1.1 Significado

FLIEGER, Verlyn. There would always be a fairy tale: more essays on Tolkien. Kent, Ohio: The Kent State University Press, 2017.

Mas o que ele realmente quis dizer?

1. A coerência de uma personalidade pode resultar da capacidade de abrigar conflitos internos sem eliminá-los por soluções dogmáticas, de maneira semelhante à unidade de uma obra de arte que preserva suas próprias tensões.

2. A recepção simultaneamente cristã e neopagã de O Senhor dos Anéis encontra apoio em declarações ambíguas sobre religião, elfos e Faërie, cuja oscilação entre realidade independente e criação imaginativa permite fundamentar interpretações incompatíveis mediante a seleção de pronunciamentos convenientes.

3. A possibilidade de empregar as mesmas cartas em defesa de posições opostas recomenda compreender as ambiguidades como sinais de questões possivelmente irresolvidas, evitando transformar a correspondência em chave exclusiva para um significado teológico único e examinando separadamente cristianismo, elfos e drama faërico.

Cristianismo

1. A defesa da autonomia da mitologia inventada exigia que as verdades morais e religiosas permanecessem dissolvidas na criação artística, pois a incorporação explícita de uma religião do mundo primário poderia subordinar a ficção a outra narrativa e comprometer sua independência.

2. A caracterização de O Senhor dos Anéis como obra fundamentalmente religiosa e católica, acompanhada da explicação de que as referências religiosas foram retiradas ou absorvidas na história e no simbolismo, admite tanto uma leitura de ortodoxia implícita quanto uma interpretação de composição sincrética.

3. A retirada das manifestações explícitas de religião pode parecer paradoxal quando justificada pela religiosidade da obra, mas também amplia sua abertura interpretativa e permite reconhecer elementos cristãos, pagãos e humanistas sem que uma dessas perspectivas esgote seu significado.

4. As diferenças entre as declarações religiosas também dependem da situação comunicativa, pois a apresentação a um editor buscava assegurar a aceitação de uma criação singular em seus próprios termos e prevenir sua assimilação a modelos religiosos ou literários já conhecidos.

5. A amizade com o padre Robert Murray, sustentada por vínculos familiares, intelectuais e religiosos, estabelecia um contexto de interlocução no qual a concordância com uma leitura católica respondia a uma relação pessoal muito diferente daquela mantida com um possível editor.

6. A oposição entre revisão conscientemente católica e ausência de intenção consciente pode decorrer da adaptação sincera a interlocutores distintos, expressando perspectivas circunstanciais sobre a própria criação sem exigir necessariamente mentira deliberada ou uma posição interior plenamente unificada.

7. A aceitação cortês de aproximações entre Galadriel e Maria, ou entre lembas e a Eucaristia, permanece cuidadosamente distinta de uma confirmação inequívoca, pois o reconhecimento da percepção alheia e da influência de realidades maiores não estabelece por si só correspondências religiosas intencionais.

8. A influência da imaginação católica sobre Galadriel é limitada pela diferença doutrinária entre uma personagem penitente, envolvida em rebelião e orgulho, e Maria concebida sem pecado, distinção que impede transformar inspiração parcial em equivalência religiosa direta.

9. A oscilação entre religiosidade fundamental, consonância com o pensamento cristão e coincidência acidental de datas evidencia diferentes graus de vinculação religiosa, preservando a possibilidade de uma narrativa monoteísta situada fora de um mundo propriamente cristão.

10. A autonomia da obra parece coexistir com uma afinidade profunda tanto com o cristianismo quanto com a cultura heroica pagã, aproximando a posição criativa de Tolkien daquela atribuída ao poeta de Beowulf, cristão empenhado em representar um passado pagão dotado de nobreza e significado.

11. A defesa da reencarnação dos elfos diante de objeções teológicas afirma a liberdade de imaginar modos de existência de criaturas racionais distintos dos humanos, embora a decisão de não enviar a resposta revele cautela diante de uma controvérsia doutrinária.

