9 A Mesa

JUNG, Emma; FRANZ, Marie-Luise von. The Grail legend. London: Hodder & Stoughton, 1971.

A mesa, a travessa e as duas facas

1. A mesa, um dos objetos notáveis do Castelo do Graal, aparenta-se simbolicamente ao Graal em muitos aspectos e possui sentido feminino e materno, sobretudo quando serve a uma refeição, pois o latim mensa, mesa e também alimento, vem de metior, medir, repartir, da mesma raiz de mensis, mês, ligada à lua como medida do tempo e símbolo feminino da mãe que mede e distribui o alimento, ideia de medida que remete de novo ao vaso, também ele medida, e nas histórias do Graal a mesa é de grande valor, em Wolfram de translúcida granada jacinto, pedra avermelhada, com dois suportes de marfim, levada logo após a lança, e em Chrétien de marfim com suportes de ébano, que não apodrece nem queima e é portanto imperecível, importando não só por nela se comer a refeição servida pelo Graal ou, em Wolfram, por sustentar o próprio Graal, mas porque essas histórias pertencem com razão às Histórias da Távola Redonda, círculo de cavaleiros eleitos da corte de Artur, forma prévia arcaica das imagens arquetípicas vistas por Perceval no Castelo do Graal, como já indicava o primeiro encontro com Artur, incapaz de agir e, como o Rei do Graal, temporariamente paralisado, num episódio em que também uma taça de ouro roubada teve papel importante.

2. A Távola Redonda foi instituída por Uther Pendragon, pai de Artur, a conselho do mago Merlim, e é a última das três mesas mais importantes desde o advento de Cristo segundo a Queste del Saint Graal, sendo a primeira a mesa de Jesus Cristo, em que os apóstolos comeram várias vezes e que sustentava corpos e almas com alimento celeste, instituída pelo Cordeiro imaculado sacrificado para a redenção, e a segunda, à sua semelhança e em sua memória, a mesa do Santo Graal, da qual se viram grandes milagres no tempo de José de Arimateia, quando o cristianismo foi trazido pela primeira vez àquela terra.

3. Sobre essa segunda mesa foi colocado o Graal, por cuja graça José e sua multidão de quatro mil pessoas eram alimentados, tendo José a instituído por ordem divina segundo o modelo da mesa da Última Ceia.

4. Em Robert de Boron, Brons, cunhado de José, pesca um peixe posto na mesa ao lado do Graal, razão pela qual o guardião do Graal se chama Rei Pescador, e essa segunda mesa, segundo a ordem divina, é expressamente quadrada, enquanto a terceira, a de Artur, é redonda, instituída por conselho de Merlim com grande significado simbólico, pois sua redondez significa a redondez do mundo, a condição dos planetas e dos elementos no firmamento, visível nas estrelas e em inúmeras outras coisas, de modo que na Távola Redonda está simbolizado todo o universo.

5. Isso lembra outras mesas, em parte históricas, em parte lendárias, como a preciosa mesa de Carlos Magno, que com seus doze pares evoca Cristo e os apóstolos e é protótipo de Artur e sua Távola, na qual o universo estava representado em três círculos, o da terra e sua atmosfera, o do sol, da lua e dos planetas e o das estrelas fixas, mesa que figurava o cosmo.

6. Talvez, como sugere B. F. Kampers, a mesa de Carlos Magno copiasse a célebre mesa de Salomão, feita, segundo a lenda, como o sacro catino genovês, de uma esmeralda gigantesca com trezentos e sessenta e cinco pés de comprimento e ricamente cravejada de pérolas e pedras, ou inteiramente de ouro, como o Graal de ouro fino e pedras preciosas de Chrétien, parte do lendário tesouro de Salomão levado a Roma após a queda de Jerusalém e depois caído em grande parte nas mãos dos reis godos, incluindo, segundo relatos francos, um orbiculus ou missorium, altar portátil de ouro maciço incrustado de gemas, e quando os sarracenos conquistaram o reino visigodo seu comandante Tarik teria perguntado pela mesa de Salomão logo ao entrar em Toledo, sendo informado de que estava guardada numa fortaleza do sobrinho do último rei godo, notável semelhança com o Graal guardado no castelo pelo rei ou seu sobrinho, mesa depois encontrada no Gibel Suleman, na cidade de Medinet Almaida, Cidade da Mesa, tesouro cuja memória sobrevive em contos árabes e romances espanhóis como tesouro gótico, e a carta do Preste João, conhecida de Wolfram, descreve uma mesa semelhante de esmeralda sobre dois suportes de ametista, cor verde significativa por ser em Wolfram também verde o achmardi sobre o qual se traz o Graal, harmonizando-se com sua natureza como cor da vegetação e da vida, como mostra a terra que reverdece quando Gauvain pergunta pela lança no castelo, e sendo no simbolismo eclesiástico cor do Espírito Santo ou da anima mundi e, na linguagem dos místicos, cor universal da divindade.

