Merlin

MATTHEWS, John. The book of Merlin: magic, legend and history. Gloucestershire: Amberley Publishing, 2020.

Introdução

A vinda de Merlin

1. A imagem familiar de Merlin como mago de chapéu pontudo, manto estrelado e cajado, habitante de uma caverna de cristal que vive o tempo às avessas e rejuvenesce diariamente, resulta da combinação de representações medievais e modernas, enquanto suas raízes remontam ao século V, quando surge como guerreiro, profeta e xamã, assumindo posteriormente as figuras de mago medieval, alquimista, sábio e amante desolado, reunidas nas numerosas recriações contemporâneas.

2. Apesar de sua celebridade no mito, na lenda e na literatura, Merlin permanece uma figura enigmática do universo arturiano, cuja compreensão depende das antigas narrativas célticas frequentemente esquecidas ou negligenciadas, pois, embora as lendas de Artur tenham recebido influências francesas e alemãs, o mito de Merlin em sua forma mais pura provém inteiramente de tradições nativas da Britânia anteriores a essas elaborações escritas.

3. Nas narrativas posteriores, a Távola Redonda constitui a grande visão de Merlin, idealizador de uma sociedade de iguais que acaba destruída pelas disputas entre os cavaleiros, pelo amor ilícito de Lancelote e Guinevere e pelo ressentimento de Mordred, filho incestuoso de Artur, tornando compreensível seu abandono do convívio humano e seu recolhimento a um observatório celeste dedicado ao estudo dos astros.

4. A permanência de Merlin na imaginação contemporânea manifesta-se em personagens como Obi-Wan Kenobi e Yoda, de Guerra nas Estrelas, Gandalf, de O Senhor dos Anéis, e Dumbledore, de Harry Potter, assim como em novas produções televisivas e cinematográficas que o apresentam como xamã, combatente pela liberdade ou mago excêntrico que orienta um menino moderno a tornar-se Artur.

5. Poucos anos depois de suas primeiras aparições na literatura e na tradição, Merlin transforma-se de descendente demoníaco do inferno em um ser sábio e benfazejo, cujas ações e finalidades, raramente reveladas por completo, sugerem uma influência contínua nos assuntos humanos, imagem que permanece predominante.

6. A multiplicidade das figuras de Merlin, compreendido como personagem histórico, criação literária e sobretudo portador de ideias e sonhos ainda mobilizadores, sustenta um fascínio continuamente renovado por livros, filmes e peças teatrais, cuja persistência atravessa as tendências passageiras e conserva no século XXI a força de atração de suas origens no século V.

7. A compreensão de Merlin beneficia-se das diferentes perspectivas de Bob Stewart, Robin Williamson e Gareth Knight, das experiências de um grupo dedicado à exploração de sua magia no País de Gales no início do século XXI e da colaboração de Caitlin Matthews, cuja leitura crítica, conhecimento e orientação no estudo dos poemas enigmáticos atribuídos a Myrddin se somam à tradução de “Peiryan Vaban” (“Jovem que comanda”), incorporada ao conjunto desses poemas.