Para demonstrar que Deus é a luz suprema e última, é preciso primeiro determinar a significação da palavra “luz” (nûr) segundo três acepções: a do homem comum, a daqueles com qualificações espirituais particulares e a da elite espiritual.
Para o homem comum, a palavra “luz” designa aquilo que é visível por si mesmo e que torna visível outra coisa, como o sol, aplicando-se tanto aos corpos luminosos quanto ao que é difundido por eles.
A percepção visual depende tanto da existência da luz quanto do olho dotado de vista, sendo que o nome de “luz” mereceria mais ser aplicado ao que vê (o olho) do que ao que é visto.
O olho externo possui sete imperfeições: não se vê a si mesmo; não vê o que é muito distante; não vê o que está atrás de um véu; vê o exterior das coisas mas não seu interior; vê certos seres e não todos; não vê o que é ilimitado; e frequentemente se engana no ato da percepção.
Existe no coração (qalb) do homem um olho (ayn) chamado de intelecto (aql), espírito (rûh) ou alma humana (nafs insâni), que escapa por sua elevação a essas sete imperfeições.
O intelecto percebe a si mesmo e aos outros, move-se livremente através dos véus, penetra o interior e a natureza profunda das coisas, seu domínio são todos os seres, percebe o que é ilimitado e não comete os erros da visão externa.
Os cinco sentidos externos são os observadores do intelecto, que possui ainda outros servidores internos como a imaginação (khayâl), a faculdade estimativa (wahm), a faculdade cognitiva (fikr), a faculdade de evocação (dhikr) e a memória (hifzh).
Os objetos da visão do intelecto incluem conhecimentos necessários (como a impossibilidade de uma coisa ser ao mesmo tempo eterna e ter um começo temporal) e verdades de ordem especulativa, que necessitam de estímulo.
A mais magnífica das sabedorias é a Palavra de Deus, particularmente o Corão, cujos versículos são para o olho do intelecto o que a luz do sol é para o olho externo, pois é por ela que a visão se atualiza.
Há duas espécies de olhos: o olho externo, que pertence ao mundo sensível e visível, e o olho interno, que pertence ao mundo do Reino celestial (Malakût), cada qual com seu sol e sua luz correspondentes.
O mundo visível, relativamente ao mundo do Reino celestial, é como a casca em relação ao núcleo, como a forma em relação ao sopro que a anima (râh), como as trevas em relação à luz.
O mundo visível é um símbolo do mundo do Reino celestial, sendo que o efeito não pode deixar de corresponder à causa, revelando-se ao coração desta verdade as significações ocultas dos símbolos do Corão.
O que vê a si mesmo e vê os outros, e além disso torna os outros visíveis, merece mais o nome de “luz”, sendo digno de ser chamado “flamboieiro que ilumina” (sirâj munîr), propriedade que pertence ao espírito santo profético (al-rûh al-qudsî al-nabawî).
O flamboieiro terrestre empresta sua luz originalmente das luzes superiores, sendo a fonte luminosa dos flambeiros terrestres o Espírito divino eminente (al-Rûh al-ilâhiyya al-ulwiyya), descrito como um Anjo com setenta mil rostos e setenta mil línguas cada.
As luzes celestiais se ordenam hierarquicamente, remontando a uma Fonte primeira, que é a Luz em si mesma e por si mesma, que não recebe luz de outro, mas por quem brilham todas as outras.
O termo “luz” aplicado a outra coisa que não a Luz principial é pura metáfora (majáz), pois todo ser que não Ela, considerado em sua essência, não tem luz própria, sendo sua natureza luminescente emprestada de um outro.
O Ser verdadeiro (al-mawjûd al-haqq) é Deus, assim como a Luz verdadeira é Deus, sendo que a existência que pertence ao ser por causa de um outro é uma existência emprestada que, considerada em sua essência, é puro não-ser.
Os sábios (ârifûn), após terem aperfeiçoado sua ascensão espiritual, veem pela contemplação direta (al-muchâhada al-iyâniyya) que não há na existência senão Deus, e que “toda coisa é perecível exceto Sua Face”, não em um momento, mas eterna e perpetuamente.
Cada coisa tem duas faces: uma voltada para si mesma (que é nada) e uma voltada para seu Senhor (que existe), de modo que não há outro existente senão Deus e Sua Face.
A profissão de fé “Nul lui, excepté Lui!” é a daqueles que têm a vocação espiritual (khawâçç), sendo mais perfeita e apropriada que a do comum dos crentes (“Nul divinité, excepté Dieu!”), levando à Singularidade divina (fardâniyya).
O termo da ascensão das criaturas é a Singularidade divina, onde a multiplicidade desaparece, a Unidade é realizada, as relações são suprimidas e não há mais nem alto nem baixo, nem quem desce ou sobe.
Deus é a luz dos céus e da terra, sendo que os céus e a terra são preenchidos por luzes exteriores e visíveis (como os astros) e por luzes interiores e inteligíveis (substâncias angélicas, a vida e a luz humana).
Aqueles dotados de visões interiores (baçâ’ir) não veem nenhuma coisa sem ver Deus junto dela, havendo aqueles que veem as coisas por Ele (homens de contemplação) e aqueles que primeiro veem as coisas e depois O veem por elas (homens de dedução por provas).
Deus está com toda coisa como a luz que acompanha as coisas, sendo Ele “antes” de toda coisa e “acima” de toda coisa, e aquele que faz aparecer toda coisa, não estando separado do que é assim tornado aparente.