MATTHEWS, John. Sources of the Grail: An Anthology of Essential Writings. Edinburgh: Floris Books, 1996.
INTRODUÇÃO
A Busca pela Totalidade
1. No início do século XII, o poeta Chrétien de Troyes compôs um poema intitulado Il Conte del Graal (A História do Graal), que narra a busca empreendida por um jovem simples, criado longe dos modos dos homens, por um objeto misterioso conhecido como “Graal”, mas que, tendo ficado inacabado devido à morte do autor, criou um mistério que desde então instiga a imaginação de incontáveis buscadores.
2. Esse mistério se recusa a ser codificado, identificado ou fixado a um tempo ou lugar específico, e seus elementos seguem um padrão próprio — o Graal descrito como taça, prato, pedra ou joia; a presença de seu guardião, o Rei Ferido, que governa uma Terra Devastada; a Companhia ao redor do Rei; e os cavaleiros em busca que devem formular a pergunta correta para curar tanto o rei quanto a terra —, permanecendo, apesar dos milhões de palavras escritas anualmente sobre ele, um objeto de mistério, oculto e secreto, como escreveu Wolfram von Eschenbach em sua versão do mito.
3. O Graal pode ser muitas coisas — quase qualquer coisa para qualquer pessoa —, ou pode ser algo sem forma, ou com mais de uma forma, podendo até não existir nesta dimensão, sendo importante que ele forneça um objeto para a busca pessoal, para o crescimento e o desenvolvimento humano, pois, mais frequentemente, não é o objeto que os buscadores visam, mas as ações do Graal — a maneira como ele causa mudanças no coração, na mente e na alma.
4. Nas tradições relativas aos ensinamentos ocidentais de alquimia, isso se reflete no mistério que cerca a qualidade transformadora da Grande Obra, central no esforço do alquimista pela perfeição terrena, sendo a transmutação de metal base em ouro uma metáfora para a transformação do espírito humano — transformação que ocorre dentro do alambique do Graal —, de modo que aqueles que encontram o mistério nunca mais são os mesmos, pois são capturados em um quadro de existência inteiramente novo, não mais limitado pelo tempo e pelo espaço, e transformados pelo processo daquilo que encontram.
5. Trata-se de coisas elevadas, de um Mistério quase grande demais, mas do qual se pode aprender e crescer ao estudá-lo, compartilhando a aventura da Busca com aqueles povos distantes do mundo arturiano — que, na verdade, não são tão distantes assim —, pois, seja o que for, a história do Graal é, antes de tudo, puro mito e, como todos os mitos, está repleta de metáforas.
6. As primeiras histórias do Graal surgiram em uma época de extraordinário fluxo, quando grande parte do mundo ocidental passava simultaneamente por um renascimento cultural e um período de redefinição espiritual, e a crença de que uma das razões pelas quais o Graal se tornou um símbolo tão importante para a época contemporânea é o fato de também se atravessar um período semelhante de agitação cultural e reavaliação espiritual, redefinindo-se grande parte da consciência sobre a cultura, sua importância e relevância, o mesmo valendo para a espiritualidade, em um momento talvez sem igual na história em que se tem tanta fome de conhecimento transcendental — fato talvez não desconectado da extrema riqueza de tradições espirituais disponíveis —, sendo a tradição do Graal apenas um desses focos, que tem muito a oferecer por conter em si muito do que é relevante agora e que continuará relevante no próximo milênio.
7. A história começa em uma época distante, quando os povos celtas dominavam estas ilhas, e ouve-se falar primeiro de uma busca — a palavra “quest” ainda não era corrente — por um objeto misterioso conhecido como Caldeirão, às vezes descrito como Caldeirão da Inspiração, às vezes como Caldeirão da Vida e da Morte, às vezes como um caldeirão pertencente a uma pessoa específica, como o deus pai irlandês Dagda ou o deus galês do Submundo Arawn, mas a primeira vez que se ouve falar de alguém que vai em sua busca, esse buscador chama-se Arthur — não o Rei Arthur, mas Arthur o herói —, e assim começa uma história ainda contada, na qual Arthur e seus seguidores — ainda heróis, não cavaleiros de armadura brilhante — vão em busca de um recipiente misterioso cuja descoberta oferece a recompensa de inspiração, conhecimento, sabedoria ou vida, sendo o antigo poema galês Preideau Annwn datado do século IX em sua forma escrita, mas provavelmente remontando a uma época muito anterior, e cerca de trezentos anos depois, no início do século XII, quando as histórias do Rei Arthur e seus cavaleiros começaram a proliferar, ouvindo-se novamente falar dessa busca, e a história então olha tanto para trás quanto para frente.
