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Avicenismo e Situação Filosófica
O tema do avicenismo e da situação filosófica pode ser compreendido em dois sentidos principais, um relacionado à posição do ser humano no cosmos segundo o sistema de Avicena, e outro referente ao lugar da própria obra de Avicena no conjunto dos sistemas filosóficos.
A situação filosófica do ser humano, tal como o sistema aviceniano a define, envolve a meditação sobre os problemas que se colocavam para o próprio
Avicena.
A situação da obra de
Avicena no pleroma dos sistemas filosóficos, tal como aparece ao filósofo que a medita hoje, envolve a meditação sobre os problemas que o avicenismo coloca como sistema organizado.
No primeiro caso, o pensamento de
Avicena é considerado situativo, pois suas premissas definem uma situação particular da vida humana em relação ao cosmos.
No segundo caso, é o cosmos aviceniano que é tomado como uma grandeza a ser situada, cabendo à meditação compreender sua posição em relação aos universos espirituais expressos em mitos, símbolos ou dogmas.
O modo de presença assumido pelo filósofo em razão do sistema que professa é o que aparece genuinamente como situativo, tanto no Oriente quanto no Ocidente.
O Ciclo dos Recitais Avicenianos
A tradição aviceniana no Irã é representada por uma linhagem ininterrupta até os dias atuais, que deve decidir suas próprias razões de existência decidindo seu futuro.
Essa tradição só pode ter um futuro positivo se a filosofia tradicional, nutrida por motivos avicenianos, não se limitar a murmurar antigas fórmulas, mas for capaz de ousar novamente a aventura espiritual que o próprio
Avicena ousou.
A aventura espiritual de
Avicena é narrada em três recitais principais: o Recital de Hayy ibn Yaqzan, o Recital do Pássaro e o Recital de Salama e Absal.
O termo “recital” é deliberadamente utilizado em vez de “história” ou “alegoria”, para indicar uma narrativa de iniciação interior.
Parece que ninguém ainda tentou meditar sobre esses três recitais juntos para entendê-los como um “ciclo”, sendo esta a intenção da presente publicação.
O orientalista dinamarquês A. F. Mehren realizou um trabalho pioneiro no século passado, mas as condições de publicação podem ter contribuído para a indiferença posterior.
Uma nova tentativa era necessária para comunicar à alma do leitor ocidental algo da emoção e do segredo da experiência pessoal de
Avicena contida nesses recitais.
A descoberta de um manuscrito antigo em Istambul, contendo a tradução persa do Recital de Hayy ibn Yaqzan com um comentário também em persa, serviu como convite para retomar o estudo dos recitais avicenianos.
O manuscrito foi encontrado por um erro de localização na biblioteca de Santa Sofia e parecia não ter sido registrado anteriormente.
Essa descoberta forneceu uma contribuição notável para o corpus aviceniano em língua persa.
A celebração do milênio de
Avicena no Irã foi a circunstância solene que levou à publicação deste estudo.
O estudo apresenta as grandes temas que mostram a situação filosófica do homem aviceniano no cosmos e oferece traduções dos três grandes recitais.
A Parte II é dedicada à tradução completa do comentário persa sobre o Recital de Hayy ibn Yaqzan, possivelmente obra do contemporâneo e amigo de
Avicena, Juzjani.
Os recitais avicenianos mostram a filosofia não apenas como uma construção de um universo espiritual, mas como o repositório da Imagem que o próprio homem Avicena carrega em si, uma Imagem que precede toda percepção.
Essa Imagem é o que a psicologia profunda chama de Imago, expressando o ser mais profundo da pessoa.
Cada pessoa carrega em si a Imagem de seu próprio mundo, sua Imago mundi, e a projeta em um universo que se torna o palco de seu destino.
A situação de inconsciência dessa Imagem cessa na medida em que a alma adquire consciência e consegue passar além dos círculos que a aprisionavam.
Essa aventura é narrada como uma experiência pessoal no Recital de Hayy ibn Yaqzan e no Recital do Pássaro.
Os sistemas do universo aviceniano não aparecem mais como moradas que moldam o pensamento de fora, mas como estágios que a alma atravessa em seu caminho de volta do Exílio.
A prontidão filosófica para conceber o universo e as essências inteligíveis é complementada pela capacidade imaginativa de visualizar figuras concretas e encontrar “pessoas”.
A alma revela todas as presenças que sempre a habitaram, contempla a si mesma e narra sua própria história em busca de sua linhagem de seres de luz.
A totalidade do ser humano (homo integer) só pode ser expressa em um símbolo, e a autenticidade da experiência de maturidade espiritual é atestada pela capacidade do ser de criar seu próprio símbolo.
