PROPP, V. Historical roots of the wondertale. Tradução: Miriam Shrager; Tradução: Sibelan E. S. Forrester; Tradução: Russell Scott Valentino. Bloomington, Indiana, USA: Indiana University Press, 2025.
** A composição adicional do conto de fadas. Como se obtém o meio encantado. **
** Tipos de maga. **
** O rito da iniciação. **
** A floresta. **
** A cabaninha sobre pernas de galinha. **
O herói, andando para onde as pernas o levam, ergue os olhos e vê uma cabaninha sobre pernas de galinha, que gira em torno do seu eixo.
O herói não se maravilha e sabe como se comportar, conhecendo a palavra mágica: Capannuccia, capannuccia, volta o traseiro para o bosque e a frente para mim.
A cabaninha está situada sobre uma fronteira que o herói não pode absolutamente transpor, devendo atravessá-la por meio da cabaninha.
A cabaninha volta o lado aberto para o reino remoto e o lado fechado para o reino acessível ao herói.
O herói não pode contornar a cabaninha porque ela é um posto de guarda, e ele não pode transpor a linha de demarcação antes de ser interrogado e provado.
A maga está preposta à guarda da fronteira, respondendo aos seus senhores que não deixam passar nem uma mosca.
A cabaninha sobre a fronteira dos dois mundos tem a forma de um animal, com traços nitidamente zoomorfos, como as pernas de galinha.
Para entrar na cabaninha, o herói deve conhecer a palavra mágica ou o nome de suas partes, como no culto egípcio dos mortos.
Os materiais mostram que nos estádios mais primitivos a cabaninha guarda a entrada para o reino dos mortos, e o herói pronuncia a palavra mágica ou faz sacrifícios.
A cabaninha do rito de iniciação se encontrava no interior da floresta, assumindo o aspecto de um animal, com a porta em forma de fauce, rodeada por uma paliçada com crânios.
** Oibó! **
** Ela lhe deu de beber e de comer. **
** A perna óssea. **
A maga-doadora se encontra deitada na cabaninha, ocupando toda a cabana, com o nariz crescido até o teto, lembrando um cadáver em um ataúde estreito.
A percepção do cadáver é de épocas mais tardias, pois nos materiais americanos mais antigos o guardião do reino dos mortos é um animal ou uma velha cega.
A maga como senhora do reino da floresta e de seus animais tem sua forma mais antiga no semblante animal, como um bode, um urso ou uma pega.
A perna óssea se relaciona com o semblante humano da maga, com sua antropomorfização, sendo um pé de animal que se transforma em pé de morto ou de esqueleto.
A maga não caminha nunca; ela voa ou jaz, manifestando-se exteriormente como cadáver.
O semblante animal da morte é mais antigo que o semblante esquelético.
** A cegueira da maga. **
** A senhora da floresta. **
A maga possui contrassegni fisiológicos femininos fortemente exagerados, como seios muito grandes, mas não conhece a vida conjugal, sendo sempre uma velha sem marido.
A maga é mãe e senhora de animais da floresta, exercendo sobre eles um poder ilimitado, e também os ventos lhe são submissos.
Com o decadência do matriarcado, a mulher perde sua autoridade, mas a maga-mãe-senhora conserva os atributos da maternidade e o poder sobre os animais.
A maga representa o fenômeno conhecido na etnografia como dono ou dona, uma imagem antropomorfizada do senhor de uma determinada espécie animal.
Nos estádios mais primitivos, à maga corresponde um animal, como um velho lobo que convoca todos os lobos e transmite seu poder a uma jovem.
Existe um nexo causal entre a maga-senhora e a maga-guardiã, pois se cria que a morte era uma transformação em animal, e é o senhor dos animais que guarda a entrada para o reino dos mortos.
A imagem da maga remonta ao ancestral totêmico em linha feminina, ligado ao focolare, mas os atributos de caráter feminino são transferidos a ela.
** As empresas impostas pela maga. **
** A prova mediante o sono. **
** As crianças expulsas de casa e conduzidas na floresta. **
As crianças eram mandadas de algum modo na floresta, onde eram acolhidas por um ser terrível e misterioso, sendo conduzidas pelo pai ou um irmão, jamais pela mãe.
A partida para a floresta era considerada uma desgraça, e o pai tomava a iniciativa de conduzir o menino.
Quando o rito começou a decair, a opinião pública o condenou, e esse é o momento do nascimento do tema do conto de fadas.
