FLIEGER, Verlyn. There would always be a fairy tale: more essays on Tolkien. Kent, Ohio: The Kent State University Press, 2017.
“Uma terra perigosa”
Definindo Faërie
1. Faërie constitui um território perigoso, no qual a falta de cautela conduz a armadilhas e a ousadia excessiva pode resultar em aprisionamento, tornando o ingresso no encantamento uma experiência que exige prudência e reconhecimento dos próprios limites.
2. Os perigos de Faërie abrangem tanto o poder do encantamento sobre a imaginação, capaz de absorver quem nele se perde, quanto os riscos intelectuais de definir os contos de fadas, investigar suas origens, relacioná-los à vida cotidiana, analisar a subcriação e defender o valor da fantasia.
3. A reflexão sobre Faërie articula a controvérsia folclórica, as ambiguidades religiosas e criativas de Tolkien, a relação entre teoria e prática da fantasia, o significado da morte e a tensão entre o final feliz e a derrota inevitável, constituindo uma visão sustentada pela polaridade entre luz e escuridão.
“Sempre haveria um ‘conto de fadas’”: J. R. R. Tolkien e a controvérsia folclórica
1. A conferência Andrew Lang, apresentada em março de 1939 na Universidade de St. Andrews, colocou a experiência de um filólogo e criador de mitos no centro da discussão sobre os contos de fadas, vinculando o amadurecimento desse interesse à entrada na vida adulta e à experiência da guerra.
2. A relação entre guerra e imaginação remonta a setembro de 1914, quando, pouco depois do início da Primeira Guerra Mundial, o jovem Tolkien compôs “A viagem de Eärendel”, poema sobre um navegante celeste em busca de paz para a Terra-média que inaugurou sua mitologia inventada.
3. O projeto de uma mitologia para a Inglaterra costuma ser compreendido a partir do desejo de preencher uma ausência de narrativas próprias, ligadas à língua e à terra inglesas, comparáveis em riqueza às tradições mitológicas de outros povos.
4. A criação dessa mitologia exigia um conjunto articulado de lendas, com algumas narrativas plenamente desenvolvidas e outras apenas esboçadas, formando uma totalidade suficientemente ampla para acolher futuras contribuições de outras sensibilidades e formas artísticas, como pintura, música e teatro.
5. A cosmologia do Silmarillion corresponde ao projeto de uma totalidade lendária interligada, mas sua compreensão permanece incompleta quando se desconsidera o ambiente histórico e intelectual que tornou concebível e desejável essa iniciativa.
6. O início da mitologia tolkieniana coincidiu com a Primeira Guerra Mundial e com o encerramento do período de expansão dos estudos folclóricos britânicos, de modo que a ameaça às identidades nacionais possivelmente estimulou a criação literária enquanto interrompia a cooperação internacional entre pesquisadores do folclore.
7. “Sobre contos de fadas” também constitui uma formulação dos princípios criativos que amadureciam durante a transformação da continuação de O Hobbit em O Senhor dos Anéis, quando a narrativa se afastava do tom infantil e se aproximava da matéria mais antiga e sombria do Silmarillion.
8. A conferência de 1939 ultrapassava a explicação de um projeto literário particular, pois intervinha em uma tradição de pesquisa ainda marcada pela investigação das origens dos povos, pelas teorias da mentalidade primitiva e pela tendência de decompor narrativas em indícios, perdendo sua configuração artística integral.
9. O confronto com as principais escolas folclóricas concentrou-se em Max Müller e George Webbe Dasent, representantes da filologia comparada, e em Andrew Lang, defensor da antropologia evolucionista, cujas divergências forneceram os problemas aos quais uma compreensão imaginativa da fantasia precisava responder.
10. A utilização dos contos como depósitos de informações sobre assuntos externos à narrativa sacrificava seu encantamento e sua finalidade própria, exigindo uma abordagem capaz de distinguir o levantamento de dados da experiência de Faërie e de compreender as histórias como realizações artísticas.
