FRANZ, Marie-Louise von. Archetypal patterns in fairy tales. Toronto: Inner City Books, 1997.
A princesa dos doze pares de sapatos dourados (dinamarquês)
Eles chegaram a uma floresta de ouro, onde ele quebrou outro galho, e depois a uma floresta de diamantes, onde quebrou mais um galho.
A princesa ouviu barulho e desconfiou que alguém os seguia, mas a garota de branco disse que era apenas o vento.
Chegaram a um lago, pegaram um barco; o barco balançou quando o jovem pulou, e a princesa ficou aterrorizada, mas a garota novamente atribuiu o movimento ao vento.
Paralelo com a versão dos Irmãos Grimm
Há um paralelo com esta história, um conto dos Irmãos
Grimm chamado “Die Zertanzten Schuhe” (os sapatos dançados até se desfazerem), que é mais complicado.
A versão alemã tem doze princesas que dançam todas as noites com doze príncipes sob uma maldição, e o herói é um soldado velho.
As florestas de prata, ouro e diamantes como reinos amaldiçoados, redimidos com sangue do troll, estão completamente ausentes na versão alemã.
Conselho sobre o estudo de contos de fadas
Estrutura dos reinos e do herói
A garota de branco e o troll
Abordagens para interpretar a história segundo os tipos psicológicos
A necessidade de circundar a história com todas as funções
Tipos de heróis nos contos de fadas
Os heróis são frequentemente príncipes e princesas, anônimos (como na história), pessoas socialmente desprivilegiadas, ou pessoas comuns (camponeses, pescadores, caçadores).
Na maioria dos casos, a pessoa se torna o próximo rei ao se casar com uma princesa, descrevendo uma ascensão de uma personalidade coletiva anônima para uma posição de liderança.
A grande tentação é identificar o herói da história com o ego humano; isso é legítimo apenas na medida em que o ouvinte ingênuo o faz.
Conceitos de Jung e sua aplicação equivocada a contos de fadas
Origem e transmissão dos contos de fadas
Processo coletivo de recontagem e preservação
No processo coletivo de recontagem, há duas forças: uma que elimina o que é apenas pessoal e outra que preserva a forma (“Não, não é assim, é assado”).
As crianças ficam furiosas se o conto é variado, exigindo ouvi-lo literalmente da mesma maneira, como um ritual.
A constância do arquétipo se manifesta nessas duas forças, eliminando impurezas e preservando a forma, representando processos inconscientes coletivos típicos.
Contos de fadas e o processo de individuação
Em alquimia, Jung apontou estruturas como o mandala e a quaternidade, que também são encontradas em contos de fadas, paralelas ao processo de individuação.
No entanto, frequentemente há uma nota insatisfatória nos contos de fadas, como na versão alemã, onde os príncipes dançarinos são punidos em vez de mortos, e o herói, um soldado velho, casa com a princesa mais velha.
O final insatisfatório revolta o sentimento, pois os parceiros da dança são amaldiçoados novamente, sem explicação.
Questões não respondidas na versão dinamarquesa
Na versão dinamarquesa, há dois aspectos insatisfatórios: a garota de branco, que é simplesmente esquecida, e a ausência de uma figura materna.
Em oitenta e cinco a noventa por cento das histórias lidas, o palestrante encontrou perguntas sem resposta ao tentar encaixá-las no processo de individuação.
Jung explicou que, em alquimia, os alquimistas experimentavam processos do inconsciente coletivo e tentavam construir uma teoria, ao contrário dos contos de fadas.
Função curativa dos sonhos e contos de fadas
Estudo de contos de fadas para compreender o inconsciente coletivo
Compreendendo a figura do herói pelo que ele faz
O rei como representação do Si-mesmo e o início da história com desequilíbrio
O inconsciente não é apenas reativo (compensatório), mas também criativo, produzindo algo por conta própria, por um “espírito de vida”.
O jovem representa algo que irrompe espontaneamente na psique inconsciente: uma iniciativa masculina desconhecida e poderosa.
A ação desse poder do inconsciente é espontânea, surge por si mesma.
Civilizações em ascensão e em declínio
O velho sábio como espírito no conto de fadas
O bastão e a bola como símbolos
O bastão é o instrumento mais antigo, uma extensão da mão e da vontade, usado para guiar animais e, posteriormente, como cetro do rei (poder de governo).
O bastão significa uma orientação objetiva, uma direção objetiva que vai além dos impulsos momentâneos.
O bastão que torna invisível está relacionado a aniquilar a subjetividade pessoal, “apagar o rosto” (s'effacer) para colocar a tarefa em primeiro plano.
A descida ao inconsciente e as florestas de prata, ouro e diamantes
A princesa e a garota empurram a cama, revelando uma porta na parede, e descem escadas para florestas de prata, ouro e diamantes, cruzando um lago em um barco.
A porta escondida e a escada indicam que as camadas mais profundas do inconsciente já foram conectadas à consciência, mas foram esquecidas ou reprimidas.
As florestas de prata, ouro e diamante são completamente inorgânicas, representando um estado amaldiçoado, ao contrário do simbolismo alquímico positivo desses materiais.
O paraíso tem duas conotações: no Ocidente (pôr do sol, morte, regressão), é o passado que atrai para fantasias utópicas infantis; no Oriente (aurora, renascimento), é o local do renascimento de uma nova forma de consciência.
O troll personifica a primitividade espiritual que mata toda a relacionalidade, desumanizando as pessoas.
O herói quebra um galho em cada floresta (motivo do ramo de ouro de Eneias) para provar que esteve lá, indicando que as florestas são a terra dos mortos.
O barco, a dança e os sapatos
O barco balança quando o herói entra; a princesa sente que alguém os segue (sintoma de má consciência), mas a garota de branco diz que é apenas o vento (pertencente ao reino do troll, sem consciência da presença humana).
O troll feio recebe a princesa, e o herói rouba o prato de ouro, a faca e o garfo.
A princesa e o troll dançam doze danças, e em cada dança a princesa rasga um par de sapatos dourados.
Os sapatos têm a ver com a posição de alguém na vida; a princesa, ao rasgar os sapatos, perde progressivamente sua posição na terra, tornando-se estranha à realidade.
Perder o contato com a realidade pode acontecer coletivamente, como no desenvolvimento do movimento nazista, que se tornou cada vez mais irreal.
O herói finge não ter visto nada e é levado à forca, mas antes de ser morto, pede para contar um sonho, mostrando os objetos como prova de que o sonho era real.
O herói pede à princesa um dedal de ouro, mata o troll com a agulha de ouro, coleta três gotas de sangue no dedal e, com elas, redime os três reinos.
A combinação da agulha (princípio ativo masculino) e do dedal (princípio receptivo feminino) lembra a lança e o
Graal nas lendas medievais.
Ao derramar o sangue do troll (que ele havia sugado de suas vítimas), os reinos desumanizados voltam à vida; com o troll morto, o herói torna-se governante dos três reinos e, presumivelmente, também herdará o quarto reino após a morte do velho rei.