VON FRANZ, Marie-Louise. Shadow and Evil in Fairy Tales: Revised Edition. 2nd ed ed. Boston: Shambhala, 2017.
A DEFINIÇÃO PSICOLÓGICA DA SOMBRA
A definição psicológica da sombra varia consideravelmente e não é tão simples quanto se assume geralmente.
Na psicologia junguiana, define-se a sombra como a personificação de certos aspectos da personalidade inconsciente que poderiam ser adicionados ao complexo do ego, mas que, por várias razões, não o são.
Pode-se dizer que a sombra é o lado obscuro, não vivido e reprimido do complexo do ego, mas isso é apenas parcialmente verdadeiro.
Jung, em uma discussão, rejeitou essa ideia e afirmou que a sombra é simplesmente todo o inconsciente.
Jung lembrou que se havia esquecido como essas coisas foram descobertas e como eram experienciadas pelo indivíduo, sendo necessário pensar sempre na condição do analisando no momento.
Para alguém que nada sabe sobre psicologia, a sombra é um nome “mitológico” para tudo aquilo dentro de si sobre o que não se pode saber diretamente.
Apenas quando se começa a investigar a esfera da sombra é que surge, após algum tempo, nos sonhos, uma personificação do inconsciente, do mesmo sexo que o sonhador.
Essa pessoa descobrirá que nessa área desconhecida existe ainda outro conjunto de reações chamado de anima (ou animus), que representa sentimentos, humores e ideias.
Para propósitos práticos, Jung não achou necessário ir além desses três passos (sombra, anima/animus, Self).
A SOMBRA PESSOAL E COLETIVA
Ao falar da sombra, é preciso ter em mente a situação pessoal e o estágio específico de consciência e percepção interna da pessoa em questão.
No estágio inicial, pode-se dizer que a sombra é tudo o que está dentro de você e sobre o que você não sabe.
Ao investigá-la, descobre-se que ela consiste parcialmente de elementos pessoais e parcialmente de elementos coletivos.
Quando se encontra a sombra pela primeira vez, ela é simplesmente um conglomerado de aspectos nos quais não se consegue distinguir o que é pessoal do que é coletivo.
Como exemplo prático, alguém pode herdar de pais com caracteres diferentes certas características que não se misturam bem quimicamente.
Uma analisanda que herdou um temperamento violento do pai e uma sensibilidade excessiva da mãe sentia duas reações opostas quando alguém a aborrecia.
No desenvolvimento, geralmente se faz uma escolha entre as possibilidades opostas, e a qualidade reprimida, por ser incompatível, constrói a sombra.
Com certa percepção e ajuda dos sonhos, é relativamente fácil reconhecer esses elementos, o que se chama de tornar a sombra consciente, mas isso não é uma conquista, pois o problema mais difícil é integrá-la à vida.
A família fica furiosa quando um membro até então manso se torna agressivo, e a integração da sombra pode dar errado.
Ter a coragem de aceitar uma qualidade que não se gosta em si mesmo é um ato de grande coragem.
Se não se aceita a qualidade, ela funciona pelas costas.
Ver e admitir a sombra é parte do problema, mas o grande problema ético começa quando se decide expressar a sombra conscientemente.
Isso requer grande cuidado e reflexão para não ter um efeito perturbador.
Tipos sentimentais podem ser cruéis e intolerantes em seus julgamentos.
Em um exemplo com uma tipo sentimental, ela interpretou negativamente o fato de o narrador tê-la cumprimentado rapidamente, produzindo uma série de pensamentos negativos.
No estágio inicial, a sombra é o inconsciente total – uma torrente de emoções, julgamentos e assim por diante.
Depois de um tempo, as pessoas descobrem essas qualidades negativas em si mesmas e conseguem não apenas vê-las, mas expressá-las, o que significa abrir mão de certos ideais e padrões.
Como também se podem descobrir nos sonhos coisas que parecem não ser pessoais, diz-se que a sombra consiste parcialmente de material pessoal e parcialmente de material impessoal e coletivo.
A SOMBRA DAS CIVILIZAÇÕES
Todas as civilizações, mas especialmente a cristã, têm sua própria sombra.
Na Índia, por exemplo, eles estão muito à frente em sua atitude espiritual e filosófica, mas seu comportamento social é chocante para a mente ocidental.
A atitude social indiana, de não intervir no “karma” alheio, seria considerada a sombra da civilização indiana para os europeus.
O lado claro não está ciente do lado escuro, que é tão óbvio para outra civilização.
