PULLMAN, Philip. Daemon Voices: On Stories and Storytelling. Edited by Simon Mason. London: David Fickling Books, 2017.
Deus e o Pó
Notas para um dia de estudos com o bispo de Oxford
Sobre não acreditar na existência de Deus, sobre o bem e o mal, sobre a leitura de Fronteiras do universo, o significado do Pó e a República do Céu
Sessão da manhã
1. Os argumentos do bispo Richard Harries em God Outside the Box (SPCK, 2002) merecem concordância integral, com exceção das palavras incompreensíveis, que são justamente termos como espírito, espiritual e Deus.
2. Pode parecer dissimulação alegar não compreender tais palavras, já que o dicionário as define com clareza, sendo espírito o princípio animador ou vivificante de uma pessoa ou animal, a parte inteligente e não física do ser humano, uma condição mental ou moral predominante, o sentido real em oposição à mera expressão verbal ou um princípio imaterial outrora tido como regente dos fenômenos vitais, espiritual aquilo que diz respeito ao espírito em oposição à matéria, ao sagrado, ao religioso, ao divino, ao refinado e à alma e não à realidade externa, e alma a parte espiritual ou imaterial do ser humano, frequentemente considerada imortal, sua natureza moral, emocional ou intelectual.
3. O uso que outros fazem dessas palavras e o modo como seriam usadas por quem as questiona são conhecidos, e as frases que as contêm são perfeitamente compreensíveis, podendo ser manipuladas como moedas ou fichas de um jogo, sem infringir regras e obtendo resultados significativos dentro do contexto desse jogo.
4. Trata-se, porém, de um jogo do qual se prefere não participar, evitando falar da vida espiritual ou da profunda espiritualidade de alguém, porque nada disso faz sentido, já que, quando se fala de espiritualidade, nada se vê na realidade além de uma vaga sensação de elevação combinada, num extremo, com bondade e modéstia genuínas e, no outro, com presunção e orgulho, sendo mais fácil, claro e verdadeiro falar diretamente da bondade e da modéstia ou da presunção e do orgulho, de modo que as boas qualidades implicadas pelo termo espiritual podem ser expressas com mais honestidade por outras palavras positivas, tornando-o dispensável.
5. A reação à palavra espiritual chega a ser de leve repulsa, evocando os retratos de santos e mártires de pintores barrocos e da Contrarreforma, com velhos de aspecto encardido, dentes podres e túnicas escuras e empoeiradas, belas jovens de trajes suntuosos, olhos arregalados e lábios entreabertos, ou mártires com a carne arrancada dos ossos, todos fitando o alto com expressão de fervor fanático diante da Virgem Maria, de uma visão da Cruz ou de outra coisa suspensa no ar, quando se sabe que nada disso está realmente ali e que um observador presente veria apenas os dentes podres, as roupas suntuosas ou a tortura e a expressão de fervor fanático, pois tais figuras estão vendo coisas, isto é, estão iludidas.
6. A palavra espiritual carrega, assim, conotações inteiramente negativas, parecendo indicar sempre que quem a usa ou se ilude ou engana os outros, e sua simples presença, ouvida ou impressa, provoca ceticismo imediato.
7. Essa reação constitui sem dúvida um problema, já que há pessoas de evidente honestidade, sinceridade e inteligência que usam a palavra sem constrangimento, mas falar abertamente da própria vida espiritual soa como falar da própria vida sexual, algo que pertence ao âmbito privado e deveria ser guardado para si.
8. Outra palavra de uso difícil, para dizer o mínimo, é Deus, pois não se acredita na existência de tal ser, nem que se possa dizer algo verdadeiro ou útil sobre um ser inexistente, nem que faça sentido afirmar, por exemplo, que Deus ama cada um como se fosse a única pessoa do mundo.
9. Tal afirmação carece de qualquer apoio verificável.
10. O argumento do capítulo “O silêncio de Deus” de God Outside the Box, segundo o qual, nas palavras citadas de R. S. Thomas, essa grande ausência é como uma presença, ou, segundo Simone Weil, a ausência é a forma como Deus está presente, constitui uma tentativa de comer o bolo e guardá-lo ao mesmo tempo, uma desfaçatez de proporções colossais.
