelos ares.
Galaaz, Persival e Boroz: os três cavaleiros na Nave Maravilhosa
1. Seguindo o seu caminho, Galaaz encontra o ermitão que muito o amava e se regozijou por voltar a vê-lo, pernoita no ermitério e é despertado por uma donzela desconhecida que era irmã de Persival, que lhe pede que se arme pois o irá conduzir à Nave Maravilhosa, e Galaaz e a donzela cavalgam durante muito tempo até chegarem à Nave Maravilhosa onde já o esperavam Boorz e Persival, e, quando Galaaz reconhece os seus companheiros, chora de prazer.
2. Então chegaram a outra nave e a donzela aconselha-os a embarcarem nela, e aparecem na nave algumas palavras misteriosas que, graças a Galaaz inspirado por Deus, podem ser decifradas, advertindo que aquele que quiser entrar deve guardar-se de entrar se não for comprido de fé, pois não há nela senão fé, e, se entrar e abaixar-se de fé, logo ela lhe falecerá e o deixará cair no mar.
3. Os três companheiros resolvem entrar na Nave Maravilhosa, apesar dos riscos, e aí encontram a nova espada que Galaaz cingirá, pois seria com efeito Galaaz o mui bom e melhor cavaleiro que haveria de dar cima às aventuras do reino de Logres.
4. O sinal era o facto de somente Galaaz ter conseguido retirar a espada, pois ele é o melhor cavaleiro do mundo e ela a melhor espada do mundo.
5. A barca, na realidade, simbolizava a Igreja no mundo, dizendo Galaaz que isso não pode ser, pois ele está nesta nave, que é significança da santa igreja.
Encontro de Lançalot e Galaaz
1. Entretanto os cavaleiros chegam ao castelo do conde Arnalt e a irmã de Persival morre, tendo dado o seu virginal sangue, de virtude curativa, para sarar uma dama doente, e os três separam-se novamente e, depois de algumas aventuras e da batalha entre o rei Artur e o rei Mars da Cornualha, o conto volta a Galaaz que encontra Mars, Estor e Galvão, dando-se então o encontro entre Galaaz e Lançalot, seu pai, e Galaaz conta ao pai a aventura da Nave Maravilhosa, depois recebendo ordens para partir novamente.
Lançalot, Estor, Gaeriet e Galvam em Corbenic
1. Entretanto Lançalot chega a um castelo que reconheceu ser Corbenic e dá graças a Deus, vê o Santo Graal, o Santo Vaso, mas uma voz impede-o de se aproximar dele, e, obstinado, tenta várias vezes mas não consegue e adoece a ponto de estar em perigo de vida, e o rei Pescador, ou rei Peles, e os seus eram alimentados pela graça do Santo Vaso, e tanto Estor e Mars como Gaeriet e Galvão chegam ao castelo mas não conseguem entrar, e Galvão amaldiçoa o castelo por não conseguir entrar.
Conversão de Palamades e o fim da Besta Ladrador
1. Palamades, finalmente convertido, recebeu o batismo depois do seu combate contra Galaaz, e o batismo sarou-lhe as chagas do combate, e Galaaz pretende partir mas Palamades, convertido ao cristianismo, quis partir com ele e entrar também na demanda do Santo Graal, tendo para isso de pertencer à Távola Redonda, e numa das secadas, com efeito, aparece escrito o nome de Palamades, e separam-se mas, entretanto, Galaaz encontra a Besta Ladrador e ao mesmo tempo vê chegarem dois cavaleiros, Palamades e Persival, e o encontro dá-se com alegria, e então entram todos na demanda da Besta Ladrador, cabendo a Palamades o privilégio de destruir a Besta que, ferida, cai no lago cujas águas imediatamente se tornam ferventes.
Galaaz em Corbenic: o Graal descoberto
1. Terminada a aventura da Besta Ladrador, os três cavaleiros seguem caminho até que chegam ao castelo de Corbenic, e Galaaz reconhece o castelo, mas havia uma condição para se entrar nele: tinha de se ter fé e pertencer à Igreja, e, contrariamente ao que acontecera com os cavaleiros que o precederam, as portas abrem-se sozinhas à sua entrada.
2. Então, numa câmara, veem nove cavaleiros da Távola Redonda e um deles era Boorz de Gaunes, e assim, com eles, o número de cavaleiros perfazia doze, ou seja, o mesmo número dos apóstolos da última ceia de Cristo.
3. Entretanto o homem bom vem buscar Galaaz, conduzindo-o depois à câmara onde o rei jazia doente e onde estava o Santo Graal.