Se se vivesse completamente sozinho, seria praticamente impossível ver a própria sombra, pois não haveria ninguém para dizer como se parece do lado de fora.
É preciso um observador, e pode-se falar das sombras das diferentes civilizações com base na reação do observador.
A maioria dos orientais pensa que a atitude coletiva consciente do Ocidente é absolutamente inconsciente de certos fatos metafísicos, e é assim que aparecemos para eles.
A sombra coletiva é particularmente ruim porque as pessoas se apoiam mutuamente em sua cegueira; é apenas em guerras ou no ódio a outras nações que a sombra coletiva se revela.
O europeu tem certas qualidades más ou incompatíveis que foram reprimidas pelo indivíduo, além das qualidades más ou inferiores do grupo do qual faz parte.
A sombra coletiva também aparece quando certas qualidades dentro de nós são diminuídas quando estamos sozinhos e aumentam subitamente em um grupo maior.
Um introvertido que, sozinho, não é ambicioso, pode pegar a infecção da ambição quando colocado em uma multidão com extravertidos ambiciosos.
Se uma pessoa é pega pela ambição apenas quando está em um grupo, pode-se dizer que era uma sombra coletiva.
Se partes da sombra pessoal não são suficientemente integradas, a sombra coletiva pode se infiltrar por essa porta.
É preciso estar ciente de que esses dois aspectos existem, pois este é um problema ético e prático; caso contrário, pode-se infligir muita culpa nas pessoas.
Se um analisando se comporta de maneira ultrajante em um grupo, não se deve atribuir toda a culpa a ele, pois parte era a sombra do grupo.
Há uma norma interna secreta de quanta sombra um ser humano pode suportar; não é saudável não vê-la, mas também é insalubre assumir muita dela.
O pior é que muitas vezes não se vê onde está a própria consciência; ela fica obscurecida por olhar muito de perto para a sombra.
A REPRESENTAÇÃO DA SOMBRA NA MITOLOGIA E CONTOS DE FADAS
Ao falar da sombra, há um aspecto individual pessoal e um aspecto coletivo, a sombra do grupo.
Se juntar três ou quatro intelectuais com os mesmos interesses, eles dirão que tiveram uma noite maravilhosa, mas um menino camponês diria que foi horrível.
Em muitas civilizações, rituais religiosos tendem a tornar um grupo consciente de sua própria sombra (exemplo da Missa Negra).
Em tribos primitivas, um grupo de bobos da corte faz tudo contrário às regras do grupo, em um festival de catarse da sombra.
No exército suíço, há o “bezerro da companhia”, selecionado inconscientemente para ser o bode expiatório e agir a sombra coletiva sob compulsão.
Tendo esboçado o que se entende por sombra individual e coletiva, pergunta-se se e como a sombra é representada na mitologia.
Antigamente, os contos de fadas eram contados entre adultos das camadas mais baixas da população.
Há contadores de fadas profissionais, alguns dos quais são débeis mentais e desequilibrados, enquanto outros são particularmente saudáveis e normais.
As teorias sobre a origem dos contos de fadas são muito diferentes: remanescentes degenerados de mitos religiosos, partes de uma literatura degenerada ou um tipo de sonho contado como história.
A origem de uma história pode ser vista por um exemplo típico: uma crônica familiar suíça sobre um moleiro que saiu para atirar em uma raposa que falou com ele.
Um estudante do folclore descobriu diferentes versões da história, que se ampliaram com outro material arquetípico apropriado, exatamente como os boatos.
Uma história sempre se origina de uma experiência parapsicológica ou de um sonho; se contém um motivo que existe na vizinhança, há uma tendência a ampliar o núcleo com ele.
Os elementos que não são interessantes para a vila são abandonados, e o que é arquetípico na história permanece na memória.
Os contos de fadas refletiriam as estruturas psicológicas mais básicas do homem em maior medida do que os mitos e produtos literários.
O mito em geral está mais embutido na civilização (não se pode pensar na Epopeia de Gilgamesh aparte da civilização babilônico-suméria).
O conto de fadas pode migrar melhor, pois é tão elementar e reduzido a seus elementos estruturais básicos que apela a todos.
Um missionário conseguiu fazer contato com uma ilha polinésia por meio de um conto de fadas.
Existem tipos europeus, africanos, asiáticos e outros de contos de fadas, e sua estreita relação é óbvia.
Os contos de fadas são um pouco influenciados pela civilização em que apareceram, mas muito menos do que os mitos devido à sua estrutura mais básica.
