6 Rei

O REI SACERDOTE E O GRAAL

1. A demanda do Graal é também a demanda do Paraíso, como mostram as imagens associadas ao templo e à terra que o cerca, e o Rei do Graal ou Rico Pescador, qualquer que seja o título que se lhe dê, é também sacerdote, pois oficia a Missa em que o Graal serve de cálice e identifica-se com Cristo, verdadeiro Rei do vaso, mistério que separa o Graal da Igreja estabelecida, assim como suas propriedades declaradamente místicas transcendem a interpretação cristã em que o encerraram os romancistas ocidentais que puseram as histórias por escrito, embora por trás disso haja muito de origem não cristã, já que o influxo de ideias e cultura do Oriente, por intermédio dos cruzados e dos trovadores que os acompanhavam, trazendo histórias e canções exteriormente cristianizadas, teve efeito duradouro na formação da lenda do Graal.

2. Mesmo durante esse intercâmbio, o Oriente permanecia em grande parte desconhecido, barreira para terras ainda mais estranhas e talvez maravilhosas, e o Paraíso, entendido como lugar real, era geralmente situado no extremo oeste ou, mais provavelmente, no Oriente, de modo que, quando começaram a chegar notícias de um reino cristão além das terras do islã, muitos acreditaram tratar-se do Éden perdido, o Jardim das Delícias Terrenas, o Reino Bem-Aventurado onde crescia a Árvore do Conhecimento e brotava a Fonte da Vida, cujo soberano, à medida que se soube mais sobre ele, recebeu o nome de Preste ou Presbítero João, ao mesmo tempo sacerdote e rei.

3. Um certo bispo Hugo de Jabala levou a Roma em 1145 as primeiras notícias do Preste João, relatando uma campanha vitoriosa dele contra os muçulmanos, o que causou grande comoção num Ocidente mais habituado a ouvir falar de derrotas diante das forças islâmicas, mas só em 1165 o Ocidente tomou conhecimento direto do grande soberano cristão, quando foi entregue ao papa Alexandre III uma carta em que o Preste João, rei pela graça de Deus acima de todos os reis cristãos, saudava como amigos o Imperador de Roma e o Rei da França e descrevia em detalhe a situação e o governo de sua terra, de seu povo e de seus animais, sem deixar dúvida sobre o esplendor e a importância desse império cristão do Extremo Oriente até então insuspeitado.

4. A descrição é surpreendente, pois a terra abrigaria pigmeus, unicórnios e a fênix, além de uma multidão de criaturas ainda mais estranhas, com dois rios cheios de pedras preciosas e abundância de vinho, pão, carne e tudo o que é bom para o corpo humano, e dentro do palácio haveria água e o melhor vinho do mundo, que tiram de quem os bebe todo desejo das coisas mundanas e cuja origem e destino ninguém conhece, detalhes muito semelhantes à abundância de bens proporcionada pelo Graal, completados por outra grande maravilha, a de que no palácio nenhum alimento é servido senão numa travessa pendente de uma coluna, sendo a comida posta diante dos convivas pela graça do Espírito Santo, imagem que, bastando substituir travessa por Graal, coincide quase exatamente com as histórias do Graal.

5. Quanto à identidade do Preste João e à origem da Carta, várias teorias foram propostas, como a de que seria Gengis Khan, ou o Negus da Etiópia, cujo título, Zan, pode ter sido mal traduzido por mercadores franceses ou italianos como Jehan ou Gianni, ou lido como Zanni, João em veneziano, ou ainda um soberano maniqueísta chamado Yeh-lu Ta-shih, também chamado Gur Khan, que liderou um exército contra o sultão seljúcida Sanjar e ganhou fama imortal como opressor dos muçulmanos, mas o Preste João partilha características de todas essas figuras sem que haja provas que o liguem a uma única personagem histórica, parecendo ter surgido quase espontaneamente como encarnação do desejo ocidental de um estado paradisíaco perdido governado por um senhor benigno e sábio, enquanto um relato anônimo posterior à Carta sugere sua ligação com o apóstolo Tomé, que teria ido à Índia como missionário pouco depois da crucificação e ali fundado a Igreja nestoriana, seita dissidente de cristãos primitivos que estabeleceu colônias primeiro na Síria e depois na Índia e na China, contato que talvez explique a identificação do reino do Preste João com a Índia.

6. Esse relato anônimo descreve a visita a Roma, em 1122, de um certo Patriarca João e conta pormenores de seu ministério e de sua pátria, uma grande cidade de muralhas tão largas que dois carros podiam correr lado a lado sobre elas, atravessada pelo rio Fison, que nasce no Paraíso, e perto da qual se ergue uma montanha encimada pela igreja do apóstolo São Tomé, cercada por um lago em cujas margens se situam doze mosteiros cheios de monges piedosos, cujas águas só baixam uma semana antes e uma semana depois da festa do santo, permitindo o acesso ao santuário central, onde pende do teto, presa por correntes, uma urna de prata contendo o corpo incorrupto do santo, que nessas ocasiões é descido e colocado numa cadeira, de onde, no ápice da Missa, o próprio São Tomé distribui a Hóstia de um prato de ouro, beneficiando os verdadeiros fiéis e fazendo os hereges que comungassem arrepender-se ou cair mortos.

