Em trecho intitulado “Traços de crenças pagãs”, os autores observam que o instinto poético obscureceu os mitos mas que sua significação ainda aparece aqui e ali, e identificam como sinal de antiguidade dessas origens o fato de que nos contos toda a natureza é animada.
Segundo os antigos povos pagãos, o sol, a lua e as estrelas são habitados por uma natureza espiritual e podem conceder dons e auxílio quando rogados.
O cavalo Falada fala nos contos; os corvos fazem predições como os de Odin — atributos de poderes superiores análogos aos do paganismo.
A mistura do humano e do animal, corrente no paganismo, aparece no simbolismo das jovens transformadas em cisnes, lembrando o canto de Wölund e os Nibelungen.
Elementos como a faculdade de tomar formas diversas, a oposição do Bem e do Mal, o preto e o branco, a descida ao mundo subterrâneo, o tesouro dispensador de benefícios materiais e espirituais, a árvore e a água da vida — tudo isso se encontra na mitologia germânica.
Os contos em que três irmãos são postos à prova e o mais jovem se mostra o mais capaz são comparados pelos irmãos
Grimm ao relato de Heródoto sobre os filhos de Targitaus e às três Trimurti, entre as quais Deus repartiu o mundo de tal modo que apenas um obtenha o poder supremo — preservando a ideia de um deus único.
A montanha de ouro ou de vidro dos contos populares é identificada como montanha dos deuses dos mitos antigos.
O céu descrito em Marienkind (n° 3) — soberba casa de ouro com doze portas mais uma décima terceira proibida — lembra o Gladsheim brilhante como o ouro, com seus doze tronos aos quais se acrescenta o de Odin.
Frau Holle (n° 24), comparável à deusa nórdica Sif, faz pentear os cabelos — isto é, distribui os raios do sol sobre a terra.
Os autores distinguem contos de origem pagã e contos de conteúdo visivelmente cristão — como Marienkind (n° 3) e A Jovem sem Mãos (n° 31) —, mas em ambos os casos falam de seus contos como de algo sagrado.
Os irmãos
Grimm compartilham com outros pesquisadores da época romântica a tendência a crer numa tradição primordial, citando representantes marcantes dessa corrente: Johann Arnold Kanne, Joseph Görres e Friedrich Creuzer.