Investigadores do comportamento animal observaram rituais básicos no namoro dos patos, com elementos estruturais sempre presentes e outros variáveis.
Aplicando isso ao homem, existem estruturas básicas do comportamento psicológico que pertencem à espécie humana em geral e outras mais desenvolvidas em um grupo ou raça.
Os contos de fadas são os mais geralmente humanos em sua estrutura; ao estudá-los, reconhece-se o que é individual e o que não é, além de possíveis soluções.
Por exemplo, no mito do complexo materno, o filho homem tende a desenvolver as características do herói que morre jovem e tem tendência a recusar a vida.
Se o herói não aceita sua sombra, ele será psicologicamente morto pelo “javali selvagem” dentro de si ou, em tempos modernos, se tornará um piloto que cai ou um montanhista que cai.
Se os sonhos são pessoais, reconhecem-se características mitológicas nas quais o jovem sonhará com um amigo como Marte ou um javali selvagem.
Não se deve pregar o mito, mas tê-lo em mente para uma melhor compreensão; ele faz a pessoa sentir que seu problema não é único e insolúvel.
O mito também tem um impacto mágico em camadas que não podem ser alcançadas pela conversa intelectual.
A consideração da sombra nos contos de fadas deve se concentrar na sombra coletiva e do grupo, não na pessoal.
As pessoas tendem a pensar no “meu ego” e não percebem que o ego também é uma estrutura geral e um arquétipo.
Na maioria das civilizações, há uma tendência inata a desenvolver um complexo de ego.
Há também uma tendência inata, embora muito menos forte, a separar certas partes da personalidade do ego; essas partes criam um aspecto arquetípico da figura da sombra.
Essas estruturas gerais se espelham nos contos de fadas e podem ser influenciadas pelas civilizações em que as histórias se originam.
OS DOIS VIAJANTES (ANÁLISE DO CONTO)
O conto “Os Dois Viajantes” dos Irmãos
Grimm é apresentado como exemplo.
Um alfaiate pequeno, bonito, alegre e bem-humorado encontra um sapateiro mal-humorado em suas andanças.
O alfaiate compartilha o que tem com o sapateiro, mesmo tendo mais sorte no trabalho.
Perdidos em uma floresta, o sapateiro exige os olhos do alfaiate em troca de pão, cegando-o.
O alfaiate, abandonado dormindo sob uma forca, ouve dois corvos falando sobre o orvalho que devolve a visão e recupera seus olhos.
O alfaiate poupa a vida de um potro, uma cegonha, dois patinhos e abelhas, que mais tarde o ajudam.
O alfaiate torna-se alfaiate da corte, e o sapateiro torna-se sapateiro da corte, tramando contra o alfaiate.
Com a ajuda dos animais (patos, abelhas, potro, cegonha), o alfaiate cumpre as tarefas impossíveis impostas pelo rei a mando do sapateiro (encontrar a coroa perdida, fazer um modelo do castelo, fazer jorrar uma fonte, trazer um filho ao rei).
O alfaiate casa-se com a filha mais velha do rei, e o sapateiro tem seus olhos bicados pelos corvos e perece.
À primeira vista, o alfaiate otimista representaria o lado consciente e o sapateiro a sombra compensatória, mas essa interpretação pode levar a contradições.
O alfaiate é uma figura bem conhecida nos contos de fadas, relacionada ao arquétipo do trickster (embusteiro) que vence seus inimigos pela inteligência e astúcia.
De acordo com ideias medievais, o alfaiate pertence a Mercúrio (Hermes), o deus trickster, com suas qualidades de inteligência versátil e capacidade de mudança.
O alfaiate faz roupas para os outros, e as roupas geralmente são interpretadas como tendo a ver com a persona.
Na parábola alquímica, o espírito Mercúrio é descrito como um alfaiate de homens, um tipo de psicoterapeuta que muda as pessoas para sua forma verdadeira e correta.
O inimigo do alfaiate é o gigante, que representa emoções poderosas; o unicórnio representa a atitude agressiva.
O alfaiate é também um homem muito piedoso, combinando a maneira humana de superar o afeto pela inteligência com a atitude religiosa cristã.
O sapateiro tem a ver com o calçado, que é a posição ou atitude em relação à realidade.
O sapato é o ponto de vista em relação à realidade concreta, sempre relacionado com a afirmação de poder.
O sapateiro representaria uma figura arquetípica semelhante à do alfaiate, mas especialmente preocupada com a posição em relação à realidade.
Há uma lenda de Santo Antônio que mostra como o sapateiro tem a ver com a posição em relação à realidade, em contraste com a busca pela santidade.