12. A permanência da reencarnação élfica como elemento essencial da mitologia demonstra uma imaginação capaz de ultrapassar os limites habituais da formulação cristã sem abandonar a fé católica, reservando à ficção possibilidades que a argumentação pública tratava com maior prudência.

Elfos e Faërie

1. A alternância entre entusiasmo e autodepreciação sugere um conflito entre o desejo de admitir elfos como companheiros sobrenaturais da humanidade e o receio de parecer ingênuo ou insensato, tornando a classificação infantil uma possível proteção contra o ridículo.

2. A experiência de retorno a um mundo incapaz de compreender o encantamento, dramatizada em “Looney”, aproxima-se da vulnerabilidade associada à publicação de O Senhor dos Anéis e ganha expressão mais radical na revisão do poema após a crítica hostil de Edmund Wilson.

3. A possibilidade de existência independente dos elfos é repetidamente acompanhada pela alternativa de sua origem na imaginação humana, produzindo uma argumentação que preserva a força de uma crença desejada ao mesmo tempo que se resguarda por meio de ressalvas.

4. Os rascunhos mantêm a tensão entre elfos como criação separada, vivendo em outro modo de existência, e elfos como realização do desejo humano de subcriar, deixando em aberto como aprender com seres que podem ser simultaneamente concebidos como autônomos e inventados.

5. A insistência na hipótese de elfos verdadeiros, desnecessária para uma discussão puramente literária, sugere o desejo de considerar seriamente sua existência, mesmo quando uma explicação restrita à imaginação teria sido mais simples e menos vulnerável à refutação.

6. A apresentação de Faërie como terra perigosa e reino dos contos permite uma leitura metafórica convencional, mas os rascunhos introduzem uma concepção mais radical na qual a aparência do mundo visível encobre possibilidades e poderes ainda não manifestados.

7. A realidade perceptível pode ser compreendida como manifestação de uma reserva profunda de poder, cujo acesso permitiria transformar formas existentes e trazer à expressão outras ainda desconhecidas, mas potencialmente presentes na criação.

8. A hipótese de uma fonte de poder além das aparências sugere uma convicção mais profunda do que a formulação publicada deixa explícito, enquanto a afirmação de uma realidade comum a elfos e humanos desloca a diferença para os modos de percepção e valorização.

Drama faërico

1. O drama faërico ocupa um lugar raro e particularmente enigmático no vocabulário tolkieniano, aparecendo no ensaio publicado, em um de seus manuscritos e, sob a designação de drama élfico, em Os papéis do Notion Club.

2. A arte dramática élfica pode envolver o espectador em um mundo secundário com tamanha intensidade que ele o experimente como realidade imediata, semelhante a um sonho tecido por outra mente, embora seus criadores permaneçam conscientes da distinção entre essa arte e o mundo primário.

3. A descrição dessa experiência procura comunicar algo próximo do indizível, mas pressupõe uma familiaridade que muitos leitores não possuem, inclusive quanto à natureza do fenômeno e aos registros que supostamente documentariam sua apresentação a seres humanos.

4. O drama faërico pode ser compreendido como uma experiência visionária dirigida a espectadores humanos, próxima de um sonho desperto, cujos registros literários incluem viagens ao mundo feérico, encantamentos amorosos e encontros nos quais a percepção oscila entre acontecimento e visão.

5. A imaginação poética confere forma, localização e nome ao que antes não possuía presença reconhecível, tornando perceptíveis possibilidades desconhecidas e convertendo o aparentemente impalpável em uma configuração comunicável.

6. Os banquetes élficos de O Hobbit, as visões de Frodo durante o canto em Valfenda e a criação onírica descrita por Ramer apresentam diferentes modalidades de drama faërico, nas quais a experiência imaginativa ganha presença e intensidade semelhantes às de uma realidade vivida.

7. As variantes dos manuscritos de Os papéis do Notion Club explicitam a aproximação entre drama realizado e drama élfico, acompanhando-a de uma atribuição jocosa a um integrante secundário do círculo literário para disfarçar sua associação com Tolkien.

