PEARCE, Joseph; MURRAY, Jef (ORGS.). Frodo’s journey: discovering the hidden meaning of The Lord of the Rings. Charlotte, North Carolina: Saint Benedict Press, 2015.
A TERRA-MÉDIA E A IDADE MÉDIA
1. Qualquer tentativa de descobrir o significado oculto de O Senhor dos Anéis seria deficiente sem a devida atenção ao amor de Tolkien pela Velha Inglaterra, pelo inglês antigo e pelos anglo-saxões e sua língua, amor evidente numa reunião promovida pela capelania católica da Universidade de Oxford nos anos 1930, a convite de monsenhor Ronald Knox, em que Hilaire Belloc defendeu uma de suas teses favoritas, a de que os anglo-saxões foram totalmente irrelevantes na história da Inglaterra, enquanto Tolkien, então provavelmente a maior autoridade mundial em assuntos anglo-saxões e católico exemplar, contorcia-se na cadeira diante das afirmações mais extremadas e, instado pelo jesuíta Martin D'Arcy a enfrentá-lo no intervalo, respondeu que jamais o faria sem ter todo o seu caso cuidadosamente preparado, por saber que Belloc sempre tirava da manga algum fato desconcertante, resposta que constituía um tributo tremendo da parte do maior especialista da época.
2. Embora Belloc e Tolkien tivessem muito em comum, sobretudo o catolicismo apaixonado, é intrigante que divergissem tão profundamente sobre os anglo-saxões, pois a visão histórica de Belloc, em geral astuta e penetrante, era sempre distorcida por uma francofilia desequilibrada e uma germanofobia quase estridente, que o levava a desprezar a contribuição das tribos germânicas da Inglaterra à cultura cristã antes da Conquista Normanda e a louvar esta por ter trazido a Inglaterra à plenitude da cristandade, para ele sinônimo de influência francesa, ao passo que Tolkien considerava a Inglaterra anglo-saxã idilicamente cristã e poderia ter mostrado que ela foi tão profundamente católica que o santo inglês Bonifácio ajudou a evangelizar a Europa pagã, enquanto seu contemporâneo, o venerável Beda, exibia a alta cultura saxã em abundância, versado em latim e grego, literatura clássica e patrística, hebraico, medicina e astronomia, autor de homilias, vidas de santos, hinos, epigramas, obras de cronologia e gramática, comentários ao Antigo e ao Novo Testamento e da seminal História Eclesiástica do Povo Inglês, traduzida para o anglo-saxão pelo rei Alfredo, o Grande, tendo acabado de traduzir o Evangelho de São João para o anglo-saxão ao morrer em 735 e sendo colocado por Dante, quase seiscentos anos depois, no Paraíso da Divina Comédia, além de uma multidão de outros santos anglo-saxões, de Santo Edmundo a Santo Eduardo, o Confessor, provas de que, contra Belloc, a Inglaterra anglo-saxã foi um farol de iluminação cristã.
3. A descrição de Tolkien como provavelmente a maior autoridade mundial em assuntos anglo-saxões pode muito bem ser verdadeira, sobretudo em relação à epopeia anglo-saxã Beowulf, talvez a mais importante influência literária isolada sobre O Senhor dos Anéis e obra que ajuda a compreender o modo como Tolkien ao mesmo tempo oculta e revela o significado mais profundo de sua própria obra.
4. Provavelmente datado do início do século VIII, contemporâneo, portanto, das vidas de São Bonifácio e São Beda, Beowulf é uma narrativa maravilhosa e repleta de maravilhas, animada pelo rico espírito cristão da cultura que o gerou, transbordante de potência alegórica e zelo evangélico, e revela também profunda consciência da Antiguidade clássica, bebendo largamente da Eneida de Virgílio e evidenciando a consciência do poeta saxão de seu lugar num contínuo cultural ininterrupto.
5. Tolkien traduziu Beowulf, em tradução publicada apenas em 2014, e escreveu sobre a epopeia o ensaio erudito “Os Monstros e os Críticos”, tido por muitos como a crítica mais magistral já escrita sobre o poema, conhecendo-o talvez melhor do que qualquer outro de sua geração, com inegável influência seminal e decisiva sobre sua obra, cujos paralelos mais óbvios estão entre o episódio do dragão em Beowulf e o episódio semelhante de O Hobbit, embora a epopeia anglo-saxã tenha deixado suas impressões digitais em O Senhor dos Anéis de modo mais sutil.
6. Beowulf divide-se em três seções em que o herói enfrenta três monstros diferentes, e nas duas primeiras, em que derrota Grendel e a mãe de Grendel, a obra é sobretudo narrativa e a dimensão teológica fica subsumida de modo parabólico, especialmente no motivo recorrente de que a vontade e a força humanas são insuficientes, sem auxílio divino, para vencer o poder do mal, provável resposta ortodoxa à heresia pelagiana que assolava a Inglaterra saxã e preocupava Beda em sua História Eclesiástica, escrita mais ou menos na mesma época, abordagem semelhante à de O Senhor dos Anéis, que subsume a presença da graça no tecido da história de modo discreto e ao mesmo tempo inescapável, sendo porém a técnica alegórica da seção final a que mais ilumina a técnica de Tolkien, emulando o poeta anônimo que talvez mais do que ninguém lhe ensinou a arte de contar histórias.
