Diogo de Melo, ao chegar de Azamor, vê casada a senhora do seu coração e compõe uma poesia em torno da ventura e dos seus enganos e desenganos.
Com o tempo, mudam as coisas; hoje visita-nos a ventura e amanhã seremos desventurados.
“Ai de quem alcança, para depois o perder! Mais convém nada desejar.”
D. João de Meneses escreve: “Ditoso de quê vyver lyvre fora d'esperança, diguo eu sem no saber, coytado de quem alcança, ganhala para a perder. Poys tudo tam pouco dura, seguro que ná segura nam no quero de ninguém, nem desejo nenhû bem com despreços de mestura.”
Tudo passa e o durar pouco dura.
Pelo que já foi, Luís da Silveira julga o porvir; o tempo tudo altera, traz cuidados que farta, faz e desfaz mil vontades; das mais firmes, “nam duraram / antes loogo se mudaram”; pois a tudo há-de acontecer o mesmo, passam as coisas de agora como já passaram as de antigamente.
De tudo a Fortuna faz outra coisa.
Os meus anos levou-os o tempo, deixando-me mais descontente da vida que da morte; pois choro o mal presente e o bem que perdi; depois de morrer, descansarei.
Como nota “mestre Gil”, o tempo tem tanta força que faz do servo isento, faz liberal o avarento, do avarento faz perdido, do perdido faz sedento.
O tempo traz encobertos os desenganos e, por conseguinte, vive-se de aparências.
A morte assinala o termo da vida, pois breves são os dias: breves e trabalhosos.
Passa a felicidade e a glória; felizmente, embora os poetas se abstenham de o dizer em voz tão alta, o mal também passa: “En’esta vyda mortal nom ha hy prazer que dure, nem menos tamanho mal que por tempo nam se cure. Assi bem aventurados casos bem acontecydos, com'a outros desastrados, tam çedo como passados, sam de todo esqueçidos; he hüa rregra geral nam aver hy bem que dure, nem menos tamanho mal que por tempo se nam cure.”
Só na mudança é o mundo constante, sublinha Diogo Fogaça: “O mundo faz movimento, pero nunca he movido, do ganhado faz perdido, do perdido guanhamento. Faz sobyr, e faz cary do mays alto o mays perfundo, poys nam prasme que me vir, que assy entrou o mundo, e assy ha de sayr.”
Ao tempo, com antes, agora e depois, acontece o mesmo; uma coisa mede-se pelo que é e pelo que há-de ser.
Tão rapidamente se sucedem as realidades umas às outras que tudo parece ilusão: “Passa tão sem vagar, o folgar, nesta curta vida, que he falso todo prazer.”
Aceite-se o bem e o mal sem preocupações maiores, pois tudo passa: “Tudo se pode perder, naada nam pode duraar, e quem nisto bem cuydar, nem folguaraa com prazer, nem sentirá o pesar.”
Dói o bem passado; os poetas repetem este pensamento: passou, já não existe, foi morrendo até morrer de todo; ser temporal equivale a ser irreal ou quase; desfaz-se tudo em castelos de vento.
Nuno Pereira exclama: quem sonhara um sonho feliz e nunca dele acordara!
Porém tudo passa, mesmo a vida, embora não se saiba quando: “nam sey quand’ey de morrer.”
Francisco Mendes de Vasconcelos resolve meter-se frade: “Vede bem a brevidade da vida em que vivemos, e vede a vaydade do prazer que nela temos. Olhay bem cam pouco dura nela bem, e vede quanta tristura sempre tem.”
Chega-se ao “vanitas vanitatum” da Bíblia; o que passa é como se não existisse.
Luís Silveira condensa em versos portugueses as páginas desencantadas do Eclesiastes: tudo é vaidade, tudo se modifica e tudo acaba por aborrecer; uma geração vai, outra vem e nada de novo apesar de tantas mudanças; o que foi, será; esvai-se o tempo ao compasso dos dias, horas e minutos; quase tudo esquece; eu, Salomão, gozei de todas as maneiras, porém tudo era ilusão; a morte a todos iguala; por toda a parte, mudanças mil e mil desvarios; todos descontentes, uns chorando pelo passado, outros pelo presente; bem-aventurados os que nunca nasceram.
A vida, a mudança e o tempo, tudo é um; nada vale a pena.