Luz

FLIEGER, Verlyn. Splintered Light: Logos and Language in Tolkien's World. Grand Rapids: Eerdmans, 1983. (Edição revista e ampliada: Kent: Kent State University Press, 2002).

Introdução

1. O Silmarillion distingue-se como a obra mais difícil e problemática de Tolkien por reunir textos de épocas distintas numa mitologia coerente, cuja amplitude filosófica e teológica, linguagem formal e distância da experiência cotidiana dos hobbits o tornam o fundamento mítico das aventuras narradas em O Hobbit e O Senhor dos Anéis.

2. A longa e complexa composição de O Silmarillion, sua publicação póstuma e as expectativas criadas pelo sucesso das obras anteriores dificultaram sua recepção e alimentaram controvérsias sobre sua qualidade literária, sua importância filosófica e sua posição como realização central ou simples material de contextualização da ficção de Tolkien.

3. A história da elaboração dessa mitologia, suas relações cronológicas com as outras narrativas e as dificuldades de publicação foram esclarecidas pela biografia de Humphrey Carpenter, pelos trabalhos editoriais de Christopher Tolkien e pela carta de 1951 a Milton Waldman, na qual se encontram a concepção e o projeto de uma mitologia dedicada à Inglaterra.

4. O projeto mitológico pretendia reunir lendas interligadas, desde a criação do cosmos até o conto de fadas romântico, fazendo as grandes narrativas apoiar-se nas menores e estas receberem esplendor de um vasto pano de fundo, num conjunto que também deixasse espaço para contribuições de outros criadores na pintura, na música e no teatro.

5. A combinação de entusiasmo e autodepreciação nas declarações de Tolkien revela o receio de expor ao ridículo uma ambição profundamente séria, cuja realização ocupou o centro de sua vida criadora e se tornou o principal veículo de suas reflexões, exigindo uma leitura capaz de reconhecer a importância dessa mitologia em seus próprios termos.

6. A dimensão do projeto aproxima-o das mitologias nórdica, céltica, hebraica e sobretudo finlandesa, cujos conjuntos de narrativas, preservados em documentos ou tradições orais, foram reunidos e organizados por estudiosos.

7. A criação de uma mitologia secundária por uma única imaginação exige uma capacidade visionária e uma ambição excepcionais, encontrando um paralelo mais próximo em Blake do que em Milton e ocupando Tolkien desde os primeiros trabalhos sistemáticos de 1917 até suas últimas revisões, em 1973.

8. As negociações de 1951 buscavam a publicação conjunta de O Senhor dos Anéis e O Silmarillion, considerados inseparáveis porque a história do Anel continuava e completava a mitologia anterior, mas também porque a publicação isolada da primeira obra ameaçava deixar a segunda definitivamente inédita.

9. O fracasso das negociações e o aumento dos custos editoriais levaram à publicação independente de O Senhor dos Anéis, cuja leitura autônoma durante mais de vinte anos dificultou a avaliação da relação entre as obras e ocultou que sua riqueza narrativa correspondia apenas a uma parte ampliada de uma composição muito maior.

10. Os apêndices ofereciam apenas vislumbres da história anterior, deixando os leitores sem acesso pleno à origem, à continuidade histórica, aos princípios orientadores e ao fundamento religioso e filosófico do mundo criado, explicitados em O Silmarillion e pressupostos em O Senhor dos Anéis.

11. A leitura de O Senhor dos Anéis à luz de O Silmarillion amplia profundamente sua perspectiva histórica, esclarece referências e personagens e revela como elementos aparentemente secundários participam da construção do enredo e dos temas, produzindo a profundidade temporal que Tolkien admirava em Beowulf.

12. A publicação antecipada e independente de O Senhor dos Anéis, embora contrariasse o projeto original, criou o público necessário à recepção de O Silmarillion, preparando os leitores pela familiaridade com a Terra-média e pelo interesse acumulado durante décadas de espera.

13. A recepção inicial de O Silmarillion foi dividida porque muitos leitores esperavam reencontrar a combinação de aventura épica e familiaridade cotidiana das obras anteriores, mas receberam uma cosmogonia de gravidade bíblica, acompanhada de numerosas genealogias e personagens divinos.

14. Parte da crítica reagiu com desorientação e severidade, reconhecendo momentos de grandeza, mas censurando a pompa da linguagem, a extensão da obra e sua dificuldade de leitura, chegando a considerar que uma publicação anterior poderia ter prejudicado a recepção de todo o conjunto.