7. Essa história apresenta tantos paralelos com a do Graal que dificilmente deixa de ter sido fonte indireta de detalhes presentes nos romances, pois reúne todos os seus elementos, o templo no alto de uma montanha cercada de água, o vaso com uma relíquia sagrada, os acontecimentos miraculosos que se repetem regularmente na mesma época, a bênção dos verdadeiros adeptos e os efeitos funestos sobre os demais, lembrando até os doze mosteiros em torno do lago a Távola Redonda com seus doze assentos originais, enquanto o vaso suspenso por correntes evoca a bacia mágica da história de Yvain, que provocava tempestade quando sua água era derramada sobre uma esmeralda, e outro objeto semelhante no Mabinogi de Manawydan, filho de Llyr, onde o herói Pryderi, identificado por alguns estudiosos com Perceval, entra num castelo misterioso e encontra uma fonte cercada de mármore e uma bacia de ouro presa a quatro correntes que se estendem para o alto sem fim visível, e ao agarrá-la fica com as mãos coladas à bacia, os pés presos à laje e a fala tolhida, imóvel e sem poder dizer uma palavra.

8. Também aí o cenário é o do Outro Mundo, pois o castelo onde Pryderi entra em busca de um animal mágico é uma imagem do Paraíso céltico, assim como o reino do Preste João, terra de abundância dividida em quatro partes por seus rios, habitada por um povo cristão e gentil e por animais curiosos, que contém a Árvore da Vida e uma fonte em que quem se banha vive cem anos conservando a aparência de trinta e dois, tendo o próprio Preste João se banhado nela seis vezes e alcançado 562 anos, o que evoca de novo o Graal, cuja simples visão basta para prolongar a vida.

9. Nenhum lugar seria mais apropriado como morada terrena do Graal, às vezes chamado lapis exulis e interpretado como o desejo do Paraíso, do que essa terra de ninguém espiritual entre este mundo e o outro, ligeiramente afastada da realidade mas ainda historicamente atestada, e é justamente aí que Wolfram o situa, por inferência se não de fato, ao fazer do Preste João o guardião final do Graal, seguindo seu hábito de tomar elementos de fontes orientais e inseri-los num quadro cristianizado, revelando claramente sua simpatia pelo islã e oferecendo ao mesmo tempo sua própria versão da origem do Preste João.

10. Gamuret, pai de Parzival, põe-se a serviço do islã como mercenário por encontrar ali a satisfação de sua necessidade de uma cavalaria espiritual perfeita que o serviço a um senhor ocidental não lhe proporciona, e tem com Belacane, mulher muçulmana descrita como negra como a noite, um filho chamado Feirefiz, meio-irmão de Parzival, cuja mãe, Herzeloyde, é dita clara como a luz do sol, de modo que, desposando ambas, Gamuret reconcilia o escuro e o claro e, por extensão, o Oriente e o Ocidente.

11. Feirefiz, embora muçulmano, é retratado quase tão nobre quanto Parzival, e é espantoso que Wolfram considere um pagão capaz de aproximar-se de uma meta que muitos cristãos não alcançavam, permitindo-lhe chegar ao castelo do Graal, ainda que, não sendo batizado, não consiga ver a pedra quando ela é trazida ao salão, tendo olhos apenas para a donzela do Graal, filha do Rei Ferido, e perguntando, quando lhe explicam a situação, se aquele é o Deus dela e se, aceitando esse Deus, poderá desposá-la.

12. Ao saber que sim, Feirefiz aceita o batismo, numa forma muito estranha, pois uma pia batismal colocada diante do Graal enche-se de água, talvez a aqua permanens, a Água da Vida, conceito alquímico e também de tempos muito mais antigos, quando o caldeirão e não a taça era objeto de reverência, e no Graal, ponto de referência supremo abaixo de Deus, aparece uma mensagem de tolerância para com outras raças e credos, incluindo, pelo lugar que ocupa na narrativa, os muçulmanos, determinando que todo membro da Companhia do Graal a quem Deus conceda domínio sobre um povo estrangeiro não lhe fale de sua raça nem de seu nome e zele para que obtenha seus direitos.

13. Feirefiz e a filha do Rei do Graal se casam e seu filho é o Preste João, que governa seu reino com um cetro de esmeralda, ligado assim diretamente à família do Graal e tornado com o tempo guardião do Vaso Sagrado, que é então transportado para fora deste mundo, ao reino do espírito, onde permanece, sendo o verdadeiro tema do Parzival a reconciliação de cristãos e muçulmanos num estado além de suas diferenças, um Paraíso onde ambos possam viver em paz.