7. A esmeralda tem papel importante na alquimia por causa da célebre Tabula smaragdina, na qual a essência da obra alquímica estava inscrita em treze sentenças de Hermes Trismegisto, texto encontrado, segundo as mais variadas histórias, no túmulo de um rei egípcio ou numa estela e que remonta provavelmente, além de Gabir, a fontes mais antigas, talvez gregas, sendo a esmeralda considerada pedra de Hermes e descrita por Apolônio em Das Causas Primeiras como um jaqut, corindo, coagulado de início em vermelho, do qual pela intensidade da condensação surge o negro e depois a cor celeste, que, pela dureza, se retira para o interior, enquanto o vermelho puro aparece na superfície e se torna amarelo, até que o calor mistura violentamente o amarelo exterior e o azul interior e produz o verde, chamando-se então esmeralda, embora sua origem seja o jaqut, pedra aparentada ao ouro e raiz de todas as pedras preciosas, como o ouro é o mais nobre dos corpos fundíveis, que o fogo não afeta nem a lima desgasta.

8. Essa descrição contém as mudanças de cor da obra alquímica clássica, nigredo, rubedo, citrinitas e viriditas, e aproxima a esmeralda do ouro incorruptível, sendo para as pedras o que o ouro é para os metais, substância eterna e incorruptível, meta da obra, adquirindo nesse contexto o verde o sentido da própria vida, e nos textos alquímicos a benedicta viriditas, o verde bendito, é sinal do início da reanimação da matéria.

9. A mesa pode talvez relacionar-se, ainda que indiretamente, à função sensação, por portar alimento material e por representar, como mesa cósmica, uma percepção sensorial da realidade universal.

10. Feita de pedra, a mesa sugere a pedra do Graal e, servindo uma refeição comum ou ritual, sustenta a vida como o Graal, mas, como base de apoio do próprio Graal, tem nuance ligeiramente diversa, como na Philosophia reformata de J. D. Mylius, de 1622, em que quatro deusas sentadas a uma mesa redonda representam, segundo Jung, as quatro estações e os quatro elementos literalmente combinados em torno dela, estando a mesa mais associada que o vaso ao esforço humano de síntese da totalidade, que se exprime então no vaso, o Graal.

11. L. E. Iselin mostrou que o motivo de uma pedra mágica tem papel importante na tradição oriental como pedra fundamental do mundo e pedra angular, símbolo de Cristo, posta em Sião e rejeitada pelos construtores, gravada com o santo nome de Deus, exposta diante da Arca da Aliança no Templo, acompanhante dos filhos de Israel no deserto e, segundo se dizia, colocada por Josué, filho de Nun, sobre o túmulo de Cristo, tornando-se pedra de altar que dá vida a todos os homens por sustentar o corpo de Cristo como hóstia, transição da pedra de altar à mesa de altar facilitada por uma lenda oriental do século XI sobre uma pedra vermelha trazida pelos anjos do Sinai a Jerusalém para servir de mesa da Última Ceia, e na quinta surata do Corão os apóstolos perguntam a Jesus se Deus pode enviar-lhes uma mesa do céu, e Jesus pede uma mesa celeste que seja festa e sinal para os primeiros e os últimos e os alimente, prece atendida com a ameaça de severo castigo aos que depois permanecessem incrédulos, aparecendo um peixe como prato principal e sendo a mesa retirada por causa dos pecados humanos, tradição islâmica que reúne elementos do Graal como pedra e do papel da mesa, objeto milagroso que une os fiéis e atrai a ira divina sobre os incrédulos, símbolo do Si-mesmo que contém a síntese dos muitos e o elemento do juízo.