8. Ainda se tem a busca pelo objeto misterioso, e, assim como no antigo poema galês, aqueles que o procuram ainda são Arthur e seus seguidores — agora Cavaleiros da Távola Redonda —, que enfrentam diversos perigos na forma de seres estranhos ou testes misteriosos que devem ser superados antes que o aspirante possa alcançar o mistério do Graal, pois assim ele é agora chamado, e ninguém sabe ao certo o que a palavra Graal significa, mas ele é quase sempre (com uma exceção notável) descrito como uma taça ou recipiente de algum tipo, embora agora seja o que está contido dentro do vaso que importa.
9. Em algum ponto entre a escrita do poema do século IX sobre a caçada a um Caldeirão mágico e os romances arturianos do século XII, o antigo vaso mágico passou a ser identificado com o Santo Graal — descrito variadamente como a Taça com que Jesus celebrou a Última Ceia e o vaso em que José de Arimateia (o “tio” de Cristo nos relatos apócrifos) recolhe parte do sangue que jorra das feridas de Jesus quando seu corpo é lavado em preparação para o sepultamento no túmulo do próprio José.
10. Dessa identificação emerge uma história complexa na qual José recebe o Graal e é instruído pelo próprio Cristo em seus mistérios — especificamente chamados de “segredos”, que não devem ser transmitidos a todos —, sendo o Graal conduzido por uma longa rota e por diversas mãos, da Palestina à Britânia, onde repousa por um tempo em Glastonbury, local em que um recinto sagrado é feito para contê-lo, do qual ele subsequentemente desaparece, para ser buscado depois por muitos que o consideram um objeto santíssimo e sagrado, cujo contato de algum modo transforma — ilumina, como se diria hoje.
11. A história conta agora que, através dos tempos, uma família particular recebe a tarefa de guardar o Graal, todos descendentes de José de Arimateia, alguns desempenhando melhor suas funções do que outros, e um deles — o Rei Pescador — teria falhado em sua tarefa a ponto de receber uma ferida terrível, que só se curará quando o Graal for alcançado, até quando ele é mantido em animação suspensa, com grande dor, mas ainda sustentado pelo Graal, sendo importante notar que, quando esse homem — o Rei do Graal, como se tornou nas histórias medievais — recebe sua ferida, a terra sobre a qual governa também se torna ferida, ou seja, torna-se estéril, infértil, quase morta, e só será restaurada à saúde quando o rei, guardião do Graal, for restaurado à saúde.
12. As origens dessa história remontam às brumas do tempo, pois em muitas culturas o monarca é sagrado e sua relação com a terra é vista como muito mais do que a das pessoas comuns, como na tradição irlandesa em que os reis literalmente “se casavam” com a terra, muitas vezes acasalando com o espírito de Eriu (Irlanda) na forma de uma mulher, e somente um homem perfeito em corpo e espírito podia ser rei, de modo que, na história do Graal, quando o rei falha em seu dever (as razões não importam aqui), ele é punido — recebe uma ferida que não cicatriza — e através dele a terra é envenenada, adoecendo como ele adoece, tornando-se infértil como ele é infértil (não sendo sem significado que a ferida seja sempre representada nos órgãos generativos), morta na medida em que ele está morto.