11. Em assuntos sérios, tão sérios quanto os de um tribunal, quem alegasse sob interrogatório que o próprio fato de ter cometido algo prova que não o cometeu dificilmente escaparia de uma acusação de desacato, e o argumento religioso parece seguir lógica semelhante, ao sustentar que Deus não se deixa ver nem ouvir, que nada demonstra sua existência e que, ainda assim, acreditar nele é sinal não de perturbação mental, mas de profunda espiritualidade.
12. Deus aparece constantemente em God Outside the Box, e é justamente aí que reside a dificuldade, pois a parágrafos e mais parágrafos de bom senso humano, com os quais se concorda inteiramente, sucede de repente uma frase afirmando que faz parte do amor de Deus ter em mente para os seres humanos uma vocação e um destino tão gloriosos.
13. Diante de tal frase surge a pergunta sobre como se pode saber isso, e o diálogo se rompe, pois a afirmação nada acrescenta à verdade do que fora dito antes, como se alguém aparentemente sensato e equilibrado declarasse de súbito que as fadas querem que todos sejam gentis com as flores e, diante da objeção de que fadas não existem, respondesse que o jardim está cheio delas e que o próprio fato de não serem vistas prova que estão lá.
14. Em certo ponto resta dar de ombros e mudar de assunto, falando por exemplo de resultados de futebol, pois jamais haverá contato intelectual sobre fadas com quem está convencido de sua existência, e o mesmo ocorre com Deus, numa troca interminável de afirmações e negações sobre sua existência.
15. E assim não se chega a lugar algum.
16. O crente precisa explicar a falta de evidências de Deus em termos cada vez mais engenhosos, como no argumento de que não se está fisicamente próximo de Deus porque isso seria impossível, servindo o mundo material como uma espécie de anteparo necessário, já que, próximos demais, os seres humanos seriam atraídos como mariposas pela chama de uma vela, incapazes de resistir à sua bondade, beleza e esplendor, razão pela qual Deus, por misericórdia, teria interposto o mundo material e concedido liberdade de pensamento e movimento.
17. O argumento é engenhoso, mas também o eram os epiciclos.
18. No sistema astronômico ptolemaico, a Terra era concebida como centro do universo, em torno do qual tudo girava, mas o sol, a lua e os planetas não pareciam mover-se com a regularidade esperada, ora rápido demais, ora devagar demais, às vezes até retrocedendo, sendo difícil enxergar no céu a perfeição que deveria existir.
19. Os astrônomos perceberam então que podiam interpretar o movimento observado supondo que os planetas se moviam não em círculos perfeitos, mas em epiciclos, pequenos laços ao longo do grande círculo da órbita, o que explicava as irregularidades e devolvia sentido a tudo.
20. Com o tempo, instrumentos melhores e observações mais minuciosas mostraram que os epiciclos não explicavam tudo, persistindo movimentos incompreensíveis em termos de órbitas e epiciclos.
21. Inventaram-se então epiciclos sobre epiciclos, laços em torno dos laços em torno da órbita, e tudo voltou a ser explicado, de modo complicado, é verdade, mas atribuído à grandeza de Deus, ainda mais admirável por ter criado o engenhoso cérebro humano para compreender e glorificar a complexidade de sua obra.
22. Os instrumentos continuaram a melhorar, as observações a acumular-se e novas irregularidades a surgir, até parecer que uma regressão infinita de engenhosidade seria necessária para dar conta da complexidade do conjunto.
23. Surgiu então a ideia simples de Copérnico: interpretadas as evidências de outro modo, as engenhosidades tornavam-se desnecessárias, pois, supondo que tudo girasse em torno do Sol e não da Terra, tudo se tornava gloriosamente claro e simples, sem necessidade alguma de epiciclos.
24. O mesmo ocorre com quem precisa explicar por que, existindo Deus, não há evidências dele, multiplicando explicações cada vez mais complicadas e ridículas, como a de P. H. Gosse sobre os fósseis, segundo a qual Deus, não podendo criar um mundo imperfeito e sendo imperfeito um mundo sem história, teria posto os fósseis ali no mesmo momento em que criou todo o resto, para dar-lhe aparência de história.