Um
Avicena ou um Suhrawardi tiveram o poder de criar seus próprios símbolos, em diferentes graus de seus respectivos gênios.
O universo desses filósofos não está morto nem superado, pois oferece não apenas filosofemas a serem aprendidos, mas símbolos a serem decifrados e avanços espirituais a serem realizados.
Na medida em que um autor se eleva aos símbolos, ele próprio não pode esgotar o significado de sua obra, que permanece latente no pleroma dos símbolos.
Desse ponto de vista, pode-se ouvir o chamado que a obra de
Avicena ainda dirige hoje, especialmente àqueles que no Irã mantiveram a tradição.
No Ocidente, o renascimento dos estudos de filosofia medieval permite que se seja tomista, escotista ou agostiniano sem se sentir fora do próprio tempo, e mesmo que não se professe nenhuma dessas doutrinas, pode-se valorizar positivamente esses universos teológicos.
O interesse envolvido é mais decisivo do que o interesse próprio de uma “história da filosofia”.
É necessário compreender o modo de percepção próprio a cada sistema (modus intelligendi), que é a expressão direta de um modo de ser (modus essendi).
A formação espiritual que essa tarefa exige é o segredo de uma alma e de suas metamorfoses.
No Oriente, por outro lado, vê-se uma preservação exemplar da filosofia tradicional, sendo uma honra para o Irã ter mantido sua filosofia viva através dos séculos.
A Cripta Cósmica: O Estranho e o Guia
O Recital de Hayy ibn Yaqzan ensina a orientação fundamental, tornando possível falar de um Ocidente e de um Oriente do cosmos.
A possibilidade dessa orientação permite responder à pergunta “onde?” indicando uma direção que situa a existência humana.
A resposta orienta a alma no sentido de sua condição de Estranho e em direção à necessidade de uma filosofia oriental.
A ideia desse Oriente já está formulada no célebre “Hino da Alma” nos Atos Gnósticos de Tomás.
A continuidade que surge entre essas recorrências corresponde a um “tempo hierofânico”, que não é a história externa das seitas, mas a presença cíclica de seu “arquétipo”.
A estrutura do espaço revela à análise fenomenológica um sentido particular do cosmos, que experimenta este mundo como uma cripta, onde o céu se curva como uma cúpula sobre a terra.
A intuição do mundo como cripta difere tanto do espaço infinito da alma faustiana quanto da intuição antiga do mundo como soma de formas ou objetos corpóreos.
Nesse sentido de mundo, pode haver uma ambivalência, como na cosmologia babilônica, que projeta o mundo como uma estrutura de sete andares.
A regularidade do cosmos, a necessidade inelutável governada pelo curso dos planetas, pode se tornar uma expressão do Antidivino, transmitindo um terror pânico.
Essa mudança no sentido do espaço cósmico é motivada pela percepção de um drama no pleroma dos seres celestiais.
O cosmos, a região astral com todo seu aparato de poder, não constitui mais a totalidade do ser, pois o reino da Luz começa além.
O sentimento dominante em todo gnóstico é o de ser um Estranho, o que dá à sua consciência seu poder de exaltação, fazendo-o sentir que não pertence a este mundo.
Ao despertar para o sentimento de ser um Estranho, a alma gnóstica descobre onde está e pressente de onde vem e para onde retorna.
A ideia de Retorno implica uma presença prévia, uma pré-existência no país de origem, pois a pátria verdadeira não é nenhuma cidade deste mundo.
A alma que despertou para sua individualidade não pode mais se satisfazer com regras comuns e preceitos coletivos.
As figuras de Salama e Absal correspondem a Prometeu e Epimeteu, onde o elemento prometeico obedece à alma individual e nunca se curva à regra coletiva.
A alma deve encontrar o caminho de Retorno, e esse caminho é a Gnose, no qual ela precisa de um Guia.
Há um sincronismo entre o despertar da alma para si mesma e sua visualização de seu Guia, que é a figura arquetípica dos recitais visionários.
No momento em que a alma se descobre estranha e sozinha, uma figura pessoal aparece em seu horizonte, simbolizando com as profundezas mais íntimas da alma.
A alma descobre ser a contraparte terrena de outro ser, formando uma totalidade de estrutura dupla, que pode ser chamada de ego e Self, ou Self celestial transcendente e Self terreno.
É desse Self transcendente que a alma se origina no passado da metahistória, e ele deixa de ser estranho quando a alma se sente estranha neste mundo.
É necessária uma poderosa fonte de energia psíquica para que a imaginação crie um campo de liberdade interior para a manifestação da Imagem desse Self.