Após perambular, o sapateiro e o alfaiate tornam-se servos do rei, e o alfaiate casa-se com a princesa, mas não se torna rei.
O rei representa o símbolo dominante coletivo de nossa era, ou seja, do Cristianismo.
O rei é um símbolo do Self (a instância reguladora central da totalidade), não o arquétipo do Self em si.
Todo simbolismo que toma forma na consciência humana coletiva se desgasta após um certo tempo e resiste à renovação.
O rei velho que precisa ser substituído por um novo rei expressa essa lei psicológica geral.
Nos contos de fadas, é frequentemente a pessoa simples que se torna o próximo rei.
Se o príncipe se torna rei, é uma renovação dentro do mesmo dominante.
Se uma pessoa anônima e inesperada se torna rei, a renovação do dominante da consciência coletiva vem de um ângulo sociológico e arquetípico de onde menos se esperava.
O conto descreve um processo de renovação da consciência coletiva que vem da parte inesperada e oficialmente desprezada da psique, e das pessoas simples.
Os humores, anseios secretos e necessidades das pessoas simples expressam de forma clara as necessidades de nossa época.
Na história, o rei ainda não é deposto; o alfaiate não se torna príncipe, mas se casa na família real.
O rei representa a atitude cristã dominante que não atingiu o estado de ter que ser completamente deposta ou renovada, mas onde não é mais forte.
Na forma de dois andarilhos, dois fatores arquetípicos aparecem, dois deuses (Mercúrio e Saturno), e é uma questão de qual vencerá.
Todo complexo coletivo (arquétipo) tem um lado claro e um escuro, um sistema polarizado.
No arquétipo da Grande Mãe, há a bruxa e a deusa da fertilidade; no arquétipo do espírito, o velho sábio e o mago demoníaco.
O arquétipo do rei pode indicar a fertilidade da tribo ou o velho que sufoca a nova vida.
Provavelmente, os complexos no inconsciente são neutros (complexio oppositorum) e tendem a se duplicar em sim e não devido à luz da consciência.
Na cultura judaico-cristã, o conflito ético é aguçado, e a figura arquetípica duplicada aparece não apenas como bom e mal, mas como mais claro e menos claro.
O contraste entre o alfaiate (extravertido, otimista) e o sapateiro (introvertido, pessimista) é relacionado à atitude cristã.
O otimismo cristão (confiança em Deus) e o pessimismo de correntes como o Calvinismo (severidade, melancolia) seriam representados pelas duas figuras.
O alfaiate representa uma atitude ingênua dentro do mundo cristão, com perspectiva esperançosa e confiança em Deus; o sapateiro é a sombra dessa atitude.
Todo símbolo poderoso do Self une os opostos; se perde sua força, os opostos começam a se separar.
O rei não é mais suficientemente poderoso para reconciliar o sapateiro e o alfaiate; ele ouve as insinuações más do sapateiro.
Isso representaria uma situação em nossa civilização onde os opostos começam a lutar entre si, e o símbolo unificador começa a enfraquecer.
Se o ego pudesse se relacionar diretamente com o Self (um símbolo unificador), o conflito diminuiria.
Um conflito nunca é realmente resolvido; a emoção investida nele diminui, supera-se pelo sofrimento, e ele se absorve em uma nova forma de vida.
EXEMPLOS DE VISÕES E O RENOVADOR INESPERADO
Uma professora teve uma visão de uma figura de bronze da Morte no topo de uma torre de catedral, que foi substituída por uma bela figura feminina de pedra.
Pessoalmente, a visão refletia sua atitude cristã de automortificação e sua possessão pelo animus.
Coletivamente, a visão mostrava o problema da época, inclusive com o dogma da Assunção da Virgem Maria.
Uma faxineira com tendências suicidas tinha visões que acreditava serem revelações religiosas para a época atual.
O problema era que ela não tinha educação para trazer a ideia à tona adequadamente, ficando entrincheirada e mórbida.
Se ela fosse mais vital, poderia servir e ser leal à sua visão, como fez Jakob Boehme, um sapateiro que escreveu revelações religiosas baseadas em suas visões.
Quando tais constelações em uma sociedade são fortes o suficiente, uma atitude religiosa completamente nova pode surgir das camadas mais baixas da população.
O cristianismo não atingiu primeiro as camadas superiores da sociedade romana; começou entre os escravos.
O rei foi substituído por um trabalhador ou escravo, que se tornou o símbolo dominante, como na descrição de Cristo como Rei dos Reis e servo do homem.