25. Todas essas explicações epicíclicas são desnecessárias, e todo o entulho inútil de complexidade sobre complexidade, engenhosidade sobre engenhosidade e paradoxo sobre deslumbrante paradoxo desaparece de uma vez, tornando-se tudo gloriosamente claro e simples, quando se admite que não há nem nunca houve Deus, dispensando contorções lógicas e a insistência em que absurdos são verdadeiros num sentido profundo, pois a ausência é realmente uma ausência e significa apenas que não há ninguém ali.
26. O mal faz sentido como adjetivo, mas suscita questões difíceis como substantivo, já que é possível dizer que um ato é mau ou mesmo que alguém foi um homem mau, embora só depois da morte se possa julgar uma pessoa com segurança, mas é um passo excessivo afirmar a existência de algo como uma qualidade, uma presença ou uma força do mal em abstrato.
27. Isso equivale a objetificar, personificar e reificar o mal, o que não significa que ele exista.
28. Certos fenômenos históricos, alguns não tão distantes, mostram pessoas apanhadas num turbilhão de emoção e ação que conduz a atos tão maus e tão grotescamente além do que se imagina capaz de fazer que parecem explicáveis apenas por um poder além do racional, do normal e do cotidiano, como o regime nazista, os massacres de Ruanda ou os assassinatos em folie à deux cometidos pelo casal West ou pelos assassinos dos pântanos, casos que não se confundem com os de psicopatas individuais, cuja falta de senso moral é em certa medida compreensível, mas envolvem pessoas aparentemente possuídas por um poder maior que elas, arrastando outras que parecem renunciar à consciência, o que exige explicação.
29. Uma explicação seria a existência de um poder do mal desencarnado, que flutua livremente até entrar nos seres humanos e levá-los a agir assim, hipótese boa se fosse crível, o que não é, sendo preferível a explicação do bispo Richard Holloway, segundo a qual, quando os seres humanos se reúnem numa multidão, num movimento de massa ou num corpo com um objetivo comum, suas psicologias podem ressoar e reforçar-se mutuamente, provavelmente por meio de minúsculos sinais subliminares de comportamento captados abaixo do nível da consciência e imitados, que por sua vez modificam o comportamento de quem os emitiu, numa ressonância de ida e volta que se amplifica, como talvez ocorra com bandos de pássaros que parecem girar como um só, comandados por uma supermente que na verdade não existe, gerando por fim a sensação de uma força maior que o indivíduo, à qual não há como resistir e pela qual não se tem culpa.
30. É provavelmente esse o sentido da expressão racismo institucional aplicada à polícia após o inquérito sobre o caso Stephen Lawrence, criticada por muitos que entenderam que todos os policiais estavam sendo chamados de racistas, quando se tratava de algo diferente.
31. O fenômeno se compreende melhor por um exemplo positivo dessa coisa aparentemente desencarnada, o esprit de corps, forma boa, benéfica e louvável de ressonância e amplificação psicológica, pela qual os soldados de um regimento recebem uma espécie de armadura invisível de conduta decente e corajosa, captada em centenas de pequenos exemplos, alguns imperceptíveis à consciência, de orgulho mútuo, da história do regimento, das pequenas tradições diárias de cortesia e camaradagem e dos grandes exemplos de honra e coragem em batalha, tudo compreensível sem recurso ao sobrenatural.
32. O racismo institucional é provavelmente o mesmo processo psicológico operando em sentido moralmente negativo, quando jovens policiais veem e ouvem seus colegas mais velhos e superiores usar linguagem ou fazer piadas de tendência racista, ou deixar passar comentários desse tipo, estabelecendo-se a suposição geral de que é assim que a corporação, a cantina, os fardados, enfim, o grupo, vê as coisas, numa ressonância que se amplifica.
33. Como grande parte disso é subliminar e inconsciente e jamais formulada em palavras explicitamente racistas, podendo manifestar-se num leve suspiro, num revirar de olhos diante de uma objeção ou numa jocosidade forçada na presença de um policial negro, torna-se fácil negar sua existência e até acreditar que ela não existe.