12. A mesa do sol teve papel importante já nos mistérios órficos, pois Proclo relata que Orfeu conhecia a cratera de Dioniso e fizera sentar muitos à mesa do sol, unindo-se simbolicamente vaso e mesa na alusão à iniciação dionisíaca, o que lembra a passagem de Hipólito sobre a taça de Anacreonte entre os naassenos, para os quais o mundo das formas criado por Deus com os quatro elementos é a taça, ligada portanto à realização do divino nos quatro elementos, enquanto a mesa sustenta a taça e em torno dela se sentam os que desejam participar de seu mistério, função de base do símbolo essencial do Si-mesmo que a equipara ao mito egípcio em que o piso quadrado do céu, uma lâmina de ferro, é sustentado nos quatro pontos cardeais pelas quatro colunas de Shu, deus do ar, em forma de mesa, colunas idênticas aos quatro filhos de Hórus que ajudam o avô Osíris a subir ao céu e tornar-se deus universal, pois, como diz Jung, os elementos opostos devem unir-se num esforço comum para ajudar o um a alcançar a totalidade, motivo semelhante à visão de Ezequiel do firmamento como cristal terrível estendido sobre as cabeças dos seres vivos, acima do qual há algo como um trono de safira e, sobre ele, uma figura semelhante a um homem.

13. A lâmina de metal de quatro pés sustenta a figura do Filho do Homem, imagem que reaparece no gnóstico Codex Brucianus, em que o Monogenes, o Unigênito, está de pé sobre uma mesa, e essa mesa e a lâmina de quatro rodas de Ezequiel formam o veículo ou a base do Si-mesmo empírico, cuja estrutura quaternária se assemelha ao fundamento da imagem de Deus, como se o Si-mesmo necessitasse da consciência individual, composta das quatro funções, como base de sua realização, já que a quaternidade, diferentemente do círculo, simboliza a totalidade refletida, razão pela qual a mesa, mais que o vaso, se liga ao esforço humano de tomada de consciência, pelo qual os aspectos dissociados da personalidade se tornam conscientes e se unificam, aparecendo sobre ela pela primeira vez um símbolo da divindade encarnada, o Filho de Deus ou, na história do Graal, o vaso maravilhoso, analogia feminina do Filho do Homem, e a atribuição de igual valor a ambos os aspectos reflete a percepção psicológica de que Deus não pode ser experimentado se este eu fútil e ridículo não oferecer um modesto vaso para recolher a efusão do Altíssimo.

14. Restam a considerar a travessa que figura em Chrétien e as duas facas de prata mencionadas por Wolfram.

15. Pouco se pode dizer sobre a travessa de prata da procissão do Graal, vista pelos defensores da teoria litúrgica como a patena ou o disco levado com os outros objetos na liturgia grega de São João Crisóstomo, enquanto no Peredur galês o Graal é substituído por uma travessa, discyl, aparentada a discus, que leva a cabeça cortada do parente do senhor do castelo a ser vingado, tendo-se sugerido também entender tailleor como faca, de tailler, cortar, já que em Wolfram duas facas de prata servem para raspar o veneno da ferida e na lenda de Fécamp, célebre por seu Santo Sangue, se mencionam facas com que Nicodemos raspou o sangue das feridas de Cristo, embora a opinião mais geral seja que tailleor significa travessa, e em Chrétien outra travessa de prata, profana, sobre a qual se trincha o cervo, aparece logo após a primeira.

16. A travessa poderia servir para levar a hóstia ao rei, e por ser de prata permite associação com a pedra alquímica no estado de albedo, quando é branca ou prateada como a lua, além de ser objeto redondo, símbolo do Si-mesmo como a pedra, mas, enquanto a mesa representa um aspecto mais coletivo do processo de conscientização do Si-mesmo, reunindo muitos numa refeição comum, a travessa ilustra uma aplicação mais individual da mesma função transcendente, pois dela cada um come sua parte da totalidade.

