Do ponto de vista da psicologia pessoal, Lúcio é o tipo de homem que sofre de um complexo materno negativo — embora o aspecto positivo do complexo também apareça na história, pois os opostos estão sempre juntos.
O próprio Apuleio tinha uma relação positiva com sua mãe — na vida real casou-se com uma mulher cerca de vinte anos mais velha, com quem viveu feliz até a morte, enquanto o romance expressa ao longo de toda a sua extensão a outra face do problema: o lado sombrio do complexo materno.
Como Jung mostrou, a mãe simboliza por vezes, num nível mais profundo, o inconsciente inteiro do homem; ao aparecer no final do romance na forma arquetípica da grande deusa-mãe Ísis, ela é a personificação de um cosmos interior que ultrapassa os limites da personalidade consciente — o que Jung chamou de a realidade da psique.
Num nível mais profundo, Apuleio dá forma a um processo profundo de evolução de dimensão histórica: o retorno do princípio feminino ao mundo ocidental patriarcal.
Esse lento retorno do princípio feminino aflorou intermitentemente na Idade Média — o amor cortês ofereceu uma oportunidade, e com ele o simbolismo do
Graal —, mas trouxe um problema tremendo, pois os cavaleiros não eram capazes de manter apenas um amor platônico cortês por suas damas.
Como não havia contraceptivos na época e isso ocorria em famílias aristocráticas, surgiu o enorme problema do bastardo, criando uma situação sociológica impossível; a Igreja aproveitou a oportunidade, condenou o amor cortês sexual e estimulou a veneração à Virgem Maria — que não envolvia perigo algum.
Como Jung aponta claramente, foi exatamente nesse momento que começaram as perseguições às bruxas — pois o problema da anima não pode ser resolvido num nível apenas impessoal nem por um princípio; qualquer decisão sociológica e coletiva só pode estar errada, e se há uma solução ela só pode ser única, de indivíduo para indivíduo, de uma mulher a um homem.
O Asno de Ouro é a descrição moderna do desenvolvimento da anima de um homem — de sua personalidade inconsciente feminina; a libertação das mulheres só pode ter êxito se houver também uma mudança nos homens, pois assim como as mulheres precisam superar o tirano patriarcal em suas próprias almas, os homens precisam libertar e diferenciar sua feminilidade interior.