4. Galaaz entra na câmara, vê o Santo Graal e, ao pé, a própria lança com que Cristo foi ferido, que gotejava sangue, e então ouve uma voz que lhe diz que se levante e tome aquele bacio e aquela lança e vá ao rei Peles e entorne-o sobre as chagas, pois assim há de guarnecer por sua vinda.
5. Assim aconteceu e, quando Galaaz pegou no Santo Vaso, a lança subiu ao céu e nunca mais foi vista, e o rei Peles jazia numa cama, ferido havia quatro anos, e alimentava-se da graça do Santo Graal, e, quando vê Galaaz, chama-o e pede-lhe que o cure, e Galaaz verte o sangue do Vaso sobre as chagas do rei e este, finalmente curado, abraça Galaaz.
6. Entretanto o rei Peles retira-se para uma ermida e os doze cavaleiros ouvem uma voz que lhes diz que vão ser alimentados pela graça do Santo Graal, chamando-os cavaleiros compridos de fé e de crença, escolhidos sobre todos os outros cavaleiros pecadores, para entrarem na câmara.
7. Galaaz é o primeiro, seguindo-se-lhe Persival e Boorz e depois todos os outros, e todos avistaram, comovidos, o Santo Graal, e, enquanto estavam em oração, surge a própria figura de Jesus Cristo, que oferece o manjar aos cavaleiros, sendo o primeiro escolhido Galaaz, que recebeu uma hóstia, e todos os outros cavaleiros se lhe seguiram, e depois ouvem uma voz que lhes diz que devem partir e, obedecendo, todos se despediram e partiram.
O fim da demanda
1. Enquanto Palamades morre pelas mãos de Galvão, Persival e Boorz continuam o caminho juntos, e Galaaz encontra um homem bom, o rei Peles, a quem pergunta sobre as três maravilhas da floresta, uma delas a Besta Ladrador que era filha de uma donzela e do demónio, e as outras duas eram a Fonte da Guaricom e a dona da Capela.
2. Depois, os três cavaleiros partem até que chegam ao mar onde estava a nave de Salomon e dentro desta o Santo Graal, e embarcam todos os três e a nave partiu para a cidade de Sarraz.
3. Nesta cidade, Galaaz é coroado rei do Graal, e durante um ano ele e os dois companheiros guardaram o Graal, então Josefes, filho de José de Arimateia, surge revestido para a missa e a comunhão de Galaaz, e este vê então em toda a plenitude as maravilhas do Santo Graal e, extasiado, cai por terra e morre, como lhe fora anunciado, e, assim que ocorreu a morte de Galaaz, uma mão veio e arrebatou o Graal ao céu, tal como sucedera à lança, e nunca mais foi visto sobre a Terra, e Persival torna-se ermitão e vem a morrer, conforme as predições, e Boorz regressa sozinho ao reino de Logres onde, em Camaalot, contou ao rei Artur e à sua corte a verdade do Santo Graal.
4. E sabede que estes três cavaleiros foram os mais louvados da demanda: Galaaz, Boorz e Persival.
Morte de Artur
1. Terminada a Demanda, o conto torna ao reino de Logres, e aí Galvão e os irmãos desvendam ao rei Artur o adultério da Rainha Genebra com Lançalot, pelo que ela será julgada e condenada ao fogo, contudo Lançalot rapta a rainha e leva-a para um castelo, lançando a desonra não só sobre o rei Artur mas sobre o reino de Logres, e Artur mete-se então a caminho com os seus cavaleiros em busca de vingança, e essa é a razão da divisão dos cavaleiros, já que Boorz e Estor lutam ao lado de Lançalot.
2. Depois de um combate, Artur considera-se vingado, mas vai ter de enfrentar a traição de Morderet, que ambiciona apoderar-se do reino de Logres, e travam a batalha e o rei mata Morderet mas fica mal-ferido, e, acompanhado do seu fiel Giflet, dirige-se para o mar e entrega-lhe a espada Excalibur para que a lance ao mar, e o rei aventuroso embarca então na barca de Morgaim que o vem buscar, e Giflet dirige-se a um ermitério, onde o ermitão lhe diz que as fadas haviam sepultado Artur, mas, aberto o túmulo, não se encontra o corpo, e ninguém saberá se Artur é vivo ou morto.
3. Ao saber-se do desaparecimento de Artur, a rainha Ginebra faz um grande doo e torna-se monja, e Lançalot recolher-se-á também a uma ermida, bem como Boorz e Meraugis, e o que resta do reino de Logres e da memória da Távola Redonda será destruído pelo cruel rei Mars, que queima o corpo de Lançalot, destrói o lugar de Galaaz na Távola Redonda e mata Boorz, e o cruel Mars será sepultado fora do sagrado.