13. O cerne da história é que somente através do sucesso no alcance do mistério do Graal o rei — e, por meio dele, a terra — pode receber cura, e cada buscador individual precisa passar por uma rigorosa série de testes e provações antes de poder tentar o grande mistério, no qual apenas quatro — três homens e uma mulher — têm sucesso, e dois morrem na tentativa: uma, Dindrane, a irmã inocente de Perceval, entrega sua vida pela cura de outro; o outro, Galahad, o puro de espírito, renuncia à sua vida para entrar no estado de ser extático de unidade com a Divindade; os demais — Perceval, chamado de Perfeito Tolo, e Bors, que é o Homem Comum — percebem o mistério cada um à sua maneira e vivem para contá-lo, tornando-se Perceval o próximo Guardião do Graal — que, uma vez alcançado, torna-se disponível para o próximo buscador — e retornando Bors para casa a fim de contar as maravilhas.
14. Há outras dimensões na história, pois o próprio Graal só pode ser ativado pela formulação de uma Pergunta — a palavra “Quest” deriva da mesma raiz —, e, embora seja expressa de várias formas, a pergunta misteriosa é geralmente “A quem serve o Graal?”, tendo todos que o buscam de formulá-la — e respondê-la — mais cedo ou mais tarde, o que pode parecer estranho depois de ter viajado centenas de quilômetros, passado por inúmeras aventuras e provações e chegado por fim à presença do Rei Ferido e seu séquito de donzelas e jovens do Graal.
15. O Graal é conduzido pelo salão em procissão com a lança que pinga sangue, um grande prato raso e um candelabro ou uma espada, e o Rei Ferido é então alimentado com uma hóstia do cálice, e em algumas versões isso é tudo, enquanto em outras toda a companhia é alimentada com a comida que mais deseja, o que pode ser interpretado como alimento real ou espiritual, sendo o ponto que é ou o Rei do Graal ou a Companhia que são servidos, no sentido literal, pelo Graal, e a pergunta, então, por quê.
16. Em parte, é claro, trata-se de uma pergunta ritual, que exige uma resposta ritual que por sua vez desencadeia uma sequência de eventos — a cura do Rei e do Reino, a restauração da Terra Devastada —, e nos textos várias respostas são dadas: A quem serve o Graal? Ora, ao Rei do Graal, à Companhia do Graal, a todos os que o buscam, sendo esta última resposta a que mais interessa.
17. O Graal é aqui mostrado como uma porta, um ponto de conexão entre dois estados de ser — os que se podem chamar, por conveniência, de humano e divino, mundano e outro-mundano —, e todos os que buscam o Graal estão, em certo sentido, buscando um desses estados alternativos e o estado de bem-estar que deles deriva, o que se pode ver na própria forma mais frequentemente assumida pelo Graal, a de um Cálice, cuja parte superior é aberta para receber a efusão de bênçãos do reino espiritual, enquanto a metade inferior, haste e base, forma um triângulo apontando para cima que representa as próprias aspirações, e no centro os dois se encontram e se fundem, operando o Graal suas maravilhosas propriedades vivificantes — cada um é servido da maneira como o Rei Pescador é servido.
18. Isso só acontece em resposta à necessidade e urgência, ao impulso do Buscador, e a resposta é simples: o Graal nos serve conforme a maneira como o servimos, e, como o rei que serve a terra assim como a terra o serve, todos se encontram em relação semelhante ao Graal, com o próprio serviço, amor, esperança ou desejo sendo oferecidos, aceitos e transformados em pura energia, e, se tiver havido comportamento correto na busca, colhem-se as recompensas, o sustento divino do Graal, e, ampliando ainda mais, o serviço ajuda a transformar a terra em que se vive, caminha e tem seu ser, não precisando o Graal estar à vista, pois está presente ao redor, em cada ato de serviço, seja simbolicamente pelo rei ou pela terra.
19. Enquanto o rei e a terra sofrem, o Graal não pode passar abertamente entre nós, como se uma lacuna tivesse se aberto entre dois mundos ou estados de ser, deixando-nos excluídos, perdidos no crepúsculo à procura do poder radiante do Graal, ou, como sugerem alguns textos, habitando uma terra onde não há cálices, nem meios de expressar o próprio amor ou esperança pelo mundo que se habita.