Avicena e Suhrawardi estavam entre aqueles que tiveram força para configurar seus próprios símbolos.
O Self não é uma metáfora nem um ideograma, mas “em pessoa” a contraparte celestial de uma sizígia, composta por um anjo caído ou nomeado para governar um corpo e um anjo que mantém sua morada no céu.
A ideia de sizígia está presente em todos os estágios da angelologia aviceniana, correspondendo a uma intuição gnóstica fundamental.
Essa intuição individualiza o Espírito Santo em um Espírito individual, que é o paredro celestial do ser humano, seu anjo da guarda, guia e companheiro.
As formas epifânicas e os nomes desse Guia podem ser muitos, como a Natureza Perfeita (al-tiba’ al-tamm) entre os Ishraqiyun, ou Hayy ibn Yaqzan, o pir-jovem.
Essa figura representa a contraparte celestial da alma e manifesta-se a ela no amanhecer de sua individuação perfeita.
Essa relação da alma com o Anjo é típica da piedade e escatologia do Gnosticismo, diferenciando-o de qualquer monoteísmo não-místico.
O Itinerário do Estranho deve passar além do cosmos, alcançando o pleroma arcanjélico, o “Não-Onde” (Na-Koja-Abad), o espaço puro espiritual além da Nona Esfera.
As etapas da jornada são reconhecíveis de uma Gnose a outra, das séries ascendentes dos mistérios de Mitra às do Mi’raj-Namah.
O avicenismo não descreve nenhuma dramaturgia cósmica, mas os nascimentos eternos dos Arcanjos do pleroma determinam a gênese do cosmos material.
A situação do homem neste cosmos, tal como descrita, exige uma saída real, e é por isso que ocorre a ruptura de plano indicada nos recitais visionários.
A angelologia aviceniana ensina que da Unidade divina primordial procede eternamente uma Primeira Inteligência ou Primeiro Arcanjo-Querubim, cujo ser já contém uma dualidade.
Dessa tríplice autointelecção procedem um segundo Arcanjo, a Primeira Alma-Anjo, e a matéria do Primeiro Céu.
Desde o início do pleroma surge uma Sombra que se propaga de céu em céu até que, após o Décimo Arcanjo, a própria Sombra se torna a Inteligência Ativa e demiurgo do mundo sublunar.
Os peregrinos místicos terrenos do Recital do Pássaro cedem a uma nostalgia que é a mesma das Almas móveis das esferas celestes, cujo exílio não se origina em um “pecado” original, mas em um drama do ser.
As almas humanas compartilham desse drama porque são da mesma raça celestial que as personagens originais do drama.
Os Arcanjos ou Querubins formam uma sizígia, um par, com a Alma-Anjo que dele procede, sugerindo as sizígias de Éons masculinos e femininos no Gnosticismo valentiniano.
As almas humanas, ou mais precisamente seu duplo poder intelectivo, são os “anjos terrestres” que emanaram do Décimo Arcanjo.
A relação da alma humana com o Décimo Arcanjo é a mesma relação de cada Alma celestial com o Arcanjo do qual procede.
A função cosmológica do Anjo, enfatizada nos tratados teóricos, apresenta-se, na experiência confiada aos recitais, como uma soteriologia.
Ta’wil como Exegese da Alma
A operação mental chamada ta’wil consiste em “fazer retornar”, “levar de volta” à sua origem, tanto o texto de um livro quanto o contexto cósmico em que a alma está aprisionada.
Ta’wil forma com tanzil um par de noções complementares e contrastantes, onde tanzil designa a letra da Revelação e ta’wil significa restaurar o sentido verdadeiro e original.
Aquele que pratica o ta’wil é aquele que faz passar seu discurso da forma exotérica (zahir) para a realidade interior (haqiqat).
Sob a ideia de exegese aparece a de um Guia (o exegeta) e a de um êxodo, uma “saída do
Egito”, que é um êxodo da metáfora e da escravidão da letra.
O ta’wil dos textos supõe o ta’wil da alma: a alma não pode restituir o texto à sua verdade a menos que ela também retorne à sua verdade (haqiqat).
A relação entre majaz (metáfora) e haqiqat (realidade verdadeira) determina a vinda a este mundo e o êxodo que liberta deste mundo.
O símbolo não é um signo artificialmente construído, mas floresce na alma espontaneamente para anunciar algo que não pode ser expresso de outra forma, sendo a expressão única da coisa simbolizada.
Penetrar o significado de um símbolo não é torná-lo supérfluo ou aboli-lo, pois ele sempre permanece a única expressão da coisa significada.
