JUNG, Emma; FRANZ, Marie-Luise von. The Grail legend. London: Hodder & Stoughton, 1971.
1. Na Pandora, texto alquímico de 1588, uma figura coroada com cauda de peixe, uma Melusina, trespassa o lado de Cristo com a lança de Longino, diante de Eva, destinada a unir-se a Cristo como segundo Adão, sendo a Melusina símbolo da aqua permanens da alquimia, água ou elixir que é uma verdade, e variante do Mercurius andrógino, cuja lança, como a espada flamejante dos Querubins em Gerhard Dorn, se transforma em instrumento de amor dirigido ao coração de Cristo, isto é, ao elemento psíquico que simboliza o Si-mesmo.
2. O Si-mesmo designa psicologicamente a totalidade psíquica do ser humano, que transcende a consciência, fundamenta o processo de individuação e torna-se gradualmente consciente ao longo dele, presente desde o início como enteléquia do indivíduo e abrangendo as partes conscientes e inconscientes da personalidade, cujos aspectos entram progressivamente no campo da consciência e ampliam seu horizonte em constante mudança, acompanhando-se muitas vezes de uma experiência numinosa dessa totalidade interior, sentida pelo eu com profunda emoção como epifania do divino, a ponto de ser praticamente impossível distinguir experiência de Deus e experiência do Si-mesmo, cujas manifestações inconscientes coincidem com a imagem de Deus da maioria das religiões e, quando não personificadas, apresentam formas circulares, quadradas e frequentemente quaternárias, estruturas que Jung, com termo oriental, chamou mandalas.
3. Embora a figura de Cristo, o Filho do Homem, possa ser considerada representação do Si-mesmo, faltam-lhe certos traços do simbolismo empiricamente conhecido do Si-mesmo, enquanto o coração de Jesus, figurado no centro de mandalas medievais com mãos e pés trespassados nos quatro cantos e com uma criança portando açoite e vara como personificação da sabedoria divina, é símbolo quaternário do Si-mesmo e tornou-se não por acaso objeto de culto específico, como numa xilogravura do século XV em que a metade inferior do Cristo crucificado é substituída por um grande coração que verte sangue num cálice sustentado por dois anjos, repetido nos quatro cantos, trespassado pela flecha, cingido pela coroa de espinhos, perfurado pela lança e pelos cravos e alado com a lua dentro e o sol acima, motivo que acentua a essência do sentimento humano em Cristo e a emergência de um elemento feminino em forma de sabedoria, presente também no cálice, na lua e nas invocações ao Sagrado Coração, exaltado como templo onde habita a vida do mundo, rosa, taça, tesouro, fonte, fornalha do amor divino ardendo no fogo do Espírito Santo, turíbulo e câmara nupcial, no qual as almas dos moribundos se dissolvem como ouro no fogo ou água no vinho, símbolos femininos estreitamente ligados aos motivos da lenda do Graal e da alquimia.
4. Naquela época, a ferida aberta no coração de Cristo pela lança de Longino era vista como ferida por uma flecha de amor, como numa xilogravura alemã de 1470 a 1490 em que a Senhora Caridade, de rosto desviado, dispara flechas no coração do Rei do Céu, enquanto a Oração recolhe num vaso o sangue que jorra, num hino do século XIV em que Jesus diz à alma que ela, sua esposa, lhe feriu o coração com uma flecha de amor e por isso está pregado à cruz, e num sermão do século XIII em que o Senhor declara ter deixado abrir o coração por uma lança aguda por amor à alma e pede-lhe o coração, como se a natureza humana de Cristo se compreendesse mais claramente por referência ao seu coração.
5. A Melusina da Pandora surge como modificação mais escura da imagem da Caridade, conduzindo mais fundo na natureza puramente humana, onde o amor de Deus se mistura ao amor terreno, pois, se a Caridade representa a luz, a Melusina figura a natureza ambígua da anima, a psique humana inconsciente e obscura com seu impulso inerente à individuação, que também visa o coração de Cristo, ilustrando todas essas imagens a tendência do inconsciente a deslocar o valor supremo dos aspectos convencionais de Cristo para sua qualidade essencial de Anthropos ou segundo Adão, símbolo mais completo do Si-mesmo, ao mesmo tempo que, transformada a arma em flecha de amor, a agudeza da discriminação ética se converte numa atitude de Eros compreensivo.