34. Esses exemplos de ressonância e amplificação psicológica bastam por si sós para explicar como os seres humanos podem parecer possuídos pelo mal, dispensando tanto o diabo quanto uma força do mal.
35. Do mesmo modo, nenhum poder sobrenatural é necessário para explicar os grandes exemplos de bondade humana, pois os seres humanos são perfeitamente capazes tanto da maldade mais terrível quanto de uma bondade e uma abnegação grandiosas e incompreensíveis, sendo especialmente detestável a visão cínica de que são inteiramente maus, egoístas por natureza e incapazes de generosidade sem algum motivo egoísta oculto, visão que os cristãos deveriam sustentar em razão do pecado original, segundo o qual nada de bom provém do ser humano sem a graça de Deus, de modo que ele seria culpado por seus defeitos sem receber crédito algum por seus méritos, quando na verdade é responsável por ambos.
36. Muitos cristãos de hoje, aliás, parecem não acreditar no pecado original, adotando uma postura muito próxima da Nova Era e tolerando todo tipo de comportamento, sobretudo no campo sexual, que seus antepassados cristãos mais severos jamais admitiriam.
37. O uso de mal como substantivo é que lhe confere aparente existência externa e objetiva, reificando-o ao dar nome a algo que não é realmente uma coisa, já que mau é um adjetivo aplicado a atos, ou às vezes a pessoas, e parece implicar intenção, motivo pelo qual a destruição do World Trade Center foi um ato mau, enquanto a morte do mesmo número de pessoas num terremoto não seria assim qualificada.
38. Fala-se ainda, de modo leviano ou exagerado, dos males da vida moderna, como os telefones celulares, mas sem querer dizer mal, e sim incômodo, numa figura de linguagem que consiste em algum tipo de hipérbole.
Sessão da tarde
1. A presença no debate deve-se à autoria de Fronteiras do universo e à expectativa de que se possa discutir, defender ou tornar convincente a posição apresentada nessa obra.
2. A transação, porém, não é tão simples, pois na leitura de um livro não há apenas duas pessoas envolvidas, o escritor e o leitor, mas várias outras figuras em volta.
3. Em primeiro lugar está o leitor real, que compra o livro ou o empresta da biblioteca, leva-o para casa, senta-se e efetivamente percorre a página com os olhos.
4. Em segundo lugar está o que a teoria literária chama de leitor implícito, a pessoa a quem o texto parece dirigir-se, já que não pode dirigir-se ao leitor real, desconhecido, de modo que o leitor implícito do Beano é uma criança pequena e o de uma obra de filosofia abstrusa é provavelmente alguém com interesse acadêmico e profissional no assunto, e embora um filósofo acadêmico possa ser leitor real do Beano, a revista de algum modo não parece esperar por isso.
5. Em terceiro lugar está o autor real, a pessoa que concebeu as frases e as escreveu.
6. Em quarto lugar está o autor implícito, a mais difícil de apreender dessas sombras, pois, se a diferença entre leitor real e implícito é fácil de entender, o autor implícito, embora tenha função real, é menos acessível e poderia ser chamado de autor inferido, já que é a figura que o leitor sente por trás do livro, a combinação de atitudes, experiências, habilidade literária e tudo o mais que parece ter entrado em sua produção.
7. Em quinto lugar está o narrador, a voz que conta a história, e estudantes de literatura inglesa em formação para o magistério tinham inicialmente dificuldade em compreender que a voz narrativa em terceira pessoa de um romance como A feira das vaidades não é a voz do próprio Thackeray, mas a do narrador, personagem tão inventado quanto Becky Sharp ou Rawdon Crawley.
8. Assim, o narrador de Fronteiras do universo é a voz que parece ser ouvida ou vista na página, por trás dela está o autor implícito, uma versão imaginária inferida pelo leitor, que parece manipular o narrador e responder pelas atitudes e conclusões da obra inteira, e por trás deste está o autor real, que terminou o livro há muito tempo e agora se ocupa de coisas completamente diferentes.