7. A seção do dragão começa com o furto de uma taça cravejada de gemas do tesouro do dragão, ato que nada rende ao ladrão, mas provoca a ira destruidora da fera, e Beowulf leva onze companheiros ao combate, mais o ladrão, causador de toda a contenda e acrescentado como décimo terceiro, forçado e compelido a servir de guia relutante até o covil, ao contrário dos onze que acompanharam o senhor de boa vontade, num uso de significação numérica que traça paralelos entre a luta mortal de Beowulf com o dragão, signo icônico do Diabo, e a luta mortal de Cristo com o poder do mal em sua Paixão, sem que a obra se torne alegoria formal ou crua, já que nenhuma personagem é mera abstração personificada, pois Beowulf não é literalmente Cristo, embora seja figura de Cristo destinada a lembrá-lo, o dragão não é literalmente Satanás, embora lembre o Diabo, o ladrão não é Judas nem Adão, embora lembre o discípulo cuja traição causou a morte do senhor, e os outros onze lembram os demais apóstolos, numa coincidência numérica deliberada que estabelece paralelos com a narrativa bíblica sem descer à alegoria formal, de modo que Beowulf é sempre Beowulf, ainda que destinado a lembrar Cristo.
8. Os paralelos alusivos continuam, agora com a Agonia no Horto, quando Beowulf, na véspera da batalha, está triste de coração, inquieto mas pronto, pressentindo a morte, e, no início do combate, a tropa escolhida a dedo rompe as fileiras e foge para salvar a vida, exceto Wiglaf, que surge como signo de São João, o único apóstolo que permaneceu ao lado de Cristo durante a Crucificação, e repreende a covardia dos companheiros por desertarem o senhor que os escolhera deliberadamente no exército, honrara e julgara aptos para aquela ação.
9. Antes de morrer, Beowulf instrui Wiglaf a mandar os homens erguerem um túmulo em sua memória, e, após sua morte, dez guerreiros envergonhados saem do bosque, indicando que o ladrão não estava entre eles, mas, no fim da epopeia, são de novo doze os guerreiros que cavalgam cerimoniosamente em torno do túmulo construído conforme a ordem de Beowulf, sinal de que o traidor fora substituído por um novo membro, à semelhança da escolha de São Matias para ocupar o lugar de Judas como décimo segundo apóstolo.
10. Embora ninguém pretenda que Beowulf seja alegoria no sentido formal ou cru, o poeta quer claramente que o público perceba paralelos sugestivos entre o autossacrifício de Beowulf na luta contra o mal e o sacrifício arquetípico de Deus no Calvário, pois para o cristão, e o poeta de Beowulf indubitavelmente o era, todo ato de amor genuíno implica dar a vida pelo outro, e todos os que amam assim são ipso facto figuras de Cristo, de quem todo amor genuíno flui e para quem todo amor genuíno aponta, de modo que, na vida verdadeira como na verdadeira literatura, todos os que vivem e amam como Cristo são semelhantes a Cristo e podem ser chamados figuras dele, arquétipo do qual todos os homens virtuosos, de fato ou de ficção, são tipos, o que o poeta de Beowulf mostra por indícios numéricos e Tolkien, emulando seu mentor anglo-saxão, faz de modo muito semelhante.
11. Uma pista para o significado mais profundo de O Senhor dos Anéis está na data da destruição do Anel, 25 de março, a data mais significativa e importante do calendário cristão, festa da Anunciação, dia em que o Verbo se faz carne e Deus se faz homem, e também data histórica da Crucificação, fato frequentemente esquecido pelos cristãos modernos porque a Sexta-Feira Santa é festa móvel, pois toda a Antiguidade cristã reconheceu o 25 de março como o dia real da morte de Nosso Senhor, e a opinião de que a Encarnação também ocorreu nessa data aparece já por volta de 240 na obra pseudocipriânica De Pascha Computus, segundo a qual a vinda e a morte do Senhor deviam coincidir com a criação e a queda de Adão, e, como o mundo foi criado na primavera, também o Salvador foi concebido e morreu pouco depois do equinócio, cálculos fantasiosos semelhantes aos da Alta e da Baixa Idade Média, razão pela qual os antigos martirológios atribuem ao 25 de março a criação de Adão, a crucificação do Senhor, a queda de Lúcifer, a passagem de Israel pelo Mar Vermelho e a imolação de Isaac.
12. Tolkien, católico e eminente medievalista, certamente conhecia o significado simbólico do 25 de março, e a atribuição dessa data à destruição do Anel tem consequências palpáveis e verdadeiramente sísmicas para os significados morais e teológicos mais profundos de O Senhor dos Anéis.
13. O “Conto do Padre da Freira” de Chaucer, outra grande obra medieval, emprega o mesmo uso alegórico de datas significativas para transmitir profundo sentido moral e teológico, pois nessa parábola da queda do homem e de sua redenção por Cristo na Cruz, disfarçada de fábula sobre um galo, a história se passa trinta e dois dias após o início de março, mês em que o mundo começou e Deus fez o homem, de modo que, além da referência ao significado teológico de março, a queda de Chantecler, isto é, de Adão, e a da Raposa, isto é, de Satanás, ocorrem em 1º de abril, Dia dos Tolos.
14. Ao seguir seus mentores medievais no emprego de pistas alegóricas para aprofundar a dimensão teológica das histórias, Tolkien infunde em sua epopeia atemporal o gênio da cristandade e de seus gigantes literários, situa a obra firmemente nessa tradição e indica que O Senhor dos Anéis opera sua magia mais profundamente no plano teológico, já que, destruídos o Pecado Original e o Um Anel na mesma data teologicamente carregada, ambos se entrelaçam de modo indissolúvel, tornando o Anel simbolicamente sinônimo do próprio Pecado, pois o Pecado Original é o Um Pecado para a todos governar e na escuridão aprisioná-los, e assim, fundidos pela data comum de sua destruição, o Um Pecado e o Um Anel unem moral e teologicamente a obra às verdades mais profundas do cristianismo, forjada nas chamas de uma fé viva e de toda uma vida.