2 Perceval

JUNG, Emma; FRANZ, Marie-Luise von. The Grail legend. London: Hodder & Stoughton, 1971.

A história inicial de Perceval segundo Chrétien de Troyes

1. A história do jovem Perceval insere-se no tema universal dos contos de fadas sobre o simplório, no qual justamente o irmão mais novo ou o mais tolo é quem invariavelmente realiza o grande feito ou conquista o tesouro difícil de alcançar.

2. Crescer numa floresta, com sua vida vegetal e animal, sua penumbra e seu horizonte restrito, ilustra a condição ainda mal consciente da criança próxima à natureza, estado primitivo reforçado pelo fato de Perceval não ter pai e conhecer apenas a mãe, que o cria em solidão, longe do mundo.

3. A floresta, enquanto natureza protetora e nutridora, representa também a qualidade envolvente da mãe, de modo que a escolha de um lugar tão afastado para protegê-lo dos perigos da cavalaria, que vitimara o pai e os irmãos, encobre algo mais profundo: o problema básico e universal da relação entre mãe e filho, presente desde o início da vida e tão significativo que a humanidade sempre o tratou tanto na realidade concreta quanto no mito e no conto de fadas.

4. A psicologia moderna reconheceu a importância fundamental desse problema, como atestam as obras de Freud, de Jung e de seus discípulos, sobretudo Símbolos da Transformação, em que os numerosos paralelos mitológicos e religiosos mostram tratar-se não de algo restrito ao pessoal, mas de situações e modos de comportamento arquetípicos herdados universalmente.

5. No plano pessoal, o desejo da mãe de manter o filho sob sua asa corresponde ao instinto animal de proteção do ninho, indispensável enquanto a criança é indefesa, mas capaz de prejudicar ou bloquear seu desenvolvimento quando prolongado além do necessário, sobretudo se a criança for de natureza tímida e medrosa e preferir permanecer na segurança do círculo materno.

6. Os vínculos com a mãe desempenham papel relevante em certos estados neuróticos, por trás dos quais Freud via desejos incestuosos inconscientes ou reprimidos, origem do chamado complexo de Édipo, ao qual atribuía significado central.

7. Embora imagens incestuosas apareçam de fato em sonhos, a nostalgia da mãe pode ser compreendida de outro modo, não apenas como anseio infantil regressivo e neurótico, mas, à luz de abundante material simbólico, como impulso oculto para o renascimento e a transformação da personalidade.

8. Em sua dimensão transpessoal, a mãe deixa de ser uma pessoa particular para tornar-se a doadora e preservadora universal da vida, comparável ao inconsciente como fonte e origem de toda a vida psíquica.

9. A imagem transpessoal da mãe possui igualmente um aspecto negativo de retenção do filho, figurado em mitos e contos como o ato de matá-lo ou devorá-lo, a mãe terrível ou devoradora encarnada em deusas destrutivas como Kali, na madrasta cruel ou na bruxa, expressão do aspecto mortal da natureza, ao qual corresponde a oposição do inconsciente ao desenvolvimento da consciência e sua ameaça de obscurecê-la ou extingui-la.

10. As imagens arquetípicas, existentes na psique como formas estruturais do instinto antes de qualquer consciência individual, fazem com que o mundo da criança seja um mundo de contos de fadas, em que padrões inatos de percepção e comportamento são projetados nas situações exteriores, e o passo seguinte da tomada de consciência consiste em distinguir o mundo real desse mundo primordial, numinoso e fascinante, ao mesmo tempo morada de monstros e paraíso de bem-aventurança, cuja renúncia desperta violenta resistência e explica tanto o encanto da infância quanto os mitos de um paraíso ou idade de ouro perdidos.

11. A nostalgia da mãe pode ser entendida, em linguagem não mitológica, como a atração constante exercida pelo inconsciente, comparável à lei da gravidade, razão pela qual o desenvolvimento e a preservação da consciência do eu são representados pelo mito do herói, como uma luta contra um monstro avassalador que exige força quase sobre-humana.

12. A consciência é uma realização que consome energia e só se sustenta por períodos limitados, após os quais se torna necessário um estado de inconsciência, o sono, para renovar a energia gasta.

13. O surgimento da consciência parece quase um milagre, enquanto a recaída no estado original ocorre com extrema facilidade, de modo que a natureza ou o inconsciente se assemelha a uma mãe que retém os filhos ou quer trazê-los de volta, sedução expressa no folclore pelas lendas de ninfas e ondinas que, com seu canto irresistível, atraem os homens para as profundezas.

14. O desejo de reter e possuir o filho, que no plano humano se manifesta como impulso de poder, assenta-se em padrões herdados da própria natureza e, em última instância, na inércia da matéria, o que lhe confere força de sugestão e eficácia, só superáveis por um estado superior de consciência, já que por trás da mãe pessoal sempre se encontra, despercebida, a figura arquetípica da Grande Mãe.

15. Esse quadro ilumina apenas um lado do problema, pois assim como a natureza deseja não só inércia, sono e morte, mas também vida, crescimento e fecundidade, essa tendência está igualmente presente na mãe e no filho, e nenhuma mulher deseja ter filhos para devorá-los, mas para que floresçam e sejam felizes.