11. A discussão organizou-se em torno de conceitos representativos das escolas rivais, incluindo o mito solar e a mitologia como doença da linguagem, a equivalência entre infância individual e desenvolvimento cultural e a metáfora da narrativa como sopa preparada com materiais anteriores.
12. A pesquisa folclórica desenvolveu-se a partir do interesse antiquário por monumentos e vestígios materiais, passando progressivamente às baladas e tradições orais, até que a valorização da língua popular como depositária da identidade coletiva transformou as narrativas tradicionais em fontes privilegiadas do espírito nacional.
13. A grande época dos coletores de tradições populares associou a recuperação de um passado mítico às aspirações culturais e nacionais de diferentes povos, encontrando no Kalevala um exemplo decisivo de como a organização de cantos tradicionais podia fortalecer a identidade de uma nação historicamente subordinada.
14. A celebração nacionalista das tradições encontrou dificuldades diante da violência e dos tabus presentes nos contos, como demonstra “O rei sapo”, cuja perturbação central reside na promessa de intimidade entre uma princesa e um animal, independentemente da transformação final do sapo em príncipe.
15. O assassinato e a preparação culinária de uma criança em “O zimbro”, seguidos de transformação e vingança, evidenciam a presença de materiais perturbadores nas narrativas tradicionais, cuja explicação dividiu mitólogos e antropólogos e também favoreceu investigações orientadas por pressupostos raciais previamente estabelecidos.
16. A hipótese de Max Müller atribuía a formação dos mitos ao esquecimento dos sentidos originais de nomes antigos de fenômenos celestes, de maneira que a dispersão dos povos e a diferenciação das línguas teriam preservado expressões cujo significado natural ou solar já não era compreendido.
17. A concepção da mitologia como doença da linguagem transformava as narrativas em explicações equivocadas de palavras anteriormente transparentes, mas pressupunha uma origem linguisticamente saudável e verdadeira que favorecia a valorização dos povos considerados arianos e a inferiorização de outros grupos.
18. A aplicação reiterada de uma explicação solar levou à identificação dos mesmos fenômenos em narrativas muito diferentes, enquanto variantes como a interpretação dos mitos por meio de raios, trovões e outros acontecimentos meteorológicos ampliavam o repertório sem modificar o caráter redutor do procedimento.
19. A contestação de Andrew Lang substituiu a prioridade da filologia pela antropologia e combateu a limitação dos estudos aos povos de línguas arianas, mas adotou uma escala evolucionista que classificava as culturas entre estágios supostamente primitivos e civilizados.
20. A interpretação dos elementos violentos ou irracionais dos contos como sobrevivências de práticas culturais primitivas estabeleceu uma analogia entre essas sociedades e a infância humana, da qual derivou a conclusão de que, no mundo moderno, as narrativas maravilhosas seriam apropriadas sobretudo às crianças.
21. A influência da controvérsia folclórica alcançou outros integrantes da geração de Tolkien, aparecendo na ficção de C. S. Lewis por meio da descoberta de uma língua antiga, originalmente compartilhada pelo sistema solar e posteriormente perdida na Terra.
22. A língua solar de Lewis e a reflexão de Owen Barfield sobre a dicção poética revelam diferentes respostas ao legado de Müller, enquanto a contribuição de Tolkien se distingue pela associação entre investigação teórica e experiência efetiva de invenção mitológica.
23. A rejeição da mitologia como enfermidade linguística conduziu à hipótese de que linguagem, mito e consciência humana surgiram conjuntamente, sem que qualquer um desses componentes pudesse ser explicado como degeneração ou consequência patológica dos demais.
24. A origem das histórias coincide com a origem da linguagem e da mente, tornando a criação mítica uma capacidade constitutiva da humanidade e cada mito uma totalidade orgânica, dotada de coerência própria, em vez de um produto tardio de equívocos verbais.