6. O sangue de Cristo, como seu coração, simboliza sua qualidade essencial, a realidade psíquica de sua imagem, visada pela figura alquímica do Anthropos, o Mercurius ou a Melusina, e, como a alquimia serviu de receptáculo para conteúdos compensatórios e complementares ao cristianismo oficial, não é por acaso que se encontram estreitas ligações entre ela e os símbolos do Graal, numa era cristã iniciada com a era astrológica de Peixes e marcada pela oposição sem precedentes entre Cristo e Anticristo, luz e trevas, bem e mal, na qual, após a expansão unilateral do cristianismo até o ano 1000, idade do primeiro peixe, surgiram os movimentos do Espírito Santo, sobretudo o de Joaquim de Fiore, e seitas como neomaniqueus, albigenses e pobres de Lyon, além da alquimia ocidental, campos todos afins à lenda do Graal, cujas ligações com cátaros, joaquimitas e hermetismo, buscadas por O. Rahn, E. Anitchkof e J. Evola, parecem limitadas a pontos isolados, sendo mais provável que a relação resida nas constelações psicológicas inconscientes discutidas por Jung em Aion.
7. Em todos esses movimentos manifestou-se uma preocupação com o problema do mal, da natureza, do feminino e do divino no indivíduo, buscando completar o que faltava ao cristianismo, pois os símbolos naturais da totalidade psíquica não coincidem plenamente com a figura tradicional de Cristo, da qual a sombra está ausente ou cindida na figura oposta do Anticristo, enquanto na alquimia a imagem do Anthropos foi continuamente ampliada e, como lapis e Mercurius, tornou-se símbolo paradoxal do Si-mesmo em que os opostos se reconciliam, preservando aspectos vivos não admitidos no dogma e permitindo a sobrevivência de conteúdos pagãos ainda dotados de valor psíquico, ampliação semelhante à que a história do Graal realiza com conteúdos da Antiguidade tardia, do gnosticismo e do islã, recorrendo a lendas orientais e a escritos apócrifos com material lendário antigo e oriental, como a lenda de Salomão no Lancelot-Graal, em Robert de Boron e na Queste, ao lado dos motivos celtas.
8. A lenda de José de Arimateia, baseada no Evangelho de Nicodemos, era amplamente conhecida na época e José era particularmente venerado na Lorena, não distante de Montbéliard e da aldeia de Boron, suposta terra natal de Robert, o que pode ter influenciado a escolha do material, e tanto o retorno a mitos celtas e germânicos quanto o recurso a tradições apócrifas do cristianismo primitivo explicam-se psicologicamente pela mesma necessidade de completar a imagem de Cristo com traços insuficientemente considerados pela tradição eclesiástica.
9. Outros motivos paralelos remontam à lenda de Alexandre da Antiguidade tardia, cujos detalhes lembram notavelmente o Castelo do Graal, pois Alexandre, a caminho da Índia, sobe uma montanha de dois mil e quinhentos degraus de safira até a Casa do Sol, palácio de portas e janelas de ouro com um templo diante do qual cresce uma videira de ouro com uvas de pedras preciosas, onde num leito de ouro jaz um belo ancião de cabelos brancos, ricamente vestido e alimentado apenas de incenso e bálsamo, que lhe oferece interrogar as árvores sagradas do sol e da lua, as quais predizem sua morte prematura, junto a outra árvore sem folhas nem flores onde pousa uma fênix púrpura e ouro, história retomada na canção alemã do padre Lamprecht, em que o belo ancião dorme e Alexandre, sem ousar despertá-lo, retrocede, poemas que se apoiam no romance do Pseudo-Calístenes, escrito provavelmente em Alexandria por volta do ano 200, com uma carta de Alexandre à mãe.
10. Na carta, Alexandre relata ter chegado a uma grande ilha com uma Cidade do Sol de doze torres de ouro e esmeralda e, no centro, um altar de sete degraus encimado por um carro com cavalos e cocheiro de ouro e esmeralda, mal visível por causa da névoa, de onde um sacerdote etíope do sol os mandou partir, e depois, no mar de Lisos, ter subido a uma alta montanha com casas cheias de ouro e prata e uma muralha de safira de cem degraus, cercada de estátuas de semideuses, bacantes, sátiros e iniciados, com o velho Maron montado num animal, e no templo um leito onde jazia um homem vestido de seda, de rosto invisível mas de grande tamanho e força, uma coroa de ouro transparente pendente de uma corrente, uma pedra preciosa que iluminava o templo em lugar do fogo e uma gaiola de ouro com uma grande ave que, com voz humana, ordenou a Alexandre que deixasse de enfrentar os deuses e voltasse para casa sem apressar temerariamente sua passagem aos caminhos celestes.