17. Wolfram explica que o rei enfermo sofria gravemente nas mudanças da lua, quando era tomado de frio e sua carne ficava mais gelada que o gelo, e então se aplicava a lança à ferida para que o veneno quente nela escorresse e retirasse o frio do corpo, aderindo à lança como gelo impossível de remover até que Trebuchet, o sábio ferreiro, forjou duas facas de prata para raspá-lo, única menção das facas no Parzival, explicada por alguns como equívoco de Wolfram, que teria lido tailleor, travessa, como tailler, cortar, e escrito facas de prata em lugar da travessa.

18. As facas aparecem, porém, em outra obra que pode ter tido papel específico, ainda que não reconhecido, no desenvolvimento da lenda do Graal, a lenda do Santo Sangue de Fécamp, baseada como a de José de Arimateia no Evangelho de Nicodemos, segundo a qual, na consagração da primeira igreja do mosteiro, um belo homem de cabelos brancos entrou e depositou no altar uma faca com a inscrição de que a igreja devia ser consagrada à Santíssima Trindade, provavelmente a mesma com que Nicodemos raspou o sangue, e na descoberta do sangue encontrou-se também um pequeno cilindro com um pedaço de ferro semelhante a parte de uma lança, o que esclarece por que no Parzival as duas facas de prata que raspam o veneno da ferida de Anfortas em seus piores momentos são levadas na procissão do Graal.

19. As facas ligam-se também à pequena lança ou faca em forma de lança da liturgia de São João Crisóstomo, em cuja preparação da comunhão, símbolo da imolação do Cordeiro, se corta do pão consagrado um pedaço quadrado marcado com uma cruz, cujas quatro partes frouxamente unidas simbolizam o Cordeiro de Deus a ser imolado.

20. Nas diversas versões as facas têm a função invariável de prosseguir ou completar a obra da lança, limpando-a ou limpando o corpo de Cristo do sangue que fluiu da ferida de Longino, parecendo em Fécamp feitas do próprio ferro da lança, e a faca, como a espada, representa uma função psíquica, o pensamento e o juízo discriminadores, cuja duplicação em Wolfram indica tratar-se de um pensamento ainda nascente, em parte idêntico ao impulso iluminador da lança que sobe do inconsciente ou apenas dele se separando, e, substituindo a espada partida do pensamento consciente tradicional, as facas representam um novo tipo de pensamento tirado do próprio inconsciente e por isso mais adequado a seus conteúdos que a mera reflexão consciente, atitude mental precursora da mentalidade alquímica e do pensamento psicológico dela derivado, destinada a eliminar a substância sanguínea venenosa do Rei do Graal e, no sentido mais literal, o sangue ressecado, a essência psíquica já ineficaz do símbolo de Cristo, novo modo de compreensão que, nas histórias escritas por poetas, foi considerado de ângulo puramente simbólico e apreendido visualmente ao emergir do inconsciente, enquanto os alquimistas se esforçaram por extrair da matéria, isto é, do próprio inconsciente, um sensus naturae ou luz da natureza e o pensamento simbólico e essencialmente psicológico nela contido, recomendando por isso trabalhar a cabeça, o crânio ou o cérebro humano para extrair dele o pensamento, simbolizado aqui pelas duas facas e destinado a proteger a lança ou imago Christi do resíduo ressecado, pois por trás da imago Christi está o Si-mesmo, e o que ele alcança é cultivado por um pensamento obtido pelo autoconhecimento e assim protegido do efeito esterilizante do intelecto.

21. Os objetos mais importantes vistos por Perceval no Castelo do Graal apontam, em seu sentido psicológico, para o processo de individuação como meta do caminho de desenvolvimento que lhe é destinado, e a experiência no castelo, sonho ou visão que lhe indica a direção da tarefa de vida, constitui o primeiro estágio de sua tomada de consciência, consistente na união deste mundo com o mundo além da consciência, no contato entre consciência e inconsciente e na integração da totalidade simbolizada pelo quaternário de objetos, enquanto, em sentido mais amplo, o próprio Perceval representa um análogo de Cristo, comparável ao homo altus ou homo quadratus dos alquimistas, alguém em quem a ação progressiva do Espírito Santo busca manifestar-se.