9. O leitor implícito que esse texto específico parece esperar é uma pessoa inteligente, de qualquer sexo e idade, interessada em muitas coisas, pronta a sentir simpatia, mas talvez um pouco impaciente com longas explicações ou digressões não ligadas diretamente à história, enquanto o leitor real pode ser qualquer um, talvez o próprio ouvinte, seu filho ou filha, seu pai ou mãe, mas sempre alguém com uma vida, uma história, uma personalidade e um conjunto de crenças e atitudes inteiramente desconhecidos do autor real, do autor implícito e do narrador.
10. O próprio ato de ler tampouco é simples, estando longe de ser a transmissão inalterada de uma ideia, de uma imagem ou da narrativa de uma série de acontecimentos de uma mente a outra, como faz um serviço de entregas que leva algo de um lugar a outro sem interferir nele no caminho, já que a mente humana não funciona assim, como mostram os diferentes modos de leitura, da passada rápida pelo jornal ao envolvimento profundo e demorado com um romance apreciado e ao interrogatório minucioso de um texto em estudo, com pausas constantes para anotar, consultar e comparar com outros textos.
11. Há também fatores que facilitam ou dificultam a leitura desejada e afetam seus efeitos, como a decisão do Guardian, alguns anos atrás, de abolir as maiúsculas em expressões como primeiro-ministro, Ministério do Interior ou nomes de organizações, o que é extremamente irritante, porque as maiúsculas ajudam a ler rapidamente, obrigando a uma leitura indesejada para compreender o jornal, assim como um romance impresso em letra pequena demais e com pouco espaço entre as linhas se torna difícil de ler, pois tais detalhes alteram o que se passa na mente.
12. O leitor traz ainda ao texto expectativas diversas, limitações ou dons intelectuais variados, experiências de leituras anteriores e previsões sobre a obra em mãos, elementos necessários, sem os quais nenhum texto faria sentido, e inevitáveis, pois não se pode abordar um texto em estado de natureza, fingindo nada saber e chegando a ele em completa virgindade, sendo preciso trazer e pôr algo no texto para dele extrair alguma coisa, no que consiste a grande democracia da leitura e da escrita, que faz do leitor um verdadeiro parceiro na produção de sentido.
13. Tudo isso, contudo, torna o assunto um pouco mais difícil de discutir do que pareceria à primeira vista.
14. Essas considerações iniciais não visam eximir-se da responsabilidade pelo que foi escrito, mas lembrar a todos que o livro não tem um sentido único, que a relação de seu autor com ele é complexa, que sua interpretação do que escreveu tende a ser tão parcial quanto a de qualquer outro e que suas afirmações sobre a obra têm pouco mais autoridade que as de um leitor, talvez um pouco mais por conhecer bem o texto, mas nenhuma autoridade final.
15. O propósito inicial é apenas esclarecer algumas dificuldades que se interpõem entre o autor real de um romance e os leitores reais quando conversam, resumidas na pergunta sobre qual das versões do autor fala com qual das versões do leitor.
16. Ao falar de um romance, de seu significado e do que ele diz, é possível distinguir o que dizem os personagens, o que diz o narrador e o que parece dizer o autor implícito ou inferido, além do que parece dizer o livro como um todo, distinto dessas partes e de sua soma.
17. Feita essa longa ressalva, cabe expor brevemente o que o livro, como um todo, parece dizer.
18. O livro afirma que o mundo é um lugar rico e belo, de complexidade inimaginável, que a consciência é um dos maiores tesouros humanos, talvez o maior de todos, que promover a compreensão e o conhecimento é a tarefa mais importante e uma razão para viver, que tentar sufocar a compreensão é errado, que o conhecimento chega não só pela parte racional da mente, mas também pelas emoções e pelo corpo, que não é preciso invocar o sobrenatural nem para explicar a existência do universo nem para compreendê-lo, que a invocação de causas e poderes sobrenaturais, com a necessidade de aplacá-los e obedecê-los, produziu imensa crueldade e sofrimento, sendo melhor dispensá-la, e que a evolução pode ter conduzido a humanidade até aqui por puro acaso e sem propósito algum, mas, por sermos conscientes, há agora um propósito, que é trabalhar pela instauração de uma República do Céu, ou seja, um estado de coisas neste mundo e nesta vida tão pleno, livre, rico e alegre quanto possível, para todos.
