FRANZ, Marie-Louise von. The Feminine in Fairy Tales: Revised Edition. New York: Shambhala, 2001.
Mulheres no mundo ocidental contemporâneo
A paciente às vezes se irrita com Deus, dizendo que ele é terrível, indecente e um trickster, e que ela precisa enganá-lo também.
Quando Deus se aproxima demais, ela tem suas visões; quando ele está mais distante, ela fica mais confortável e normal.
O caso ensina como uma mente simples e não educada lida com as imagens de poder do inconsciente coletivo.
Nos contos de fadas, as figuras das representações coletivas ou não são usadas ou são usadas de forma distorcida (exemplo: Cristo como herói trickster, Deus como velho chato).
As figuras são anônimas porque seria chocante dar seus nomes verdadeiros, e essa distorção aparente obedece à lei da compensação.
A Bela Adormecida, ou Roseira de Espinhos
O conto “A Bela Adormecida” (ou “Roseira de Espinhos”), dos Irmãos
Grimm, teve enorme efeito e revival literário, sendo bem adequado para carregar a projeção da anima do poeta.
O conto sofreu o mesmo destino da protagonista: desapareceu da memória e depois reviveu.
Existem versões italiana e francesa do século XIV, ligando-se a Perceforest (Parsifal e o Santo
Graal) e à Renascença (nomes de deusas antigas como Lucina, Juno, Têmis, Vênus).
Há uma teoria (considerada forçada) ligando o conto a uma tragédia de Ésquilo sobre Tália, filha de Hefesto.
Do ângulo psicológico, o motivo é arcaico e arquetípico: uma figura feminina que permanece dormente e reaparece após um tempo (exemplo: Perséfone).
O inconsciente não é realmente um trickster; ele apenas afirma um fato atual, embora a consciência, com sua moral e preconceitos, experiencie como se algo estranho fosse insinuado.
A dificuldade em interpretar sonhos e contos de fadas é que identificar-se com o herói ou heroína é tão óbvio que se perde a objetividade científica.
Em histórias arquetípicas, deve-se ver as imagens de modo transpessoal; nada no conto mostra que se trata de um ser humano real com vida subjetiva.
O folclorista Max Lüthi disse que todas as figuras nos contos de fadas são abstratas; melhor dizer que são figuras arquetípicas, transumanas, sem amplificação humana.