Maulana Maududi aponta problemas adicionais quando essa narração é interpretada exclusivamente pela razão, uma vez que duas das três ações de Khidr contradizem mandamentos da lei em vigor desde a criação do homem.
Nenhuma lei permite danificar a propriedade alheia ou matar uma pessoa inocente
Mesmo que alguém soubesse por inspiração que um usurpador tomaria certo barco ou que um menino se envolveria em rebeldia, nenhuma lei divina tornaria lícito furar o barco ou matar o menino inocente
A questão não é por ordem de quem Khidr agiu, mas qual era a natureza de tais ordens
Khidr afirma que seus atos não foram praticados por autoridade própria, mas movidos pela misericórdia de Deus
O próprio Deus atesta: “Nós lhe ensinamos um conhecimento que procede da Nossa Presença.” (Alcorão 18:65)
Os comandos seguidos por Khidr não eram de natureza legal, pois os princípios fundamentais do Alcorão não permitem que uma pessoa mate outra sem prova de culpa
Tais comandos pertenceriam aos decretos de Deus pelos quais um doente se recupera enquanto outro morre, um prospera enquanto outro perece
Se os comandos dados a Khidr fossem dessa natureza, ele seria um anjo ou outra criatura de Deus não sujeita à lei divina prescrita para os seres humanos
Um ser humano seria culpado de pecado caso agisse contra um mandamento divino, ainda que por intuição ou inspiração — pois o homem está obrigado a cumprir os mandamentos divinos enquanto homem
Esse princípio foi aceito unanimemente por estudiosos da lei divina e por líderes do sufismo
Allamah Alusi citou em detalhe os ensinamentos de Abdul Wahhab Shiirani, Muhy-ud-Din
Ibn Arabi, Mujaddid Alf Thani, Xeque Abdul-Qadir Jilani, Junaid Baghdadi, Sirri Saqti, Abul-Hussain An-Nuri, Abu Said al-Kharraz, Ahmad ud-Dainauri e Imam Ghazzali, todos convergindo para o entendimento de que não é lícito nem mesmo a um sufi agir conforme inspiração própria que contradiga um fundamento da lei
Maududi conclui que Khidr deve ser um anjo ou outro tipo de criatura de Deus isenta da lei humana
A palavra árabe rajul — geralmente usada para seres humanos — não é de uso exclusivo para humanos: no próprio Alcorão é empregada para os jinn (Surata Al-Jinn, versículo 6)
Um jinn, anjo ou ser invisível que se apresente diante de um ser humano o fará em forma humana, como o anjo que apareceu a Maria em forma humana (Surata Maryam, versículo 17)
Ibn Kathir registrou, com base em Mawardi, que alguns estudiosos antigos do Alcorão expressaram a mesma opinião — a de que Khidr seria um anjo ou criatura análoga