Nunca se pode pretender ter ido além de um símbolo de uma vez por todas, sob pena de degradá-lo em alegoria.
Mithal é símbolo e não alegoria, e tamthil é a tipificação, a exemplificação privilegiada de um arquétipo.
A conexão estrita entre símbolo e simbolizado distingue perfeitamente o símbolo da alegoria.
A verdade do ta’wil repousa sobre a realidade simultânea da operação mental em que consiste e do Evento psíquico que lhe dá origem.
O texto do recital é ele próprio um ta’wil do Evento psíquico, mostrando quem foi levado de volta à sua origem e para quem ele foi levado.
O Evento dos recitais avicenianos ou suhrawardianos foi o êxodo deste mundo, o encontro com o Anjo e com o mundo do Anjo, que não pôde deixar de ser visualizado e configurado em um símbolo.
O Evento leva ao limite extremo do mundo, onde o cosmos cede diante da alma e deve ser interiorizado e integrado por ela.
A energia psíquica realiza a transmutação do “texto cósmico” em uma constelação de símbolos.
O que a alma visualiza de repente é sua própria Imagem arquetípica, cuja impressão ela carrega dentro de si, projeta e reconhece fora de si.
O esquema cosmológico persiste nos recitais, mas o que se modifica completamente é a situação do homem nesse cosmos.
O cosmos não é mais o objeto externo de descrições, mas a sucessão dos estágios de um êxodo perigoso.
O aparecimento de Hayy ibn Yaqzan à visão mental proclama o ponto culminante de uma experiência espiritual em que a alma atinge a presença do Self.
A exegese (ta’wil) que leva a alma de volta à sua verdade (haqiqat) transmuta todas as realidades cósmicas e as restaura a símbolos.
O Ciclo dos Recitais ou a Viagem para o Oriente
O motivo da “viagem para o Oriente” é evidente no Recital de Hayy ibn Yaqzan, onde o Anjo convida o discípulo a segui-lo, transmutando a teoria do conhecimento em uma peregrinação para o Oriente.
O Oriente revelado ao adepto é o horizonte da sabedoria oriental (hikmat mashriqiya), e é sob a condição de praticar essa “filosofia oriental” que o filósofo se torna um “filósofo oriental”.
A qualificação “Oriental” vem ao filósofo como uma qualificação transcendente, na medida em que ele está orientado para o Oriente no sentido verdadeiro.
O significado transcendente do Oriente, a transmutação do significado geográfico no símbolo de uma realidade superior, tem precedentes ilustres na literatura do Gnosticismo.
A disputa sobre a qualificação “Oriental” também implica a definição de uma relação entre pessoas, ou seja, entre
Avicena e Suhrawardi.
Para Suhrawardi, a sabedoria iluminativa (ishraq) é oriental (mashriq) e vice-versa, sendo o Oriente a aurora eterna das Luzes arcanjélicas do pleroma.
Não se deve mais falar de “Sábios Orientais” a não ser em termos de uma “sabedoria oriental” (hikmat mashriqiya), pois é esta que confere a esses filósofos seu denominativo de origem.
A relação entre Avicena e Suhrawardi pode ser melhor compreendida através dos recitais visionários do que através de comparações de tratados teóricos.
Suhrawardi admite ter deixado sua imaginação voar a partir da conclusão do Recital de Hayy ibn Yaqzan para compor seu Recital do Exílio Ocidental.
O tom dos dois mestres difere, mas o recital de
Avicena representa um momento capital na história do espírito iraniano.
Suhrawardi, em seu prólogo ao Recital do Exílio Ocidental, afirma que encontrou no recital de
Avicena frases espirituais admiráveis, mas que lhe faltavam iluminações mostrando a experiência suprema, o Grande Soterramento.
Suhrawardi observa que não há referência a esse mistério no Recital de Hayy ibn Yaqzan, exceto no final do livro, onde se diz que às vezes os Solitários entre os homens emigram para Ele.
No final do recital de
Avicena, o Anjo (Hayy ibn Yaqzan) profere o convite: “Se quiseres, segue-me em direção a Ele”.
No início do Recital do Exílio Ocidental, a poupa traz ao exilado a mensagem de seu “pai” (a Inteligência ou Espírito Santo): “Toma a estrada. Não demores tua partida”.
A ordem em que a trilogia dos recitais avicenianos deve ser lida é confirmada pelo destino do peregrino: primeiro o Recital de Hayy ibn Yaqzan (iniciação no Oriente), depois o Recital do Pássaro (resposta ao convite) e finalmente o Recital de Salama e Absal (tipificação da angelicidade virtual da alma).