20. Uma passagem de uma história moderna do Graal, War in Heaven, de Charles Williams, resume isso, pois nessa história, após muitas aventuras, chega o momento em que uma celebração da Eucaristia deve ser feita usando o próprio Graal como cálice, e, diante dele, um dos buscadores modernos reflete sobre sua longa e estranha história, dizendo: “Nem isto és Tu” e respondendo: “Contudo isto também és Tu”, considerando os cálices oferecidos em cada altar e percebendo novamente um movimento geral de todas as coisas em direção a um canal estreito, pois de todas as coisas materiais ainda descobríveis no mundo o Graal estivera mais próximo do Divino e Universal Coração, e céu, mar e terra moviam-se, não em direção ao vaso, mas a tudo o que ele simbolizava e continha, e através daquele portal toda a criação se movia.
21. Mesmo aqui, onde o Graal ainda é um objeto no fim da busca, permanece o fato de que o que ele simboliza é importante, não o Graal em si — “através daquele portal toda a criação se movia” —, permanecendo o objeto tão misterioso e “oculto” como sempre.
22. O que se deve entender de tudo isso é que o Graal nos serve na proporção de nosso serviço à terra e ao mundo ao nosso redor, não sendo algum artefato miraculoso, mas um princípio ativo desencadeado pelo anseio acumulado da humanidade por aquilo que um dia foi nosso — pelo estado perfeito de ser que ainda pode ser nosso —, sendo isso o que dá a aura de uma idade de ouro perdida ao reino e aos atos de Arthur.
23. Ao seguir os Cavaleiros da Busca pelas florestas aventurosas das lendas arturianas, veem-se muitas encruzilhadas que levam a diferentes lugares no mapa da jornada da alma, sendo quase todos os personagens de algum modo arquetípicos, assim como suas aventuras, sofrimentos e realizações, e seria errado considerar as histórias de modo demasiadamente literal, pois não são e nunca foram pretendidas como parábolas, embora se deva dizer, por equilíbrio, que os escritores medievais estavam muito mais conscientes do que escreviam do que às vezes se lhes credita, razão pela qual é preciso voltar aos textos o mais frequentemente possível — à sua variedade, complexidade e sutileza infinitas, onde se podem encontrar significados sempre novos.
24. Há outra história que fala de modo poderoso, também uma história do Graal, embora menos familiar que a maioria (um extrato do texto que a contém — The Elucidation — forma o Capítulo 4 desta coletânea), na qual se diz que muito antes da era de Arthur existiam vários poços sagrados que nutriam a terra e saciavam a sede de todos que a eles viajavam, e esses poços tinham guardiãs — as Donzelas dos Poços —, cuja tarefa era oferecer cuidado e refrigério a todos que ali chegavam.
25. Havia então um rei chamado Amangons, que concebeu um grande desejo por uma das donzelas e, quando ela não respondeu a seus avanços, violou-a e roubou a taça de ouro com que ela costumava oferecer água do poço aos viajantes cansados, e, ao verem o que acontecera, os homens de Amangons saíram pela terra e cada um tomou uma das Donzelas para si, despojando-a e a seu poço, e diz-se que, naquele tempo, a terra “perdeu as Vozes dos Poços”, pois as Donzelas costumavam cantar e profetizar a partir do espírito dos Poços, e que com essa perda veio um definhamento da terra e uma Devastação da Terra, de modo que isso é visto como parte da tradição da ferida desencadeada que deve ser corrigida.
26. A história diz que muitos anos depois, no tempo de Arthur, ele e seus cavaleiros encontraram os descendentes das Donzelas dos Poços e os seguidores de Amangons vagando na floresta, e juraram vingar o mal que fora feito e restaurar as vozes dos Poços, não contando a história se tiveram sucesso, mas dizendo-se que a Busca do Graal se tornou uma das tarefas empreendidas pelos homens de Arthur, do que se pode supor que, quando o Graal for encontrado e o Rei restaurado, os Poços também serão restaurados e a terra receberá de volta não apenas a vida, mas a água da vida — e as Vozes dos Poços.
27. Também nessa história podem-se ver muitas ressonâncias para o tempo presente e os caminhos pessoais, pois quem entre nós não vagou pelas Terras Devastadas ou sentiu a sede ressecante daqueles privados da água dos Poços, e quem não foi, ou ainda é, ferido em alguma parte do corpo, da mente ou do espírito e buscaria cura se pudesse encontrá-la, sendo o mundo um Planeta Silencioso (como o chamou C.S. Lewis), e, se se há de sobreviver e alcançar além de si mesmo, são necessárias as Vozes dos Poços — não para dizer o que fazer, mas para dizer o que já se está fazendo, oferecer conforto e apoio e apontar gentilmente um caminho a seguir.