25. A interpretação dos deuses como forças naturais progressivamente reduzidas a lendas e contos inverte o processo criativo, pois os seres humanos lhes conferem personalidade e extraem da natureza os atributos de esplendor que passam a integrar essas figuras.
26. Thor pode incorporar o trovão e associar seu martelo ao relâmpago, mas sua personalidade excede esses fenômenos e pertence ao campo narrativo, de maneira que a presença do deus já implica uma história, enquanto sua ausência deixa apenas um acontecimento natural ainda não humanamente interpretado.
27. A metáfora de Dasent permite distinguir a narrativa oferecida ao leitor dos materiais e argumentos utilizados para reconstruir sua origem, mas perde validade quando a própria sopa corresponde a uma pré-história especulativa apoiada em hipóteses filológicas frágeis.
28. A crítica à reconstrução de origens adquire maior gravidade diante do racismo explícito de Dasent, que deslocou a discussão das relações linguísticas para a exaltação de uma suposta herança racial ariana e para a desvalorização dos povos excluídos dessa categoria.
29. Em 1939, o chauvinismo racial dos estudos folclóricos já encontrava uma realização política extrema no nazismo, circunstância que permite compreender a prioridade concedida à narrativa como uma possível rejeição das genealogias raciais empregadas para fundamentar hierarquias entre povos.
30. A imagem do caldeirão narrativo reconhece a antiguidade dos contos e a circulação de seus elementos por invenção, migração e herança, mas atribui prioridade ao criador, pois toda transmissão remete finalmente a um ato inventivo cuja natureza não se esclarece apenas pela reconstrução das origens.
31. A comparação entre o gosto infantil e o de ancestrais supostamente nus depende de conhecimentos incertos sobre a pré-história e reduz tanto as culturas antigas quanto a experiência adulta da fantasia a estágios inferiores de desenvolvimento humano.
32. O gosto pelos contos de fadas constitui uma possibilidade humana distribuída de maneiras diferentes entre indivíduos e idades, enquanto a necessidade de expurgar sua violência para adaptá-los às crianças e a inadequação do tom condescendente enfraquecem a ideia de que elas sejam seu público natural exclusivo.
33. A força de “O zimbro” resulta da integração entre beleza, horror e antiguidade, produzindo uma experiência mítica total que não se reduz à origem dos elementos violentos nem pode ser explicada ou anulada pelas descobertas do folclore comparado.
34. A ameaça da guerra às culturas europeias e o exemplo do Kalevala possivelmente intensificaram o desejo de proporcionar à Inglaterra uma identidade lendária própria, realizando pela invenção literária aquilo que a recuperação de tradições havia permitido em outros contextos nacionais.
35. A retomada da questão às vésperas da Segunda Guerra Mundial reafirmou o valor intrínseco dos mitos como histórias, cuja eficácia presente permanece depois de concluídas as investigações sobre seus componentes, antecedentes e possíveis significados originais.
36. A experiência da Primeira Guerra Mundial, a expectativa de um novo conflito e o legado intelectual das disputas folclóricas constituem contextos complementares para compreender a defesa dos contos de fadas e o desenvolvimento da mitologia tolkieniana.
37. A controvérsia folclórica contribuiu para aperfeiçoar tanto a invenção mitológica quanto a defesa de valores narrativos duradouros, especialmente recuperação, escape, consolo e eucatástrofe, cuja promessa de alegria diante da derrota adquiria relevância particular entre duas guerras mundiais.
38. A importância dos contos reside sobretudo naquilo que oferecem ao leitor no presente, incluindo a recuperação de uma realidade mais esperançosa, o afastamento da ameaça da morte e o consolo proporcionado pela transformação inesperada da catástrofe em alegria.
39. A ausência do conto de fadas deixaria o fenômeno natural privado da experiência narrativa que o torna humanamente significativo, reduzindo o trovão a um acontecimento que nenhum ouvido humano teria verdadeiramente reconhecido.