8. O recurso à ficção e à autodepreciação oferece uma proteção entre a experiência descrita e sua origem pessoal, enquanto o tratamento ensaístico do drama faërico expõe de modo mais direto a intensidade de um encantamento capaz de suscitar crença primária.

9. As visões de coisas anteriormente inimaginadas articulam-se ao desejo de contemplar outros mundos em pleno funcionamento, com uma liberdade mental que ultrapassa as limitações corporais e dispensa a necessidade de habitá-los como personagens nativos.

10. A experiência do drama faërico privilegia a posição de observador, semelhante à de um espectador teatral, de modo que Frodo e o viajante de “Looney” veem e recebem o encantamento sem assumir necessariamente um papel ativo no mundo contemplado.

11. O emprego de verbos no presente do indicativo confere realidade imediata ao encantamento, enquanto as ressalvas sobre a intenção dos elfos e a diferença entre arte e magia tornam incerta a relação entre experiência efetiva, ilusão e vontade artística.

12. As diferenças entre o encantamento musical de Frodo, a viagem incomunicável de “Looney” e o sonho de Ramer permitem supor uma origem em experiências subjetivamente reais de alteração da percepção, sem que essa hipótese determine a existência objetiva dos mundos experimentados.

13. O testemunho de Simone D’Ardenne sobre a capacidade de atravessar o véu das aparências aproxima a sensibilidade linguística de Tolkien das experiências visionárias de suas personagens, nas quais a palavra abre acesso a uma realidade percebida além dos limites cotidianos.

14. A relação etimológica entre encantamento e gramática sugere que o poder da palavra consiste em transformar a percepção e revelar conexões entre realidades aparentemente separadas, oferecendo uma possível chave para a ideia de um mundo comum diferentemente experimentado por elfos e humanos.

15. Os manuscritos privados parecem conceder maior liberdade à especulação sobre a existência dos seres feéricos, permitindo que uma hipótese inicialmente condicional se desenvolva em uma descrição relativamente afirmativa de sua natureza e de seu lugar na criação.

16. Os seres feéricos podem ser concebidos como inteligências não encarnadas, moralmente responsáveis e ligadas a aspectos específicos da criação, cujo poder se acompanha de uma vinculação duradoura ao mundo e de uma incerteza angustiante sobre qualquer destino além de seu término.

17. A abertura a dimensões da criação inacessíveis à percepção comum aproxima essa especulação de tradições platônicas e místicas, mas a presença de espíritos associados à natureza também ultrapassa as expectativas racionalistas e religiosas convencionais do ambiente em que Tolkien viveu.

Conclusão

1. A adaptação dos pronunciamentos a interlocutores diferentes revela uma ambivalência profunda que alimenta a criação, impedindo reduzir Tolkien a representante exclusivo de uma mitologia cristã ou de um neopaganismo literário e exigindo reconhecer seu equilíbrio instável entre fé, experiência e percepção interior.

2. As cartas e os ensaios registram uma conversação prolongada que buscava conciliar originalidade imaginativa e ortodoxia religiosa, enquanto antecipava a ridicularização de ambientes literários hostis ao romantismo e à presença de elfos na ficção.

3. A alternância entre desespero e alegria caracteriza uma personalidade de antíteses cuja percepção da perda intensifica a apreciação dos bens da vida, tornando o conhecimento do sofrimento inseparável de uma sensibilidade aguda para o valor das coisas.

4. A capacidade de conservar paradoxos sem resolvê-los dogmaticamente favorece flexibilidade e amplitude intelectual, permitindo sustentar publicamente um equilíbrio entre alternativas sem exigir a renúncia às convicções privadas.

5. A tensão entre fé católica e experiência imaginativa alimenta a força de uma narrativa que preserva ambiguidades morais e perceptivas, nas quais culpa e inocência, benefício e dano, heroísmo e responsabilidade coexistem sem se estabilizar em interpretações únicas.

6. A possibilidade de transformação do bem em mal e de confusão entre suas manifestações torna os conflitos irresolvidos uma fonte de energia criativa, abrindo acesso a possibilidades narrativas que uma solução definitiva ou uma divisão moral rígida poderia empobrecer.