28. Essas são as coisas que fazem do Graal um mito para todos os tempos, tão atual hoje como sempre foi, havendo muitas mais histórias do que há espaço nesta coletânea e muitas mais versões da história central, mas cada uma, à sua maneira, confirma o padrão do original.
29. Desde seu início no mito celta, passando por sua primeira configuração no século XI e desde então em inúmeras versões, as histórias do Graal permaneceram na vanguarda da literatura mística e forneceram inspiração e insight para muitos viajantes modernos na estrada da autoconsciência e da autorrealização, oferecendo as buscas dos cavaleiros do Graal — tanto bem-sucedidas quanto malsucedidas — ricos paralelos com as próprias jornadas, e não se poderia fazer pior do que estudá-las pela iluminação que podem oferecer.
30. A tradição do Graal é eminentemente um caminho iniciatório, como mostra Robert Crutwell em seu ensaio (ver página 419), e como caminho pode abrir portas para outros reinos do espírito, formando as histórias e mitos do Graal um comentário contínuo sobre a própria busca pessoal por absolutos, por totalidade em uma época de grande fragmentação.
31. O Rei Ferido — e a Terra Devastada — são curados por e através desses Mistérios, e o Graal se torna disponível para que o processo comece de novo, processo que ainda acontece hoje, permanecendo o mistério presente e acessível a todos — a todos que são buscadores, se desejarem assumir a Busca.
32. É isso que tornou o Graal relevante então, que o torna relevante hoje e que continuará a torná-lo relevante no futuro, pois somente nesse tema — além de outros não abordados aqui — há uma corda à qual todos podem responder em algum grau: porque todos estão feridos e porque todos feriram a terra — o chão em que vivemos — em algum grau, e todos gostariam de encontrar cura, em qualquer forma que venha, e ver a terra curada também.
33. Quando, alguns anos atrás, foi editada uma coletânea de ensaios de várias mãos, cada um buscando traçar um aspecto do Graal em termos contemporâneos, ela foi chamada At the Table of the Grail porque é assim que se vê todos os que empreendem a busca — como sentados juntos a uma grande mesa invisível para compartilhar suas realizações —, e nesse livro foi citada uma passagem do romance do século XIII Perlesvaus, que parece dizer muito sobre as razões da busca, agora tanto quanto então.
34. A cena se passa não muito depois da era arturiana, e o Castelo do Graal, onde tantas coisas estranhas e maravilhosas aconteceram, é descrito como arruinado e vazio, um lugar de fantasmas, com sua outrora sagrada e misteriosa natureza já começando a ser esquecida, e a esse lugar chegam dois jovens cavaleiros em busca de aventura, ao modo dos antigos heróis da Távola Redonda: “Eram de fato belos cavaleiros, muito jovens e animosos, e juraram que iriam, e cheios de excitação entraram no castelo. Ficaram lá por muito tempo, e quando partiram viveram como eremitas, vestindo cilícios e vagando pelas florestas, comendo apenas raízes; era uma vida dura, mas os agradava grandemente, e quando as pessoas lhes perguntavam por que viviam assim, respondiam apenas: 'Vão onde fomos, e saberão por quê.' (Traduzido por Nigel Bryant)”
35. Essa é exatamente a experiência das muitas pessoas que têm “ido lá” desde então, buscando o objeto misterioso do qual ouviram relatos tão maravilhosos — mais frequentemente falhando, mas às vezes descobrindo coisas sobre si mesmas e seu próprio estado interior.
36. O Graal é um símbolo para agora tanto quanto para qualquer época — um símbolo contemporâneo de uma aspiração totalmente atual —, e o Rei — chame-se Arthur, Cristo ou Alma do Mundo — está ferido por nós e para nós, e essas feridas atingem a todos, e quando forem curadas todos também seremos, sendo a mesma história, uma história totalmente simples: o Graal nos serve; nós servimos o Graal; ele nos curará quando o usarmos para curar as feridas da criação.
