Distinguir conto, gesta e mito em função dos temas é um esforço condenado ao fracasso, pois esses temas parecem ser os mesmos em todos os três gêneros, e determinar a anterioridade de um sobre os outros é um projeto que talvez nem mesmo faça sentido.
Nunca se pôde estabelecer que um conto inteiro derive de um mito bem preciso, nem o inverso; os vestígios de mitos nos contos não provam muito sobre a origem histórica do conto como gênero.
Ver no conto fontes indo-europeias é pouco aceitável, já que os mitos persistiram muito depois da civilização indo-europeia.
Heda Jason propôs um denominador comum — o “fabular” —, que aparece no mito como criador e pré-humano, na gesta como numinoso, na lenda como miraculoso e no conto como maravilhoso — fascinosum, mas não tremendum; o mundo maravilhoso do conto aspira a ser humanizado, enquanto os milagres das lendas atraem o homem para a esfera do sagrado.
Na gesta o homem é tocado pelo extraordinário, na lenda é portador do sagrado, no conto é o personagem ativo impulsionado por milagres; no mito, nem sequer é necessário que o homem apareça — os próprios animais podem ser deuses.
O ponto de partida do mito se coloca no coração do Totalmente Outro, fora de um tempo e um lugar situáveis — o que explica que ele possa ser recuperado como modelo para toda temporalidade, pois os processos temporais só aparecem como repetições de eventos míticos originais.
Entre os povos ditos primitivos, mito, gesta, fábula, relato jocoso e conto coexistem tanto mais facilmente quanto é difícil separar o sagrado do profano — e os etnólogos às vezes ainda os confundem, crendo ouvir um mito quando se trata de um conto, ou vice-versa.
O termo híbrido Mythenmärchen — conto-mito — designa uma história que mistura indistintamente homens e animais e que, para um povo, se situa no início da cultura; seria em parte relato explicativo, em parte mitologia, em parte história cultural — a forma mais antiga do conto e do mito, e mesmo de todo relato; os Mythenmärchen seriam Urmärchen a partir dos quais se constituíram as velhas lendas germânicas, enquanto os Märchen propriamente ditos — ditos des-heroizantes — só apareceriam no século XII.
Segundo alguns autores, o conto precede o mito; segundo outros — opinião largamente difundida —, “o conto é o filho do mito, mas gerado por ele no momento em que morre ou após sua morte”.
No fundo, tudo se passa como se a distinção entre mito e conto ocorresse cada vez que o sagrado se separava do profano — separação que não se efetua ao mesmo tempo em todos os povos.