No conto de fadas, o ato de conduzir as crianças no bosque é sempre um ato hostil, desejado pelos velhos em relação aos jovens.
A criança indesejada é expulsa ou conduzida ao bosque, frequentemente pela madrasta, mas quem a leva é o pai, um irmão ou um tio, nunca uma mulher.
** O rapto das crianças. **
O rapto das crianças, ou a ficção dele, representa no rito outra forma de partida para o bosque, onde os indivíduos que vinham buscar as crianças estavam mascarados de animais e pássaros.
Os seres misteriosos e as cerimônias a eles relacionadas incutiam um terror tão grande que perdurou por séculos, sendo usados como meio educativo.
Também na antiguidade clássica existem exemplos de tais ameaças, sendo os seres que raptavam crianças as Lâmias, aparentadas com a maga russa raptora de crianças.
** A promessa de venda. **
** Bateu-bateu. **
** A loucura. **
Mediante pancadas, fome, sofrimentos, torturas ou bebidas narcóticas, o neófito era posto em estado de loucura furiosa, momento em que adquiria certas faculdades.
No xamanismo, os xamãs buriáticos provocam em si alucinações e ataques epilépticos, gozando de respeito e veneração particulares.
No conto de fadas, a loucura é causada pela morada na cabana do bosque ou por um ser misterioso que doa uma cítara cujo som faz endoidecer.
** O dedo cortado. **
** Os sinais da morte. **
** A morte temporânea. **
** Esquartejados e chamados de volta à vida. **
** A estufa da maga. **
Nos ritos de iniciação, os neófitos eram submetidos das mais variadas maneiras à ação do fogo, sendo queimados, assados ou cozidos.
O fogo purifica e rejuvenesce, e o bruciamento total ou parcial traz o grande benefício da aquisição dos requisitos necessários ao membro efetivo da comunidade.
Os atos que se compiam sobre o jovem no rito correspondem aos que o herói do conto de fadas compie sobre a maga, havendo uma inversão: no rito, tapam-se os olhos ao jovem; na fábula, à feiticeira.
No conto de fadas, o bruciamento é concebido como um benefício que dá qualidades de animal, mas também aparece a representação oposta, em que o bruciamento é um horror do qual se escapa felizmente e cuja aspereza é dirigida contra quem o pratica.
** A ciência astuta. **
No conto A ciência astuta, os pais mandam o filho à escola, mas a figura do mestre (um velho, um feiticeiro, um demônio silvano, um sábio), o ambiente e o modo de ensino nada têm a ver com a realidade histórica do século XIX.
O mestre vem da floresta, mora em outro reino, leva as crianças para o bosque por três anos, e o herói aprende a se transformar em animal ou a linguagem dos pássaros.
O rito de iniciação era uma escola no verdadeiro sentido da palavra, onde os jovens eram instruídos nos mitos, ritos e normas da tribo, não apenas em cognições, mas em capacidades de agir sobre a natureza.
O neófita aprendia danças e cerimônias com o fim de aumentar a caça, provocar a chuva, melhorar a colheita, e acreditava-se que o som dos instrumentos musicais sagrados era a voz de um espírito.
No conto de fadas, a dança se perdeu, mas ficaram o bosque, o mestre e a capacidade mágica, além da cítara-que-soa-sozinha, cujo som evoca o espírito e faz a maga dançar.
** O dom encantado. **
O dom encantado que o conto de fadas dá ao herói consiste em um objeto (anel, varinha, bolinha) ou em um animal, principalmente um cavalo.
Nos ritos de iniciação, existia o momento central da entrega do ajudante, chamado guardian-spirit, relacionado ao totem da tribo.
A crença era de que os velhos que presidiam ao rito possuíam objetos misteriosos e mágicos, cuja revelação aos iniciandos representa a parte central e mais característica do rito.
** A maga-sogra. **
** O travestismo. **
No rito de iniciação, os homens se travestiam de velhas, com aventais femininos, representando a figuração mimica do rapto compido pela velha na floresta.
Nos mitos, o animal que aparece ao neófito é uma mulher, e na natureza feminina da maga se pode ver um reflexo das relações matriarcais.
O rito era compido por homens, mas acreditava-se que existia uma mulher, mãe dos membros do sodalício, que vivia no lugar das reuniões da sociedade dos portadores de máscaras.
O travestismo masculino-feminino esclarece a natureza feminina da maga e a presença no conto de fadas de seu equivalente masculino.
** Conclusão. **