19. A expressão República do Céu é evidentemente uma metáfora, e perguntar quem seria seu presidente equivale a perguntar qual o comprimento da barba de Deus, pois o livro não pede leitura literal, sendo a República do Céu metáfora de um estado de ser já parcialmente presente onde quer que os seres humanos se tratem com bondade e se aproximem do universo com curiosidade e encantamento.
20. Papel importante na história cabe à entidade misteriosa chamada Pó, que parece ligada ao crescimento e à compreensão humanos e talvez até ao pecado original, razão da agitação dos teólogos do livro a seu respeito, parecendo estar em toda parte e permear o universo, embora se concentre mais densamente em torno dos adultos do que das crianças.
21. O Pó está por trás de muitas motivações dos personagens, como a de Lyra, que, ao final da primeira parte, depois de testemunhar coisas terríveis feitas por adultos contra crianças, conclui que, se os autores dessas atrocidades consideram o Pó mau, ele deve ser bom, e a da cientista Mary Malone, que, investigando o Pó com a luneta âmbar do título, descobre no último livro que ele está deixando o universo numa enchente terrível, como após uma grande catástrofe, perda que seria um desastre inimaginável, já que o Pó parece ser uma analogia, imagem ou metáfora visível, e não descrição literal, da consciência humana.
22. O Pó está em toda parte, nos corações e entre as estrelas, nutre os seres humanos e se deleita com o amor e a compreensão humanos, assemelhando-se em certos aspectos a Deus, mas com uma diferença importante, pois, ao contrário da ideia tradicional de Deus, depende dos seres humanos, que dele dependem para realizar seu pleno potencial, mas que, se deixarem de promover o conhecimento e a compreensão e trocarem a compaixão pelo ódio fanático, o farão murchar e morrer.
23. Estabelece-se assim uma nova relação entre a humanidade e Deus, de dependência mútua em vez de hierarquia, em que não é ele quem cria os seres humanos, mas estes que se criam uns aos outros, e, em vez da simples subordinação a um rei, como na antiga ordem, cabe-lhes papel importante em manter Deus vivo, o que integra o sentido da República do Céu: responsabilidade, cidadania e democracia, sob o risco de que, abandonadas as responsabilidades, a tirania facilmente ressurja.
24. Uma passagem da história pertinente à discussão mostra Mary Malone observando o Pó quando sente que está sendo arrancada do próprio corpo e lança uma corda mental para seu eu físico, tentando recordar a sensação de estar nele e as sensações que compõem o estar vivo, como o toque da tromba macia de sua amiga Atal no pescoço, o sabor de ovos com bacon, a tensão triunfante dos músculos ao escalar uma rocha, a dança delicada dos dedos num teclado, o cheiro de café torrado e o calor da cama numa noite de inverno.
25. Aos poucos ela para de se mover, a corda resiste e ela sente o peso e a força da corrente que a empurra enquanto permanece suspensa no céu.
26. Algo estranho acontece então, pois, à medida que reforça essas memórias sensoriais e acrescenta outras, como provar uma margarita gelada na Califórnia, sentar-se sob limoeiros diante de um restaurante em Lisboa ou raspar a geada do para-brisa do carro, ela sente o vento de Pó abrandar e a pressão diminuir.
27. O abrandamento ocorre apenas em torno dela, enquanto por toda parte, acima e abaixo, a grande enchente continua a correr com a mesma velocidade, formando-se ao seu redor uma pequena área de calma em que as partículas resistem ao fluxo.
28. As partículas revelam-se conscientes, sentem a ansiedade dela e respondem a ela, começando a levá-la de volta ao corpo abandonado, e quando ela chega perto o bastante para vê-lo outra vez, tão pesado, tão quente, tão seguro, um soluço silencioso lhe convulsiona o coração.
29. Ela então afunda de novo no próprio corpo e desperta.
30. Com uma respiração profunda e trêmula, ela pressiona as mãos e as pernas contra as tábuas ásperas da plataforma e, tendo quase enlouquecido de medo um minuto antes, vê-se agora invadida por um êxtase profundo e lento por estar unida ao corpo, à terra e a tudo o que é matéria.