37. E o maravilhoso é que cada um de nós já está engajado nessa busca, cada um tem a chance de redimir o tempo em que vive, de despertar o Rei Adormecido, de trazer de volta às flores a Terra Devastada, sendo todos de fato “graais” em algum grau, e o verdadeiro objeto da Busca reside em fazer de si mesmo vasos para a luz que trará essas coisas.
38. Só então cada um poderá ser curado, o Rei Pescador interior recuperará sua força para que a terra possa florescer, e quando esse momento chegar não haverá mais necessidade de um Graal, pois ele estará em toda parte ao redor, não mais oculto, mas abertamente reconhecido — sua presença sentida em cada partícula do próprio ser —, como escreve outra autora contemporânea, Vera Chapman: “Como uma planta que morre no inverno e guarda suas sementes para crescer de novo, assim você… deve erguer a linhagem da qual todos os verdadeiros seguidores de Arthur hão de crescer — não por uma dinastia real, mas espalhando-se desconhecida e despercebida… Nomes e títulos se perderão, mas a história e o espírito de Arthur [e do Graal] não se perderão. Pois Arthur é um espírito e Arthur é a terra da Britânia. Assim Arthur conquistará, não pela guerra, nem por uma realeza que logo passa, mas pelos portadores do espírito que não morre. (The Three Damosels)”
39. Todos são portadores desse espírito, e, ao buscar a realidade interior do Graal por trás dos símbolos e histórias, toma-se parte em um trabalho contínuo sem o qual tudo o que se tem de mais caro há muito teria perecido, e, se as pessoas olharem de través enquanto se vagueia pelo mundo com um olhar estranho nos olhos, só se tem a dar a mesma resposta daqueles cavaleiros que visitaram o Castelo do Graal em ruínas: “Vão onde fomos, e saberão por quê.”
40. Este livro destina-se a ser lido cronologicamente — embora o leitor tenha liberdade de percorrê-lo à vontade —, e por essa razão seguiu-se geralmente o princípio de colocar os textos primeiro com os comentários em seguida, a fim de permitir que o leitor se familiarize com os textos antes de ler os comentários, sendo os próprios textos colocados cronologicamente (onde as datas são conhecidas) para mostrar o desenvolvimento da história do Graal ao longo da Idade Média, com a matéria introdutória própria, encontrada no início de cada uma das três seções, visando situar as histórias em contexto e, onde necessário, torná-las mais facilmente compreensíveis, e, no caso dos textos mais obscuros ou complexos, também foram fornecidos breves resumos para dar ao leitor alguma ideia de onde, dentro da estrutura do todo, se encontra o extrato aqui impresso, sendo alguns desses comentários escritos por Robert Jaffray e provenientes de seu excelente livro King Arthur and the Holy Grail, do qual um outro capítulo, “Glastonbury and Fécamp”, aparece como Capítulo 18 desta coletânea, e os demais escritos por John Matthews e indicados pelas iniciais J.M., enquanto os de Jaffray pelas iniciais R.J.
41. Os ensaios e artigos aqui impressos datam de um período considerável, durante o qual os vários textos frequentemente se tornaram conhecidos por títulos diferentes, e indicou-se ao longo da obra onde estes diferem das formas atualmente aceitas, de modo que, por exemplo, o texto conhecido como Perlesvaus também foi, em várias épocas, referido como Perceval le Gallois e The High History of the Holy Graal, e, de modo semelhante, alguns dos autores medievais sofreram mudanças de ortografia, de modo que Chrétien de Troyes é às vezes referido como “Chrestien”, tendo-se mantido essas grafias ao longo da obra conforme seus autores originais pretendiam, pois isso não interfere na compreensão dos textos.
42. Naturalmente, a leitura desses fragmentos e resumos não substitui a leitura dos textos originais em sua integridade, estando a maioria deles agora disponível em boas traduções modernas, e incluindo-se uma generosa seleção na seção sobre “Leituras Adicionais” ao final do livro, na esperança de que aqueles que apreciam e sentem o poder dessas histórias sejam encorajados a olhar mais longe e começar por si mesmos uma exploração mais profunda da história do Graal.