11. Essa história contém traços que reaparecem na lenda do Graal, sobretudo o belo ancião de cabelos brancos deitado em leito suntuoso, descrito quase com as mesmas palavras que o Rei do Graal, e alimentado apenas de incenso e bálsamo, como o velho Rei do Graal servido pelo Graal e nutrido somente pela hóstia.
12. Incenso e bálsamo são os alimentos perfumados dos deuses, e o palácio chamado Casa do Sol, o templo e as árvores sagradas do sol e da lua indicam um lugar de culto e lembram o Paraíso, assim como o Grand Saint Graal relata que José, em suas peregrinações com o Graal, chegou à cidade de Sarras, terra dos sarracenos, onde havia um templo do sol.
13. Na carta de Alexandre o lugar é claramente um recinto sagrado de atmosfera numinosa, onde o homem belo, grande e forte, de rosto indistinto, parece um deus adormecido ou uma estátua divina que se move, enquanto a videira, as estátuas de bacantes, sátiros e iniciados e o velho Maron remetem a Dioniso, que como Zagreu era centro dos mistérios órficos e conduz a Orfeu, cujo nome Robert Eisler traduz por pescador, assim como o Rei do Graal é o Rico Pescador, e Orfeu Pescador tornou-se, como Cristo, o Bom Pastor e foi chamado também a videira, estreitamente ligada ao Graal, e a pedra preciosa que ilumina o templo em lugar do fogo lembra o fogo contínuo diante do leito do Rei do Graal, o brilho do Graal que ofusca as velas e o Graal-pedra de Wolfram, paralelos tão numerosos que tornam possível que os autores do Graal tenham tomado esses traços da lenda de Alexandre, traduzida para o latim no século IV e amplamente conhecida.
14. Outra lenda muito difundida, com descrição semelhante de um maravilhoso palácio-templo e muitas semelhanças com a de Alexandre, era a do Preste João, que descreve o túmulo-templo do apóstolo Tomé na Índia como palácio de ouro e pedras preciosas iluminado por dois carbúnculos, onde o apóstolo de cabelos e barba ruivos jaz incorrupto como adormecido, movendo às vezes a mão diante das oferendas, e L. J. Ringbom, retomando a antiga hipótese de L. E. Iselin em Graltempel und Paradies, procurou mostrar que a ideia do Castelo do Graal, especialmente no Jüngere Titurel, veio da Pérsia como estrutura em forma de mandala representando o Paraíso ou um além espiritual, com protótipo no santuário parse do fogo sagrado de Siz, modelo de túmulo real, santuário no centro do mundo e imagem do universo, comparável às mandalas ocidentais e ao santuário montanhês dos Assassinos, confraria secreta sob o Velho da Montanha com a qual os templários mantinham estreitas relações, santuário reconstruído sob os sucessores de Gengis Khan, um dos quais, Abaka Khan, adotou o título de Preste João, lenda que Wolfram e o autor do Jüngere Titurel ligam explicitamente ao templo do Graal, de modo que, mesmo sendo contestáveis certas ligações históricas e literárias, é indiscutível o enorme estímulo de uma fantasia de centrum mundi que, além dos elementos cristãos, remonta a tradições antigas, orientais e em parte celtas, como se houvesse uma necessidade psíquica de ampliar o símbolo do Si-mesmo com traços naturais, ao lado da qual também o mito de Osíris terá influído no desenvolvimento da história do Graal.
15. Todas essas descrições, da Cidade do Sol de Alexandre ao sepulcro do apóstolo Tomé no Preste João, apresentam uma mandala, símbolo do Si-mesmo, e significativamente na lenda de Alexandre os limites do jovem conquistador lhe são mostrados a cada encontro com o símbolo, ao ser mandado embora da Cidade do Sol, ao ouvir a ave que o adverte contra enfrentar os deuses e, na Historia de Preliis e nas versões francesas, ao ter sua morte predita, pois é justamente o Si-mesmo, como guia interior, que procura reduzir às proporções humanas quem aspira ao Olimpo, sentido talvez correspondente ao banimento do turbulento jovem Perceval do Castelo do Graal, que só poderá reencontrar ao alcançar a maturidade necessária.