15. Leituras favoráveis compreenderam a relação entre a narrativa do Anel e a visão cósmica mais ampla, reconhecendo que o êxito de uma parcela relativamente pequena da criação de Tolkien havia obscurecido a maior parte de sua imaginação mitológica.

16. A leitura de John Gardner reconheceu a singularidade do empreendimento e identificou na música e na luz os princípios centrais que organizam o cosmos de O Silmarillion, beneficiando-se de seu conhecimento da literatura medieval.

17. A música e a luz constituem inicialmente realidades literais do universo narrativo, embora adquiram progressivamente valores simbólicos e metafóricos, e sua centralidade permite compreender a matriz medieval da concepção mitológica de Tolkien.

18. A organização medieval do cosmos fundamenta-se na harmonia musical como princípio de equilíbrio e na melodia individual como expressão do livre-arbítrio dentro da Providência, articulando essa concordância à luz e ao valor de joias e metais preciosos como manifestações da ordem diante da qual a vontade é posta à prova.

19. Mesmo reconhecendo a importância de O Silmarillion, Gardner atribuía a O Senhor dos Anéis uma grandeza superior, preferência que permaneceu predominante entre leitores e críticos apesar do desenvolvimento gradual dos estudos sobre a mitologia de Tolkien.

20. A avaliação de T. A. Shippey destaca o descompasso de Tolkien com seu tempo e a dificuldade incontornável de O Silmarillion, cuja exigência intelectual e literária ultrapassaria as possibilidades de grande parte do público.

21. Os estudos críticos oferecem avaliações variadas, desde a leitura equilibrada de Shippey e a apresentação geral de Randel Helms até as reservas iniciais de Jane Chance, cuja posterior ampliação da análise ainda conserva a classificação de O Silmarillion como uma coda às demais obras.

22. A compreensão de O Silmarillion como complemento final inverte sua função originária, pois ele antecede e prepara O Senhor dos Anéis, formando com este uma história contínua na qual a dimensão cosmogônica sustenta e ilumina a narrativa mais próxima da experiência terrena.

23. O conhecimento de O Silmarillion também permite distinguir melhor Tolkien de C. S. Lewis e Charles Williams, frequentemente agrupados por sua fé cristã, participação nos Inklings e emprego da fantasia, apesar das diferenças entre suas obras e finalidades religiosas.

24. A convivência dos Inklings não implicava uma missão literária ou religiosa comum, e O Silmarillion evidencia que a criação de Tolkien possui uma identidade profundamente distinta das realizações de Lewis e Williams.

25. A teologia desenvolvida em O Silmarillion apresenta uma tonalidade mais severa, sombria e precária, na qual a crença precisa ser continuamente renovada e submetida à experiência, mantendo o resultado dos conflitos em permanente incerteza.

26. Embora o espírito cristão informe as duas obras, suas referências religiosas explícitas foram deliberadamente reduzidas para que a verdade moral e espiritual permanecesse incorporada à narrativa e ao simbolismo, sem reproduzir diretamente as formas religiosas do mundo histórico.

27. A mitologia de Tolkien não repete episódios cristãos específicos, mas explora sua dimensão universal mediante temas como a Queda, a mortalidade e a Máquina, que também pertencem ao horizonte mais amplo das mitologias humanas.

28. A independência de Tolkien em relação a Lewis e Williams contrasta com sua proximidade intelectual com Owen Barfield, pensador particularmente interessado nas relações entre linguagem, mito e realidade cultural.

29. A influência de Barfield foi reconhecida por Tolkien ao comentar a passagem de O Hobbit em que o espanto de Bilbo diante de Smaug e de seu tesouro é relacionado à transformação humana de uma linguagem originalmente aprendida com os elfos, quando o mundo ainda conservava seu caráter maravilhoso.

30. A interdependência entre mito e linguagem constitui, ao lado da influência de Beowulf, um fundamento decisivo da criação de Tolkien, na qual a linguagem participa da constituição da realidade e as polaridades de luz e escuridão se definem reciprocamente por meio de sua expressão linguística.

31. O Silmarillion e O Senhor dos Anéis integram uma única visão criadora, separada pelas circunstâncias editoriais, mas a compreensão plena da segunda obra depende da primeira, tornando necessário começar pela origem mitológica para avaliar o sentido, a direção e a contribuição da ficção de Tolkien.