16. Seguida unilateralmente, também a tendência ao incentivo esconde perigos, como a ambição materna que força o desenvolvimento por caminhos errados, de modo que a verdadeira atitude materna nasce do conflito e da cooperação entre reter e encorajar, permitindo ao filho sair da órbita da mãe e do paraíso infantil, impulsionado pelas imagens arquetípicas projetadas no mundo exterior, que o tornam atraente, como ocorre com Perceval, arrastado para longe da mãe rumo à busca do Graal justamente por aquilo contra o qual ela pretendia preveni-lo.

17. Na versão de Chrétien de Troyes, o pai de Perceval, ferido em ambas as coxas e aleijado em batalha, perde seus bens após a morte do rei, foge com a família numa liteira para uma casa oculta em sua floresta e morre de desgosto pela morte de dois filhos no mesmo dia, quando Perceval tinha dois anos, situação notavelmente semelhante à do Rei do Graal enfermo, enquanto em outras versões o pai já está morto no nascimento do herói.

18. A ausência do pai, atributo frequente do herói mítico e também presente em sonhos, fantasias e na vida real, pode ser explicada pela necessidade de o menino abrir o próprio caminho e desenvolver independência, pelo sentimento de que todas as possibilidades masculinas lhe estão abertas, com o risco de excessos, pela transferência ao filho das expectativas heroicas da mãe sem marido e pela fantasia feminina de que um dos filhos foi gerado pelo amante psíquico, o animus, figura arquetípica que revela o herói como imagem primordial adormecida em toda alma.

19. A falta de pai do herói implica sua descendência de um pai sobre-humano ou não humano, como nos ancestrais animais, vegetais ou objetos de religiões primitivas e nas uniões de deuses gregos com mulheres mortais, das quais nascem semideuses e heróis, e encontra eco na fantasia infantil de ser filho adotado de origem principesca, que, embora seja realização de desejo capaz de afastar da realidade, também infunde coragem ao jovem diante de um mundo que o faz sentir-se pequeno e impotente, personificando um ideal que serve de estímulo e apoio na vida.

20. O arquétipo revela-se útil ao oferecer padrões de comportamento que surgem em sonhos nos momentos críticos de mudança, daí o valor terapêutico de mitos e contos de fadas como modelos de orientação, embora possa agir negativamente quando o indivíduo se identifica com a imagem do herói para glorificar o eu, ao passo que, em nível superior, o pai desconhecido como princípio espiritual e divino, expresso com clareza em Cristo, filho de Deus e do homem, traduz o sentimento inerradicável de que habita no homem algo mais que o puramente humano ou animal, uma alma imortal ou centelha divina.

21. Retomada da narrativa sobre o jovem Perceval após a consideração dos aspectos psicológicos da mãe, do pai e da figura do herói.

22. O jovem filho da viúva, cavalgando pela floresta, ouve o ruído de armas e cavalos e julga tratar-se de demônios, sem medo, mas ao ver cinco cavaleiros de armaduras reluzentes toma-os por anjos e pergunta a um deles se é Deus, interrogando-o sem cessar sobre armas e armaduras, até que os cavaleiros o declaram, como todo galês, mais estúpido que os animais do pasto.

23. A designação de Perceval como galês diz respeito menos à sua nacionalidade do que à sua caracterização como rústico grosseiro, sendo galês sinônimo de homem primitivo, inculto e de certo modo inferior.

24. O comportamento rude não reflete a verdadeira natureza de Perceval, pois ao saber que a armadura vem do rei Artur ele decide imediatamente tornar-se cavaleiro, primeira expressão, ainda como desejo infantil, de uma consciência nascente que indica sua meta última e vocação, caminho para si mesmo do qual nada o desvia, revelando como uma experiência intensa da juventude, vivida em projeção, pode decidir toda a vida e como a projeção serve não apenas para afastar percepções dolorosas, mas também para tornar conteúdos perceptíveis, confrontando o eu com o não eu.

25. O encontro com os cavaleiros provoca a separação da mãe e a entrada no mundo, pois ao ouvir o relato ela desmaia e perde seu poder sobre o filho, e, recobrada, conta-lhe a nobre origem dos pais, o ferimento e a ruína do pai, a morte dos irmãos e o desgosto que o matou, sem que Perceval demonstre o menor interesse, limitando-se a pedir comida e a afirmar que irá ao rei que faz cavaleiros custe o que custar.

26. A determinação do rapaz mostra que a mãe significa para ele apenas alimento, sendo indiferentes suas palavras e sentimentos diante da urgência do desejo de tornar-se cavaleiro.

27. Vendo que suas dúvidas não surtem efeito, a mãe resigna-se ao inevitável, equipa o filho com roupas de montaria e confecciona-lhe um traje ao estilo galês, rústico e grotesco, que o fará parecer na corte um tolo desajeitado.

28. Após receber da mãe conselhos e preceitos, Perceval parte e, olhando para trás uma única vez, vê-a caída na ponte como morta, mas esporeia o cavalo e segue sem a menor preocupação, sinal de que a visão dos cavaleiros possui um poder diante do qual tudo o mais se apaga.

29. Os preceitos maternos recomendam entrar e rezar em toda igreja, casa bela com relíquias sagradas onde se adora Deus e onde o corpo de Cristo foi oferecido, honrar as mulheres, socorrer os aflitos e aceitar o anel de uma donzela sempre que houver oportunidade.