16. O espantoso enriquecimento da história do Graal com simbolismos celtas, orientais e antigos é um fenômeno da época paralelo à alquimia medieval, corrente subterrânea que compensava e completava as lacunas e conflitos do cristianismo dominante na superfície, razão pela qual muitos alquimistas compararam sua substância e sua pedra a Cristo, sentindo inconscientemente sua obra como continuação da redenção, sem perceber, como observa Jung, que assim ocupavam o lugar de Cristo, já que só podiam redimir o Espírito de Deus na matéria sob a guia do Si-mesmo, o Cristo interior, e sem tomar consciência de que Cristo é símbolo do Si-mesmo, e Perceval, como eles, é chamado a uma obra específica de redenção e posto numa misteriosa relação histórica com Cristo, como se devesse levar adiante a tomada de consciência na era cristã, perguntando pela origem do mal, o mistério do ferimento do Rei do Graal por um inimigo, e pelo Graal, descobrindo o sentido do vaso que contém o sangue do Crucificado e a forma em que a vida psíquica essencial da figura de Cristo continua a existir e o que significa.
17. Essas ligações com o passado histórico e com os símbolos centrais do cristianismo situam os objetos da procissão do Graal num contexto psicológico transpessoal muito amplo, no qual o desenvolvimento de Perceval aparece não só como tomada de consciência de um indivíduo, mas como representação simbólica de uma evolução coletiva condicionada pela época, e o próprio Perceval, destinado por longa linhagem à redenção do reino do Graal e portador da autenticidade e dos traços do herói dos contos de fadas, surge como figura de Anthropos que, como o Mercurius-lapis alquímico, deveria compensar e ampliar a imagem de Cristo dominante na consciência coletiva, paralelo do homo altus ou homo quadratus da alquimia, o homem verdadeiro e total ou componente divino que emerge do seio materno do inconsciente e liberta áreas da psique antes isoladas da vida, relação reforçada pelo nome de seu antepassado Uther Pendragon, interpretado por Vicente de Beauvais como cabeça de dragão, caput draconis, pois na alquimia o dragão é prima materia da pedra e, no Scriptum Alberti super arborem Aristotelis, entre oito círculos concêntricos correspondentes às esferas celestes, o quinto é a cabeça e a morte do dragão, que vive na eternidade, chamada vita gloriosa e servida pelos anjos, equiparada por Jung a Cristo, sendo a cauda o Anticristo ou o diabo, cabeça implantada pela força divina no dragão que odeia o corpo e o devora a partir da cauda até que todo ele entre na cabeça para sempre, substância de que se origina a pedra filosofal, o que torna Perceval paralelo ao lapis alquímico e ao homem mais puro e simples visto como redentor do macrocosmo, de modo que resolver o enigma do Graal significa tornar conscientes seus próprios problemas psíquicos e sua vasta natureza interior, no contato com conteúdos apócrifos que constituem a matriz psíquica dos símbolos cristãos, o inconsciente coletivo, do qual, segundo Jung em Aion, se cristalizaram em torno do Jesus histórico, por si quase indiscernível, imagens arquetípicas como o peixe, o cordeiro e a cruz, que fazem de Cristo verdadeiro símbolo do Si-mesmo, ampliação que nas tradições paracristãs medievais se desenvolveu com mais liberdade que no dogma oficial, permitindo que fantasias, sentimentos, emoções e pensamentos ousados surgidos do inconsciente se expressassem, de modo que a essência viva de Cristo, seu sangue, continuou a viver intensamente nessas interpretações e a desenvolver-se ao transformar-se.
18. Perceval encarna o homem natural confrontado com o problema do mal e da relação com o feminino e, por meio deles, com a tarefa de um desenvolvimento maior da consciência, cumprindo por muitos desvios a redenção do reino do Graal do qual acaba por tornar-se soberano, reino pertinentemente ligado aos primeiros tempos do cristianismo, quando a imago de Cristo se cristalizava a partir da matriz do inconsciente coletivo e, por sua insistência unilateral no lado luminoso, rejeitava sua sombra, a imagem do Anticristo, como se na história do Graal se desse, a partir dessa mesma matriz, um novo enriquecimento do símbolo do Si-mesmo capaz de pôr fim à contínua dilaceração pelos opostos e buscar sua reconciliação, tarefa para a qual o ser humano individual serve de vaso, pois só no indivíduo os opostos podem unir-se, tornando-se ele receptáculo da transformação do problema dos opostos na imagem de Deus, lugar de transformação e vaso em que Deus pode tornar-se consciente, reflexão que conduz ao tema central da história, o Graal.