O método de Hedwig von Beit é muito semelhante ao de Marie-Louise von Franz; sua interpretação de Branca de Neve (n° 53) é característica do espírito dessa escola.
Von Beit aproxima as três cores de Branca de Neve — preto, branco, vermelho — das três cores do processo alquímico: o corvo e a pomba, depois a abertura do caixão, que corresponde à abertura do athanor, estágio denominado rubedo.
O espelho — em uma variante indicada por Bolte e Polivka, um cão — representa o instinto que lembra verdades superiores; segundo Jung, o espelho não lisonjeia, mas mostra o rosto que cobrimos com a persona, máscara de ator: “é a primeira prova de coragem no caminho interior, prova que basta para fazer recuar a maioria das pessoas.”
O caçador sacrifica um animal em vez de matar a jovem: apenas o aspecto instintivo é reprimido, enquanto a alma é repelida no inconsciente, simbolizado pela floresta.
Narrativas paralelas colocam em cena um velho ou um “homem selvagem” em vez dos sete anões, representando uma imagem paterna; os anões expressam forças inconscientes e um aspecto pouco desenvolvido do animus — como o anthroparion, ou homenzinho de metal que, do fim da Antiguidade até o final da Idade Média, era suposto assombrar as minas e representava os metais alquímicos, particularmente o mercúrio ressuscitado.
O número 7 liga os anões aos metais e aos sete planetas, frequentemente associados a uma oitava figura feminina; Branca de Neve pode ser comparada à irmã dos sete corvos no KHM de mesmo nome (n° 25); a Sophia dos sistemas gnósticos é frequentemente acompanhada por sete filhos, o conjunto formando uma ogdoade; o septenário expressaria o processo de transformação em direção ao octonário, simbolizando a realização e a totalidade.
Em uma versão argelina, Branca de Neve casa-se com o mais jovem dos sete gênios; se há um erotismo latente, a ideia é que uma aproximação precipitada paralisaria todo desenvolvimento e a possessão prevaleceria sobre a liberdade do contato.
Branca de Neve se põe a serviço dos anões — como a mulher de Drosselbart (n° 52) estava a serviço de seu marido —, o que significa que ela trabalha em seu inconsciente como a mulher trabalha no problema que seu animus lhe coloca.
O espelho envia a madrasta tentar Branca de Neve com objetos que lisonjeariam a vaidade — alfinete de cabelo, anel, sapatos, brincos, colar, vestido, chapéu —, o que denota que a jovem tem um ponto em comum com a madrasta: seu lado noturno, sua sombra, que mata sua verdadeira personalidade.
A maçã — uma esfera, imagem do Si-mesmo — é apresentada inicialmente sob seu aspecto negativo; como segundo muitas versões Branca de Neve nasceu de uma maçã, a significação desse fruto como Si-mesmo aparece mais evidente; as cores branca e vermelha da maçã lembram as cores alquímicas da conclusão da obra, pois segundo os adeptos o lumen novum sai do dragão que come sua própria cauda, sendo ao mesmo tempo “veneno e remédio”.
A oferta da maçã significa a união simbólica das duas partes da personalidade além do Si-mesmo; a essa morte aparente sucede um renascimento e uma maturidade, tornando possível o encontro com o príncipe — o animus propriamente dito.
Considerada do ponto de vista da psique masculina, a história é a da busca da anima retida nas redes da má mãe; a persona, essencialmente exterior, tende a se opor à anima, personalidade interior, como sistema de relações entre a consciência individual e a sociedade.
O caixão de vidro é a imagem da alma ainda não despertada, retida pelo inconsciente — sono que recorda as concepções das religiões de mistério da Grécia: uma parcela da divindade dorme na matéria e será despertada por um salvador vindo de longe; o KHM do Caixão de Vidro (n° 163) apresenta estrutura análoga.
O príncipe de Branca de Neve vem de um lugar impreciso onde não existe separação entre o consciente e o inconsciente, o interior e o exterior; os servos que carregam o caixão tropeçam — o que faz pensar no lapso que desencadeia um choque psíquico, no despertar brusco da anima durante uma súbita tomada de consciência.
Em algumas variantes e em A Bela Adormecida (n° 50), a heroína dá à luz uma criança durante o sono, graças à qual despertará — trata-se da gravidez da alma no inconsciente, cuja criança aparece sob a forma do Si-mesmo.
A morte da madrasta descreve o fim da persona do homem ou a sombra da mulher.