31. A sensação de que o universo inteiro está vivo, não inanimado, mas vivo e consciente de sentido, foi vivida em duas ou três ocasiões inesquecíveis, uma numa tarde tempestuosa na costa do norte do País de Gales, onde se passou a adolescência, e outra numa noite de inverno em Londres, por volta dos vinte e cinco anos, na volta para o apartamento em Barnes depois do trabalho numa biblioteca da Charing Cross Road, experiências sem relação com drogas, já que nunca se consumiu nada mais forte que álcool ou maconha, e em pouca quantidade, e nada semelhantes a um transe, mas de vigília intensa e extática, em que se percebiam conexões, semelhanças e paralelos entre as coisas, como rimas não de sons, mas de significados, em séries infinitas que se estendiam em todas as direções, estando o universo inteiro ligado por linhas, cadeias e campos de sentido dos quais se fazia parte, durando cerca de meia hora em cada caso antes de se dissipar.
32. Essas experiências raramente foram relatadas, por parecerem de significado privado, mas algo de sua intensidade transparece na experiência de Mary descrita na passagem lida, e são mencionadas agora porque correspondem ao tipo de vivência que se poderia chamar de espiritual ou mesmo mística, palavras diante das quais todo o ser recua como um cavalo nervoso diante de fogos de artifício.
33. Tais palavras parecem implicar um contraste entre o material e o espiritual e sugerir uma experiência em que o mundo material é transcendido, penetrado ou afastado como uma cortina para revelar algo diferente ou melhor além dele, o que não corresponde ao que foi sentido, pois era o próprio mundo físico que estava pleno de sentido, o cinza exato das nuvens correndo sobre o mar e o branco da espuma, o ângulo preciso que a esteira de uma barcaça formava com o parapeito da ponte de Hammersmith na travessia do Tâmisa, sem qualquer sensação de sobrenatural ou de união com Deus, mas de união com o mundo físico e de compreensão de seu sentido, que era o de pertencer a ele.
34. Resta, então, uma breve síntese.
35. A diferença entre ateu e agnóstico é questão de perspectiva, pois, vista de um ângulo, a soma de tudo o que se sabe é um ínfimo ponto de luz, tão pequeno que quase não existe, diante de uma escuridão vasta, envolvente e ilimitada, formada por tudo o que não se sabe, e pode muito bem haver um Deus lá fora no escuro, mas não se sabe, porque não se enxerga tão longe.
36. Aproximando-se pouco a pouco desse pequeno ponto de luz, como uma câmera que faz zoom, ele cresce até preencher a tela e ir além dela, até que, no centro, já não é um ponto, mas um horizonte inteiro cheio de luz e de coisas a ver, abrangendo não só o que se sabe, mas também as conclusões tiradas do que se sabe e as conjecturas baseadas nelas.
37. Em todo esse amplo horizonte não se vê evidência alguma de Deus, pois tudo o que se observa é perfeitamente explicado por coisas puramente naturais, pelo modo como a matéria reage a outra matéria, sem qualquer necessidade intelectual, moral ou emocional de Deus, não havendo na vida um vazio com a forma de Deus.
38. A história e o comportamento atual da raça humana revelam, porém, uma narrativa de infâmia, insensatez, crueldade e maldade praticadas em nome de um Deus que não está lá, como resume Steven Weinberg ao observar que pessoas boas fizeram o bem e pessoas más fizeram o mal sem ajuda da religião, mas que, para pessoas boas fazerem o mal, é preciso religião.
39. Quando o bispo fala de relações e da vida humanas, seu bom senso merece aplauso, sua sabedoria deleita e suas boas obras despertam admiração, mas quando fala de Deus parece falar uma língua estrangeira ou assemelhar-se a quem insiste que as fadas estão no jardim e que o fato de não serem vistas o prova acima de qualquer dúvida, e, como a conversa deve continuar, por ser parte importante da República do Céu, são esses os pontos em que é preciso mudar o rumo do diálogo e falar de outras coisas.